22 fevereiro 2008

Promessa

Chuva invisível
calçada de pedras
sussurra romance
em rios se perde.

Promessa sem pele
abafa de vento
fecha sentidos
por nada se quebra.

Arrumo olhares
desfaço e remendo
diluo na chuva
o que arde por dentro.

(pintura de Lowwell Fox: rian on the lagoon/gray rain)

A crise que vem de longe

Tanta preocupação com o mal estar da sociedade portuguesa, com a crise larvar da sociedade portuguesa, com a dissociação da sociedade portuguesa, começando a emergir Generais que ouvem intenções de revolta e que não sabem se têm capacidade para aguentar psicologicamente este estado de coisas, e grupos de cidadãos que, à esquerda e à direita, avisam, avisam, avisam que a situação está muito negra e quase a rebentar, já é um bocado repetitiva. Além disso faz-me lembrar as várias pessoas e as inúmeras conversas da mesa de café que asseguram, desde há cerca de 20 anos, a propósito do estado do SNS, que isto pior já não pode ficar, isto já bateu mesmo no fundo.

Estes grupos de cidadãos tiveram e têm responsabilidades políticas e profissionais que, em muitos aspectos, terão ajudado à descredibilização dos políticos e da causa pública e da Justiça, assim como à indiferença generalizada.

Tal como espero que o movimento de esquerda que se está a organizar no PS, sob a batuta de Manuel Alegre, clarifique as suas opções e proponha alternativas às políticas que estão a ser seguidas, esperaria que o documento da SEDES dissesse qualquer coisa de concreto, em vez de frases grandiloquentes com verdades e diagnósticos que todos estamos cansados de conhecer. Mas os últimos parágrafos não são de molde a animar essa minha esperança.

Assim só nos resta continuar a descrer, a mal-estar, a descoesivar, a encrisar e escrever textos sobre… o estado a que isto chegou. O melhor é criarmos movimentos larvares para desminar difusamente a nossa apática sociedade civil.

17 fevereiro 2008

Desafio

Esta foi a minha tentativa de resposta ao desafio que me foi lançado pela Gisela Cañamero. Não sei se era exactamente o que pretendia, mas foi o que me ocorreu.

Quanto ao seguimento da corrente, desafio todos os blogues que o quiserem fazer. É simples (!): escolham doze palavras de que gostem, expliquem o que elas vos sussurram, e passem a outros.

Doze

Doze meses
doze horas
doze badalos
no peito
doze nozes
doze vozes
doze nós
a desfazer
doze bocas
doze brincos
doze olhares
crucificados
doze pedras
doze chagas
que abri
doze Cristos
doze Judas
doze vezes
repeti
doze velas
acesas
doze mantos
sagrados
doze beijos
doze mundos
que guardo
para ti.

(pintura de Janet Carney)

Movimentos cívicos

O movimento cívico que se uniu à volta da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República foi importante e tinha um objectivo: as pessoas não se reviam em nenhum dos candidatos, e as que estavam mais ligadas à esquerda, não gostaram da forma como o candidato apoiado pelo PS foi escolhido - pelas cúpulas do partido sem atenção ao que a tão falada sociedade civil pensava. Nesse sentido o movimento cívico tinha uma alternativa, um objectivo e lutou por ele.

O movimento cívico que se gerou em volta da candidatura de Helena Roseta à Câmara de Lisboa teve exactamente a mesma lógica: uma significativa parte de apoiantes e militantes do PS, e não só, não perceberam a forma como foi escolhido o candidato oficial do PS e Helena Roseta protagonizava uma alternativa com objectivos claros e programa definido para a presidência do município.

A corrente política que se gera à volta de Manuel Alegre, dentro do PS, não se percebe se tem e qual é o seu objectivo estratégico, qual as alternativas que propõe nem o que pretende alcançar.

Se é a discussão política interna do PS, o debate de ideias num partido governamentalizado, a proposta de soluções concretas ao que se considera errado e mal conduzido, sacudindo o imobilismo de uma situação política em que não há oposição, é estimulante e indispensável.

Mas as declarações de Manuel Alegre são dúbias, difíceis de interpretar, algures entre a chantagem, a bravata e as previsões catastrofistas. A ameaça de se o desafiarem vai às urnas no país, não se entende.

Que significa isto? Se a discussão é dentro do partido, para abrir janelas e arejar ideias, se as alternativas são construtivas e exequíveis, porque não disputa Manuel Alegre a liderança do PS? Se ameaça ir às urnas no país, quer dizer que vai criar outro movimento de opinião que o apoie a concorrer ao lugar de Primeiro-Ministro, visto que as suas propostas serão diferentes e partilhadas por muitos cidadãos anónimos, dentro e fora do PS? Mas para isso é mesmo necessário que haja propostas concretas, políticas alternativas, objectivos sustentados e uma estrutura que demonstre a possibilidade de os atingir, caso a eleição seja alcançada.

Ou então, embora o negue veementemente, está em embrião a criação de um novo partido, situado à esquerda do PS. Estamos em democracia e as formações partidárias, tal como os movimentos de cidadãos, têm toda a importância. Mas, mais uma vez, qual o programa, os estatutos, os princípios, as propostas concretas para o governo, alternativas a este PS que apelidam de neoliberal?

Este caminho é pantanoso, muito pouco claro e gostaria que Manuel Alegre (que admiro e que apoiei), assim como quem o rodeia nesta tentativa de refundação da esquerda, medite bem nas consequências de gestos e palavras grandiloquentes mas sem consistência. O que está em jogo é um modelo de sociedade e um conjunto de valores que devem ser aplicados no terreno, nas circunstâncias de hoje, com os problemas económicos, de desemprego e desigualdade sociais muito resultantes do fenómeno da globalização, do regresso dos fundamentalismos religiosos, da tutela da democracia no que diz respeito à liberdade de expressão de pensamento, como é exemplo a proibição de um cartaz de publicidade no metro de Londres, com uma pintura com um nu feminino, desafios totalmente diferentes dos que existiam há 30 há 30, 20, 10 ou 5 anos.

Se há propostas eu gostaria de as conhecer, propostas concretas: o que fazer na educação, na saúde, na justiça, como enfrentar o fenómeno do desemprego e das desigualdades sociais, como aumentar o crescimento económico, como lidar com o fenómeno da imigração, da violência, do terrorismo, como manter um sistema de reformas e pensões justo e digno.

Se estas existem e não tiverem cabimento no PS, então Manuel Alegre que o demonstre e que lute por um lugar de Primeiro-Ministro para as colocar em prática. Se não quer sair do PS, que esclareça de uma vez por todas o que quer dizer com ir a votos no país.

Se não, a única coisa que me ocorre é que estamos perante um fenómeno de populismo pseudo esquerdista, que ninguém sabe o que pretende e ninguém sabe onde irá parar. Mas a experiência do PRD, desses impolutos justicialistas, não foi muito interessante.

14 fevereiro 2008

Conchas

Guardo conchas do tempo de flores
entre os dentes desejos
tatuados

guardo o prumo do fio que somos
entre os dedos sentidos
inflamados

guardo letras da vida que somamos
entre a pele os sonhos
desenhados.

(pintura de Christina Snyder Doelling: Orchids Emerging)

10 fevereiro 2008

Horas

Partilho com as horas
um entendimento perfeito
elas gastam-me
eu desperdiço-as.

Arrasto-as langorosas pelo corpo
que as acolhe sedento de rugas
perfeitas no seu inevitável
aborrecimento.


(pintura de Saba Hasan: Indifferent History)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...