07 março 2009

Desigualdade persiste

 


Em tempos de crise são sempre elas as primeiras e as que mais gravemente a sentem.


 


Não só porque ganham menos que eles, como porque perdem mais rapidamente o emprego, como porque ainda têm que prover ao sustento e acompanhamento dos filhos, netos e pais.


 


São sempre mais pobres e por mais tempo. Portugal, infelizmente, não é excepção, antes a regra.


 

Ciclo vicioso

 


No DN de hoje vem uma reportagem sobre as penhoras e os endividamentos extremos das famílias.


 


Conta, entre outros casos, o de um casal com 2 filhos que tinha um endividamento ao banco de €200.000, pela compra de uma vivenda com 2 andares, jardim e garagem, quando os seus ordenados eram de €1.200 (ela) e o ordenado mínimo nacional (ele), em 2003.


 


Não perderam o emprego, não adoeceram. Apenas estavam a viver muito acima das suas possibilidades. A preocupação da senhora era como explicar ao filho mais novo porque tinham mudado de casa (andar de 3 assoalhadas). Pois, talvez fazer-lhe ver que não tem dinheiro para manter a casa grande.


 


Este ciclo vicioso de ter que aparentar uma imagem de riqueza e bem-estar, de ter que prover a todas as necessidades que imaginamos que existem às nossas crianças, de haver bancos que emprestam estas quantias de dinheiro com juros que se antecipa que serão impossíveis de pagar a curto ou a médio prazo, é o que temos que quebrar na nossa cabeça.


 

Perfeito

 



(escultura de John Dawson, bronze: lacy lovers)


1.


Encerro as mãos

fecho a usura dos dias

congelo pedras

odores a maresia

encerro o acaso

a dança dos dedos

finalizo sinais.

Sinto demais.




2.


Perfeita a tua boca na minha

perfeito gozo de antecipação

perfeita a tua mão que caminha

perfeita dor de imensidão.




3.


O dia estende-se na plenitude da descoberta

profundo e imenso como cântaros sem fim

na água que adormece a realidade.

 

06 março 2009

Jacqueline du Pré (1)

 



 


Edward Elgar: Concerto para violoncelo - 1º movimento


Violoncelista: Jacqueline du Pré


Maestro: Daniel Barenboim

Terra


(Teresa Dias Coelho)


 


Escavo demoradamente palavras

terra de raízes e pedras.


 


Cega surda aplicadamente

afundo os olhos pelo silêncio.


 


Cavo o corpo como a luz

que todos os dias apago.

 

05 março 2009

A crise

O preço do petróleo tem vindo a descer, ao contrário do preço da gasolina que se mantém altíssimo, tendo subido precisamente com o argumento da subida do petróleo.


 


Assim não me espanta nada que a GALP possa exibir os lucros que fez em 2008, imoralmente à custa dos consumidores.


 


Também gosto bastante dos défices tarifários da EDP e da necessidade de aumento da electricidade.

Ler o futuro

 


Vejo-a a tremer, magra, com cabelo grisalho, a pintura dos olhos a escorrer com as lágrimas, a custo retidas. Os dentes pouco cuidados, as mãos grandes amarfanham um lenço de papel que se desfaz.


 


Fala alto, aos arrancos, vociferando contra quem ali a enviou, quem a assustou, quem lhe apontou o crescimento rápido daquele nódulo como algo que podia ser perigoso. Pergunta com os olhos em alarme se era assim, que não podia ser assim, que não lhe doía, que desumanidade por a terem assustado.


 


Estava desempregada e tinha conseguido inscrever-se num curso de formação de estética, não podia interromper por ninharias sem importância. Não podia ficar em casa como uma gaiata.


 


Foram uns sacanas pois tinham-na despedido a ela, que era efectiva há 15 anos, que podia ter ido para outra loja fazer depilação e epilação, que já tinha 47 anos. Deitada no catre estica o pescoço longo, o cabelo espalhado pelo branco do papel, entrecortada pelo choro, desempregada há 1 ano e meio.


 


Magra, magra, agradece e aperta as mãos, desculpe que estou de luvas, não faz mal que também usava luvas quando fazia depilação e epilação.




______


Percorreu a lâmina em busca das marcas de alarme, procurando ler nas células o futuro. 


 



 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...