Vejo-a a tremer, magra, com cabelo grisalho, a pintura dos olhos a escorrer com as lágrimas, a custo retidas. Os dentes pouco cuidados, as mãos grandes amarfanham um lenço de papel que se desfaz.
Fala alto, aos arrancos, vociferando contra quem ali a enviou, quem a assustou, quem lhe apontou o crescimento rápido daquele nódulo como algo que podia ser perigoso. Pergunta com os olhos em alarme se era assim, que não podia ser assim, que não lhe doía, que desumanidade por a terem assustado.
Estava desempregada e tinha conseguido inscrever-se num curso de formação de estética, não podia interromper por ninharias sem importância. Não podia ficar em casa como uma gaiata.
Foram uns sacanas pois tinham-na despedido a ela, que era efectiva há 15 anos, que podia ter ido para outra loja fazer depilação e epilação, que já tinha 47 anos. Deitada no catre estica o pescoço longo, o cabelo espalhado pelo branco do papel, entrecortada pelo choro, desempregada há 1 ano e meio.
Magra, magra, agradece e aperta as mãos, desculpe que estou de luvas, não faz mal que também usava luvas quando fazia depilação e epilação.
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Percorreu a lâmina em busca das marcas de alarme, procurando ler nas células o futuro.
