
(pintura de Amy Cutler: Viragos)
Conheço famílias monoparentais e famílias poliparentais, com uma mãe, com duas mães, com mãe e avó, com tia e avô, sem mulheres, famílias de menores, famílias de velhos, famílias com um pai, muitos pais, com amigos e primos, com amigas dos primos, com cães, gatos, peixes.
Conheço famílias com dinheiro e sem ele, com televisões, com telemóveis, com comprimidos, com bebidas, com armas, com estaladas e murros, com gritaria e arrancar de cabelos, com solidão e vazio, com mortos nos armários, com silêncios e rupturas.
Conheço famílias com beijos e palmadas nas costas, com suspiros de resignação, com voltas e reviravoltas das cabeças, com espaços por ocupar, com mãos entrelaçadas nos passeios, corpos arrulhando devagar, com roupa desarrumada e paredes forradas de livros.
Não há garantia de estruturação ou de felicidade. Não se sabe se alguém se mata ou mata o parceiro, ame mais por ser homossexual, heterossexual ou assexuado, saiba gerir as emoções, desista de tudo ou invista em nada, que dê pontapés no destino ou arranque as pedras da calçada.
A única garantia é que há sempre hipótese de ser feliz, todos os dias teremos que fazer essa aposta, com pais ou sem eles, com mães ou sem elas, às vezes e sempre e sobretudo por nós, quando e se conseguimos encher um cantinho do coração de alguém.