04 junho 2008

Transparências


(fotografia de Don Moorcroft: Shadows with Leaves


 


 


1.

Transparências opacas e densas

por entre o brilho enganador da luz difusa

ofusca e cega.

Atiro-me contra o vidro

quero chegar ao outro lado.

Estou só.




2.

Escrevinho vagarosamente letras

sem tinta

sem dedos

não as consigo entender.




3.

Não sei porque espero que o mundo goste de mim

se eu gosto do mundo

mas pouco

cada vez menos

este mundo que eu própria reduzo e encolho.




4.

Esvaziei a minha secretária.

Não vale a pena cobrir de papéis

a sombra dos dias que não passam.

Que esquerdas?

Manuel Alegre defende que a intervenção política, como intervenção cívica que é, não pode nem deve esgotar-se nas organizações partidárias.


 


Completamente de acordo, apoiei a sua candidatura independente à Presidência da República e o Movimento de Intervenção e Cidadania, como um espaço de intervenção política de quem não se revê em qualquer partido político em particular, ou não gosta da disciplina ou da vida partidária e, memo assim, gosta de debater ideias e dar o seu contributo, na medida do que sabe e pode.


 


Manuel Alegre tem tido uma postura crítica a várias medidas deste governo e tem defendido publicamente uma governação socialista mais à esquerda. Ora Manuel Alegre pertence ao Partido Socialista, é um dos seus fundadores e, segundo Ana Gomes, membro da Comissão Nacional do PS. Espera-se que Manuel Alegre defenda as suas posições nos órgãos legítimos do seu partido, para além de o fazer para o resto da comunidade.


 


Por outro lado, ao juntar-se numa reunião/comício ao Bloco de Esquerda e Reformadores Comunistas, dizendo que os portugueses estão arrependidos de ter votado no PS e reclamando-se contra o novo capitalismo socialista, depreendo que está contra a votação no PS nas próximas eleições.


 


E, nesse caso, para além de ser importante que clarifique quais as políticas e os valores de esquerda que iria promover em vez das que têm sido desenvolvidas, conviria também que esclarecesse se será protagonista de algum movimento associativo/ coligação partidária ou de tendências de outra esquerda nas próximas eleições. Advoga a votação noutros partidos/coligações que não no PS? Qual o seu programa, qual a sua equipa?


 


É que não basta dizer frases interessantes, não basta reafirmar-se como defensor de valores de esquerda sem que explicite o que e como quer promover essas políticas. Não basta dizer que se é solidário com os emigrantes e com quem sofre, mas quais as políticas para reduzir o desemprego, como vai redistribuir a riqueza, como vai ter um SNS sustentável, quais as políticas para melhorar a Escola Pública, mas concretizando, não apenas mostrando boas intenções e boa vontade.


 


Não sei se Manuel Alegre tem agendas escondidas ou se pensa nas próximas eleições presidenciais. Tenho dele uma ideia de generosidade e dedicação a causas diferente destes calculismos. Mas não me parece que Manuel Alegre esteja a prestar um bom serviço à esquerda democrática.




O país e o mundo evoluíram e não é agitando as bandeiras do que significou o socialismo democrático há 30 anos que asseguramos uma melhoria na qualidade de vida e na assistência social às populações. Não me revejo nas críticas de capitalismo socialista deste governo, nem me revejo naqueles que querem colar a governação socialista à direita. E talvez agora, que o PSD ameaça poder vir a cumprir ligeiramente melhor o seu papel de oposição, se comece a perceber as diferenças que sempre existiram.


 


 


31 maio 2008

Eleições no PSD

Parece que ganhou Manuela Ferreira Gomes (37,6%). Penso que o debate político pode melhorar um pouco, mas aceitam-se apostas quanto à data das próximas eleições no PSD.


 


Luís Filipe Menezes foi de uma deselegância profunda, para não dizer de uma canalhice sem igual. Santana Lopes (29,82%) está no seu melhor, dizendo muitas frases que não significam nada, a não ser que vai continuar por aí.


 


Pedro Passos Coelho (31,07%) posicionou-se para mais daqui a pouco. Para depois das próximas eleições legislativas.


 


Ninguém percebeu muito bem o que esteve lá a fazer Patinha Antão (0,7%). Acho que nem ele mesmo sabia.


 


 


Esperam-se as doutas palavras de Alberto João Jardim. Será para agora a independência da Madeira?

Telefonemas de felicitações

Não deixa de ser risível o cuidado com que os candidatos perdedores afirmam, rapidamente e em público, que já telefonaram aos candidatos ganhadores para os felicitar.

Revista de imprensa

Três notícias interessantes:



  1. Directas PSD: Manuela Ferreira Leite lidera contagem de votos - Público online

  2. Caso Berardo envolve nata política da Madeira - Sol online

  3. Um pescador e um polícia feridos em confrontos - Jornal de Notícias online

     

Tears dry on their own


 


Ontem o início do Rock in Rio estava marcado pela actuação de Amy Winehouse. Não porque tem uma voz portentosa e tem ganho uma data de prémios ultimamente. Apenas pelo gozo e pela antecipação dos disparates que ela faria.


