06 dezembro 2008

Quinto poema do pescador

 



(poema de Manuel Alegre; pintura de Craig Barber)


 


 


Eu não sei de oração senão perguntas

ou silêncios ou gestos ou ficar

de noite frente ao mar não de mãos juntas

mas a pescar.


 


Não pesco só nas águas mas nos céus

e a minha pesca é quase uma oração

porque dou graças sem saber se Deus

é sim ou não.


 


 


(em homenagem aos pescadores)

Namoro

Não sei qual é a melhor canção de amor. Mas esta é uma das melhores.


 


 



 


 


 


Mandei-lhe uma carta em papel perfumado

e com letra bonita eu disse ela tinha

um sorrir luminoso tão quente e gaiato

como o sol de Novembro brincando

de artista nas acácias floridas

espalhando diamantes na fímbria do mar

e dando calor ao sumo das mangas


 


Sua pele macia - era sumaúma...

Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas

sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo

tão rijo e tão doce - como o maboque...

Seus seios, laranjas - laranjas do Loje

seus dentes... - marfim...

 


Mandei-lhe essa carta

e ela disse que não.


Mandei-lhe um cartão

que o amigo Maninho tipografou:

"Por ti sofre o meu coração"

Num canto - SIM, noutro canto - NÃO

E ela o canto do NÃO dobrou


 


Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete

pedindo, rogando de joelhos no chão

pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,

me desse a ventura do seu namoro...

E ela disse que não.


 


Levei à Avo Chica, quimbanda de fama

a areia da marca que o seu pé deixou

para que fizesse um feitiço forte e seguro

que nela nascesse um amor como o meu...

E o feitiço falhou.


 


Esperei-a de tarde, à porta da fabrica,

ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,

paguei-lhe doces na calçada da Missão,

ficamos num banco do largo da Estátua,

afaguei-lhe as mãos...

falei-lhe de amor... e ela disse que não.


 


Andei barbudo, sujo e descalço,

como um mona-ngamba.

Procuraram por mim

"- Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"

E perdido me deram no morro da Samba.


 


Para me distrair

levaram-me ao baile do Sô Januario

mas ela lá estava num canto a rir

contando o meu caso

as moças mais lindas do Bairro Operário.


 


Tocaram uma rumba - dancei com ela

e num passo maluco voamos na sala

qual uma estrela riscando o céu!

E a malta gritou: "Aí Benjamim !"

Olhei-a nos olhos - sorriu para mim

pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.


 


(poema de Viriato da Cruz; canta Fausto)

05 dezembro 2008

Falta de assunto

Vi um pouco das prestações de Maria de Lurdes Rodrigues na Assembleia e dos representantes das bancadas do PCP, do BE, do PSD e do CDS. Aliás vi o que passaram nos telejornais de ontem. A avaliar por esses breves momentos a discussão deve ter sido pouco elevada.


 


O que, posteriormente, todos os órgãos de comunicação divulgaram foi o recuo da Ministra porque admitiu substituir este sistema de avaliação no próximo ano, caso se demonstrasse no terreno que era inexequível ou se surgisse outro modelo credível de avaliação, coisa que até à data não aconteceu.


 


Claro que ninguém se lembrou que no memorando assinado pelos sindicatos estava prevista uma comissão de acompanhamento do modelo, que faria as modificações e os ajustamentos que fossem necessários. Também ninguém se lembrou que só alguém muito estúpido é que não coloca a hipótese de mudar aquilo que está mal, quando se demonstra que está mal. 



 


Depois do debate de ontem, a moção de hoje para suspender a avaliação não passou por falta de quórum da oposição. É extraordinário.


 


Por outro lado a TSF deu o mote do caso do dia: Santana Lopes acha que o governo está a esticar a corda com o Presidente para provocar eleições antecipadas. A falta de assunto é tal que Santana Lopes brilha sempre que abre a boca, nem que seja para dizer um disparate sem nome.


 


Nota: vale apena ler também o artigo de Fernanda Câncio, no DN de hoje, e este post do Valupi, no Aspirina B.

Wanted, dead or alive

 



 


Wanted, dead or alive


(Actualizado em 08/12/2008)

04 dezembro 2008

Lendo blogues

Faço minhas as suas palavras...


 


...e estas também...


 


...assim como estas...


 


 

A crise no nosso contentamento

Afinal a crise é o melhor que nos podia acontecer! Quem pode duvidar?


 


Será que a crise foi uma estratégia bem sucedida de Sócrates para melhorar a economia portuguesa e devolver algum poder de compra aos depauperados cidadãos?


 


Mercado parcial

Nos últimos tempos tenho discordado quase a 100% com as posições de Manuel Alegre. Mas hoje partilho da sua indignação quanto ao processo pouco claro e de muito duvidosa inspiração socialista que levou à intervenção do Estado no BPP.


 


Aliás ninguém ainda conseguiu explicar exactamente a razão da premência do apoio. Todas as justificações que vão sendo dadas, uma a seguir à outra quando a primeira se demonstra ridícula, são estapafúrdias, dando a impressão de desculpas de mau pagador.


 


As leis do Mercado, aquela entidade sábia e abstracta que vogava e governava as economias, hoje em dia com a reputação pela lama, também se deveriam aplicar, para além das fábricas de sapatos e de têxteis, aos bancos que fazem a gestão das poupanças de alguns quantos pequenos e médios empresários (tal como Francisco Balsemão).


 


Além de que o risco sistémico e a vergonha nacional por essa Europa fora, resultante da falência de tão importante banco, são desconhecidos da própria Europa, a braços com falências e aflições financeiras bem mais importantes.


 


Pois é, bem fazia falta algum preconceito esquerdista nesta matéria. Mais espantosa ainda é a troca de papéis de alguns actores políticos. Paulo Portas também estava indignado pelo salvamento do BPP.


 


Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...