09 agosto 2008

E por isso se morre

 


(Pintura de Kazuya Akimoto: dying blue)


 


E por isso se morre

esquecendo uma porta

que se entreabre

desviando um olhar

que se procura

lambendo uma gota

que se oferece

mesmo quando sobram

mundos isolados de corais

mesmo quando sobram

gestos desajustados imortais.

06 agosto 2008

Desequilíbrio

A ventoinha e o computador, antagonizados e ligados, um venta e esfria os braços, outro pesa e aquece as pernas. Equilíbrio instável entre o passado e a modernidade, a era mecânica e a era digital.


 


A televisão fala à minha frente e ouvem-se abafadamente uns ruídos agressivos que se escapam pelas frestas da porta do quarto do filho.


 


Mas que mundo esquizofrénico e barulhento em que nos habituamos a viver. E todos nós, naturalmente, com os sentidos continuamente estimulados por esta cacofonia de sons e imagens, totalmente alheados e entregues ao nosso corpo, olhos no visor e dedos no teclado, queimamos células e horas.

03 agosto 2008

A única solução

Não deveremos nunca resignar-nos à única solução, por poucas que vislumbremos em alternativa. A única solução transforma-se rapidamente em solução única. É o caminho inevitável para o adormecimento da mente, a repressão da criatividade, o absoluto, o autoritarismo.


 


É muito mais fácil deixarmos que aqueles que têm uma solução a transformem na salvação suprema, é muito mais fácil acolhermos os seus gestos sábios, as suas vozes certas e seguras, o mal disfarçado desdém pela opinião.


 


Todos os dias enfrentamos a realidade da escolha, da decisão, do caos que tentamos organizar dentro de nós e das nossas vidas. Todos os dias se enfrentam aprendizes de magos na venda de milagres.


 


Não deveremos nunca abdicar dos nossos sentimentos, dos nossos raciocínios, das nossas críticas, da nossa liberdade.

Impalpável


(pintura de Kelley MacDonald: Pirate's Cove Plain Air)


 


E se as palavras me faltarem

presas nos bicos das gaivotas

nas asas da penumbra

no enleio das madrugadas


 


olha os caminhos sulcados da pele

o manso respirar dos dedos

as formas que se dobram no côncavo

do impalpável silêncio.

Veludo


(pintura de Lorenzo Dupuis)


 


Arredondei momentos de crise

em pequenos dardos envenenados.

Hoje abraço a pele dos leopardos

firo-me em garras de veludo

e morro lentamente.

02 agosto 2008

Mozilla Firefox

Depois de uma manhã inteira sem poder aceder ao meu blogue, assim como a muitos outros, porque deu um fanico ao internet explorer 7 que eu não consegui arranjar, a conselho do meu Consultor para computadores, mudei para Mozilla Firefox. Fantástico!


 


Quem poderá negar os progressos deste século?


 



 


Adenda: A explicação do mistério deu-ma o Filipe Tourais, mas é melhor lerem.

01 agosto 2008

Cooperação estratégica


 


A comunicação do Presidente da República deixou espantada a maioria das pessoas que passaram todo o dia a especular qual seria o assunto de tal maneira sério e grave que levasse a uma comunicação solene, à hora de abertura dos telejornais, sem divulgação prévia do assunto a abordar.


 


Pelo que percebi o Presidente quer que a Assembleia da República altere alguns artigos do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, aprovado por unanimidade pela Assembleia Regional dos Açores e pela Assembleia da República, que não foram considerados inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional:



  1. A norma relativa à dissolução da Assembleia Legislativa dos Açores

  2. A nomeação do Representante da República nas Regiões Autónomas

  3. O procedimento de audição qualificada

  4. A limitação dos poderes de revisão do Estatuto pela Assembleia da República às normas que tenham sido objecto da iniciativa da Assembleia Legislativa Açoriana


Pareceram-me totalmente justificadas as reservas do Presidente. Não é lógico que a dissolução da Assembleia Regional dos Açores precise de mais formalidades para se concretizar, mesmo que sejam apenas formalidades, do que a dissolução da Assembleia da República.


 


Também acho extraordinário que uma lei aprovada pela unanimidade nos parlamentos regional e nacional esteja ferida de oito inconstitucionalidades definidas unanimemente (passe o pleonasmo) pelo Tribunal Constitucional.


 


O que não consigo descortinar é o motivo de tanto segredo, tanta pompa e circunstância e tanta gravidade. Porque não uma mensagem à Assembleia da República? Porque não uma conversa com os representantes dos partidos, fazendo chegar até à comunicação social a decisão de vetar politicamente a lei, caso não fossem feito as alterações? Porquê esta encenação e este dramatismo? Qual seria o propósito do Presidente, tão cuidadoso e escasso nas declarações, tão parco e rígido com as suas opiniões?


 


As reacções dos partidos foram interessantes: Manuela Ferreira Leite quebrou o seu silêncio estratégico tendo sido a primeira a acatar as ordens presidenciais, apesar de o PSD, já sob a sua liderança, a ter aprovado. O PCP, o BE e o CDS também afirmaram a intenção de tudo fazer para alterarem a lei, de acordo com as preocupações de Cavaco Silva. O PS ficou isolado na defesa da lei que tinha sido aprovada pela totalidade dos deputados.


 


Será que foi esse o objectivo do Presidente? Criar condições para que o PS se visse obrigado a reagir e a abrir um conflito institucional? Pelas correcções às primeiras reacções do PS, José Sócrates não se arriscará a fazê-lo.


 


Mas uma coisa é certa, a suspeita de que Cavaco Silva está a entrar na disputa política, sendo olhado como uma esperança da direita liderada pelo PSD, está patente. Por outro lado Cavaco Silva escamoteou o capital de credibilidade que mantinha, correndo o risco de nunca mais ninguém levar a sério o anúncio de comunicações presidenciais.


 


Afinal o Presidente está a alimentar tensões institucionais, em vez de as prevenir e evitar. Alguém falou em cooperação estratégica?


 


Adenda: apesar de defender o contrário do que aqui digo, vale a pena ler este texto de Paulo Pedroso, no Canhoto.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...