 


Viria, não viria? Estaria bêbeda, drogada? Diria obscenidades? O espectáculo que se pagara era para assistir aos desmandos de uma triste estrela amassada.


 


Pois não foram goradas as espectativas. Ouvi na televisão, em reportagem e em várias revisões da matéria, a figura anoréctica, desconchavada e periclitante, desculpando-se, chorando e tropeçando, sem voz nem fio de esperança.


 


Faz-me mal ver a degradação a que as pessoas chegam. O talento não chega. Falta a dignidade e uma cabeça minimamente preparada para o horror da glória.


 


Aqui fica uma excelente amostra do que Amy Winehouse pode ser: Tears dry on their own.


 


 


All I can ever be to you,

Is a darkness that we knew,

And this regret I've got accustomed to,

Once it was so right,

When we were at our high,

Waiting for you in the hotel at night,

I knew I hadn't met my match,

But every moment we could snatch,

I don't know why I got so attached,

It's my responsibility,

And you don't owe nothing to me,

But to walk away I have no capacity


 


He walks away,

The sun goes down,

He takes the day but I'm grown,

And in your way, in this blue shade

My tears dry on their own,


 


I don't understand,

Why do I stress A man,

When there's so many bigger things at hand,

We could a never had it all,

We had to hit a wall,

So this is inevitable withdrawal,

Even if I stop wanting you,

A Perspective pushes true,

I'll be some next man's other woman soon,


I shouldn't play myself again,

I should just be my own best friend,

Not fuck myself in the head with stupid men,


 


He walks away,

The sun goes down,

He takes the day but I'm grown,

And in your way, in this blue shade

My tears dry on their own,


 


So we are history,

YOUR shadow covers me

The sky above,

A blaze only that lovers see


 


He walks away,

The sun goes down,

He takes the day but I'm grown,

And in your way, in this blue shade

My tears dry on their own,




I wish I could say no regrets,

And no emotional debts,

Cause that kiss goodbye the sun sets,

So we are history,

The shadow covers me,

The sky above a blaze that only lovers see,


 


He walks away,

The sun goes down,

He takes the day but I'm grown,

And in your way, in this blue shade

My tears dry on their own,

 


He walks away,

The sun goes down,

He takes the day but I'm grown,

And in your way, in this blue shade

My tears dry on their own,


 


He walks away,

The sun goes down,

He takes the day but I'm grown,

And in you way,

My deep shade,

My tears dry

Manipulações

Todos falam de crispação social e de instabilidade, de aumento da crise e do fosso entre ricos e pobres, assistindo-se, nos últimos dias, a declarações do Presidente da República, de Mário Soares, de Paulo Portas, de Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite e de Manuel Alegre (que decidiu que era no PCP e no BE que haveria força para responder a esses desafios) que, pelo que se propagandeia na comunicação social, estão a piorar.


 


Mas ao contrário do que se está a fazer passar aos cidadãos a situação não está a piorar mas sim a melhorar, pouco, pouco, mas a melhorar. E isto não significa que o problema não seja enorme e que se não devam procurar outras e melhores formas de distribuir a riqueza, de apoiar os sectores em maior risco, de investir, como está agora no programa de todos os partidos políticos, mas pelos vistos só agora, em políticas sociais.


 


Trata-se apenas de desmontar o alarmismo e a crispação que se estão a criar. Apesar de haver relatórios e estatísticas que os desmintam, nada faz desistir quem apostou em defender o catastrofismo instalado.


 


A luta política está já noutros campos. Neste momento os grandes actores das agendas políticas são os jornalistas. Não é de agora, nem é nenhuma surpresa, mas é cada vez mais avassalador e assustador.


 


Gostaria de saber exactamente quais as soluções que Manuel Alegre preconiza para melhorar as políticas sociais e para reduzir as desigualdades. O quê, de que forma, que políticas, mas isso no concreto e explicando como e quais as consequências. Talvez se o partido apoiasse os ministros verdadeiramente reformadores, como os da Educação e da Saúde (que saiu), por exemplo, talvez houvesse lugar a reformar aquilo que de essencial há nas funções assistenciais do Estado. Ou será que se está a preparar a hipótese de ausência de maioria absoluta (do PS) nas próximas eleições alisando o terreno para uma coligação à esquerda?


 


Ideias e idealismo não existem. Existe a lógica da repartição de lugares por quem tem estado afastado do poder. E essa lógica está a condicionar os partidos à direita mas principalmente dentro do próprio PS, mesmo daqueles que, ao longo do tempo, têm lutado pela abertura da intervenção política à sociedade civil.

  Erwin de Vris Aguardo. A música varre o tempo amena a brisa que consola. Aguardo a voz de quem se esconde a terra aprisionada ...