06 junho 2008

Cheques Saúde

Ora tão bem que o Bastonário da Ordem dos Médicos defende o SNS! Em vez de decidir quantos dentes ou que bocados de dentes se podem tratar, poderíamos ter a liberdade de escolher a metade da hérnia, o terço da hipertensão, ficando o resto para pagar a fisioterapia!

Alternativas a Sócrates

A entrevista de Manuel Alegre a Judite de Sousa, como aliás se demonstra por um pequeno excerto transcrito na Câmara Corporativa, é a prova provada de que não há alternativa à esquerda.


 


O triste é que Manuel Alegre está convencido que os votos que quase o levaram à 2ª volta das eleições presidenciais também se agregarão à sua volta para uma eventual coligação das esquerdas. Não há esquerdas credíveis e o Bloco de Esquerda usa a mesma retórica de Manuel Alegre, reciclada de moderno.


 


Quem fará parte de uma tal coligação de esquerdas? É transparente a ausência de ideias e de alternativas, pois quando se perguntam coisas concretas, as respostas são grandiosas com imensas palavras cheias de nada.


 


Se há alternativas à governação socialista elas estão à direita e não à esquerda. E é por isso que a movimentação do Bloco aproveita a situação, visto que não tem havido oposição ideológica à direita. Assim é fácil acusar o governo socialista de governar com capitalismo socialista.


 


Quanto à total lavagem cerebral sobre a grandiosidade da queda do governo, do descontentamento popular, da crise horrível que todos vivemos, dos maus ricos e dos pobres bons, obviamente encabeçados e organizados pelo PCP e engrossados por todos os descontentes de tudo o que aconteceu desde há 8 ou 10 anos, pela crise internacional, etc, lembro-me das grandiosas manifestações que o PCP mobilizava em 1974, das enormes quantidades de trabalhadores, operários e camponeses que marchavam contra todos os reaccionários (que eram todos os que não eram comunistas) e pela surpresa dos resultados eleitorais em 1975.


 


Vendo e ouvindo o que Joana Amaral Dias está a dizer no Expresso da Meia-Noite (outra personagem urticariforme, e quanto a arrogância, falta de humildade e retórica vazia…) continuo convencida que não há alternativa a Sócrates à esquerda. Pode haver alternativas a Sócrates, mas dentro do espaço ocupado pela esquerda socialista e moderna, onde não se inscreve o Bloco de Esquerda.

Regresso a casa

Sinto sempre uma desconfiança instintiva quando ouço falar de políticas de apoio à natalidade e à maternidade. Arrepio-me de cada vez que se enaltecem as qualidades das mulheres que cuidam dos seus rebentos, que quereriam estar em casa 6 meses, 8 meses, 12 meses, para amamentarem, para darem papas e banhos e para assistirem ao gatinhar, ao rir, ao andar dos seus rebentos.




Estranho a enorme quantidade de consultas a que têm que ir acompanhadas dos respectivos companheiros, quer eles queiram quer não, esperando horas infinitas para poderem ouvir os dois que o feto ainda na barriga da mãe tem que ter a companhia do pai, o amor, o apoio, enfim, toda aquela retórica que acompanha o amor e a educação primorosa que nos ensinam que é a correcta e única possível.




É claro que acho muitíssimo bem que quem quiser fique em casa a cuidar dos filhos. O que me parece é que, encapotada e subliminarmente, se vai fazendo de novo uma lavagem ao cérebro da sociedade ensinando às mulheres que a sua função primordial é procriar, amamentar e acompanhar os filhos, e que só o não fazem por razões económicas.




Se o tempo gozado em licença de maternidade fosse dividido entre o pai e a mãe, ambos teriam oportunidade de acompanhar os filhos e de prosseguirem as suas careiras profissionais. A coberto de um grande apoio social à família e à mulher, empurra-se de novo o género feminino para a sua função reprodutora, esquecendo que as mulheres são maioritárias no desemprego em geral e no desemprego de longa duração, em particular.




As políticas de apoio à natalidade deveriam ser igualitárias, com a existência de creches na proximidade dos locais de trabalho, horários em part-time, teletrabalho, tudo o que facilite a vida de quem tem filhos, mas em pé de igualdade para ambos os sexos. Em vez de se insistir para que os homens ajudem e acompanhem a gravidez das mulheres como uma obrigação, por vezes ridícula e sem justificação, olhando quem não o faz como um machista sem remédio, seria melhor que se insistisse na necessidade de os homens ficarem em casa metade da licença de parto, no acompanhamento dos filhos ao médico e aos infantários, na facilidade com que os podem alimentar, exactamente da mesma forma que as mães. E não condenar as mães que optam por dar biberão, que querem regressar ao trabalho rapidamente após o nascimento da criança, que também gostam de beber um copo com amigos ou colegas de trabalho ao fim da tarde, que adoram a sua independência económica, que não gostam de ficar em casa. Não são piores mães por isso.




E também se pode ter liberdade de escolher não ter filhos.




Depois da revolução da pílula, da conquista da independência económica e da realização profissional, a sociedade parece quer fazer sentir de novo que as mulheres têm uma obrigação imperiosa, da qual depende até a sobrevivência da espécie, de regressar a casa.


 


 


(Nota: este texto foi hoje publicado no Corta-fitas, respondendo a um amável convite do Pedro Correia. Espero que os corta-fiteiros não se desiludam. Obrigada.)

05 junho 2008

Personagens urticariformes

José Lello pode juntar-se a Vitalino Canas na galeria de cromos tristes e que causam urticária.

Radicalismo reciclado

Para quem lhe apetecer ficar embasbacado com o seu esquerdismo ou, pelo contrário, com o seu liberalismo, autoritarismo ou liberalismo, divirta-se a fazer este teste: political compass (retirado daqui).


 


Acho que já o fiz há uns anos, e parece-me que estou cada vez mais radical...


 


 


The Political Compass

Economic Left/Right: -6.75 Social Libertarian/Authoritarian: -5.33

 


Público e privado

Há uma coisa (se calhar até há mais) em que estou em total acordo com Manuel Alegre: no facto de se diabolizar o público e de se endeusar o privado.


 


O estado tem um papel essencial nas sociedades democráticas modernas e determinante no assegurar de igualdade de oportunidades em sectores de sobrevivência, coesão e solidariedade sociais. O discurso neoliberal de tudo privatizar e tudo confiar à sociedade civil, transforma um dever social em caridade de ricos para os pobres, transforma a sociedade num grupo de classes que se perpetuam.


 


Mas não aceito as críticas do economicismo deste governo. É absolutamente indispensável rentabilizar e melhorar a qualidade, a eficiência e a produtividade dos serviços públicos, porque é para eles que todos os anos pagamos impostos. E a falta de eficiência e o desperdício são o que de pior podemos fazer se defendemos o estado com garante e detentor de funções como a segurança, a justiça, a saúde e a educação.

O destino

Na entrevista que Manuel Alegre está a dar a Judite de Sousa apenas se percebe que acha o governo insensível. Parece-me pouco para tanta discordância.


 


Também fala dos deserdados e do emigrantes. E do destino.

  Erwin de Vris Aguardo. A música varre o tempo amena a brisa que consola. Aguardo a voz de quem se esconde a terra aprisionada ...