16 dezembro 2007

Cabo Verde – Contos em Viagem

A viagem dos caminhos, a viagem das letras, das palavras, dos gestos, das histórias, do espaço, do mar, a viagem da vida que esperamos e da vida que temos e da vida que sonhamos, a viagem da luz, do som, dos objectos que nos compõem.

A viagem feita de fragmentos de contos, de fragmentos de poemas, de fragmentos de barcos, dos cais das partidas e das esperas, dos cais das vidas que começam e que acabam, das pessoas, das famílias, das raças, dos corpos.

A viagem dos actores e dos espectadores, a viagem de quem concebe e de quem interpreta, a viagem em comunhão, num palco quase oratório em que os fiéis participam na celebração.

O cenário despojado, minimalista, de fragmentos de madeira, de sobreposições de parca matéria; a actriz despojada e descalça, em que o vestuário é um adereço e em que o corpo se transfigura e se transforma em fragmentos das múltiplas personagens que encarna, vibrante, cheia, dengosa, choramingas, dura, crispada, esperançosa, ingénua, criança e velha, da idade dos sonhos que perseguimos; o músico despojado e descalço, que usa os materiais mais simples para acompanhar e chamar os sons, as melodias, os ritmos, as ondas do mar, as gotas da chuva, que embalam o ritmo e a cascata das palavras; a luz discreta, velada, imprescindível.

No Teatro Meridional, neste espaço em que respiramos os valores que escondemos envergonhadamente na nossa imagem de profissionais responsáveis, de adultos cínicos e velhos, aquecido por uma espécie de salamandra gigante central, com uma luz coada e reconfortante, com uma exposição de fotografia de Patrícia Poção, Alma di Terra, com chá e café para aquecer, algumas mesas para conversar, neste espaço lúdico, simples e quase solene que nos aninha e onde regressamos ao melhor que somos.
  • Textos: António Aurélio Gonçalves, António Nunes, Baltasar Lopes da Silva/Oswaldo Alcântara, Fátima Bettencourt, Germano de Almeida, João Vário, José Lopes, Manuel Ferreira, Manuel Lopes, Orlando Pereira Ramos Rodrigues, Ovídio Martins
  • Selecção de textos, dramaturgia e assistência artística: Natália Luíza
  • Direcção cénica e desenho de luz: Miguel Seabra
  • Interpretação: Carla Galvão (texto); Fernando Mota (música)
  • Música original e espaço sonoro: Fernando Mota
  • Espaço cénico e figurinos: Marta Carreiras
  • Assistência de cenografia: Marco Fonseca
  • Fotografia de cena e Registo Vídeo: Patrícia Poção
  • Montagem: Rui Alves e Marco Fonseca
  • Operação técnica: Rui Alves
  • Assessoria de gestão: Mónica Almeida
  • Direcção de produção: Narcisa Costa

13 dezembro 2007

Medidas

Contabilizamos as horas o dinheiro as coisas
com que medimos a ideia de felicidade.

Mas desmedida é esta vontade de te amar
definitiva e absolutamente
como o querer dos sentidos
finitos

prementes.

Absurdamente presentes.


(pintura de Carol Little: wind in the maples)

Coisas fantásticas

Durante anos ouviram-se os elementos bem pensantes e comentadores deste país a perorarem contra a vergonhosa fuga aos impostos, contra a apatia da máquina fiscal, contra o estado que pactuava com os caloteiros.

Depois ouviram-se os mesmos bem pensantes e comentadores a perorarem a favor da excelência de Paulo Macedo, que o que ele ganhava não interessava porque era tão bom, e que todo o dinheiro era pouco para que os poucos desgraçados que pagavam se sentissem acompanhados pela fúria vingadora do país, encabeçado por Paulo Macedo.

Pois agora ouvem-se os ainda bem pensantes e comentadores a perorarem contra a máquina fiscal que está a esmagar e a levar à falência as pequenas e médias empresas, que é uma dos grandes causadores de instabilidade e das tensões sociais no país.

Há coisas fantásticas, não há?

E agora o referendo

Foi hoje assinado o Tratado de Lisboa, objectivo mais importante e quase único da Presidência Portuguesa da União Europeia. Portugal, pelas mãos do seu Primeiro-Ministro, cumpriu a sua promessa para com a Europa.

Esperemos que o Primeiro-Ministro também cumpra a promessa que fez aos portugueses que o elegeram e marque o referendo para ratificar, ou não, o Tratado de Lisboa.

O argumento falacioso e desonesto de que quem é a favor do referendo é contra o tratado vai fazendo caminho, de forma a poder conotar-se o reaccionarismo anti-europeu e o revivalismo nacionalista, de direita e de esquerda, com a defesa do “não” ao referendo.

O anúncio da realização do referendo é apenas a demonstração do respeito devido aos cidadãos e um exercício prático de democracia: convencer as pessoas da bondade do projecto para que elas o aprovem.

12 dezembro 2007

Monopólio (2)

Há algumas dúvidas básicas, muito básicas mesmo, que me assaltam de vez em quando. Uma delas é: para que servem os lucros obscenos dos bancos? O que é que fazem ao dinheiro? Para que serve? Para colocar numa conta do Banco a render?

Monopólio (1)

Quando leio notícias sobre fusões, compras e OPAs, em que gigantes empresariais se tornam cada vez mais gigantescos e engolem as grandes empresas, que entretanto já engoliram as pequenas, que de início tinham engolido as micro, sinto-me a viver dentro de um jogo de monopólio, estando sempre a ir de algum lado directamente para a cadeia, sem passar pela casa de partida, e a pagar o couro e o cabelo de cada vez que respiro, de cada vez que coloco um pé fora da porta, alugueres milionários de quem vai construindo hotéis, palácios, comprando continentes inteiros, que estão cada vez mais vazios.

11 dezembro 2007

Fantasmas

Naquele lugar vazio à minha mesa
estão os amáveis fantasmas familiares
os simpáticos defuntos que nos acompanham
para lá do amor e da raiva
dos desencontros da carne e do espírito.

Naquele lugar vazio à minha mesa
estão os fantasmas que ignoramos
os ausentes presentes que não se esquecem
para lá do amor e da raiva
entre cruzamentos desabrigados da alma.

Naquele lugar vazio à minha mesa
estão os olhares escondidos
que serenamente me contemplam
para lá do amor e da raiva
entre silêncios imutáveis rios de distância.

(ilustração de Filipe Franco: romãs)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...