18 novembro 2007

Cantos

Encontro cantos
esquinas neste espaço
curvas de tempo
por gastar.

Escrevo enquanto
me lembrar
dos olhos das mãos
do teu olhar.


(pintura de Rose Lynn: Eagle’s Nest & Blue Sky)

Como se brincava antes da PlayStation

Com o post anterior respondi ao desafio que me fez José Simões, do DER TERRORIST, sobre como se brincava antes da PlayStation (Com'eravamo, i giochi prima della PlayStation).

Éramos mais livres, aprendíamos com tentativas e erros, as nossas famílias confiavam mais na humanidade, em geral, e em nós, em particular. E nós confiávamos uns nos outros, só chamávamos os adultos em último caso. O mundo era o nosso reino e os pais, avós, enfim, as pessoas crescidas, só serviam para atrapalhar.

Passo esta corrente (mais uma) a outros cinco blogues:

Férias grandes

O Avô já tinha saído, aí pelas 5 da manhã, bem pela fresquinha, segundo ele. Até à Tapada eram uns 2 quilómetros a pé, por caminhos de terra que atravessavam a aldeia, onde homens e animais partilhavam os passos.

O Avô era muito poupado, aproveitando tudo o que a natureza dava, mesmo que fosse o desperdício de alguma natureza, como o estrume dos burros e dos cavalos, que ele recolhia religiosamente levando, tão precavido que era, uma pá e um saco para o depositar. Era para adubar a terra, dizia ele aos netos que lhe perguntavam, angélicos mafarricos, para que queria ele bostas de burro.

Eram os Cinco, todos os Verões, mesmo que o cão fosse a criança mais nova. Tendo entre os 12 e os 5 anos, caminhavam sozinhos de madrugada, durante cerca de 2 quilómetros, sem telemóvel, cotoveleiras ou joelheiras, sem água nem comida, sem adultos por perto, e ficavam a manhã inteira a subir aos cabeços, com sandálias escorregadias, a picarem-se nos cactos, a comerem fruta das árvores, cheias de pó, maduras ou verdes de mais, em quantidades industriais, a caírem e a ferirem os joelhos e as cabeças, a pegarem em lagartixas para se assustarem uns aos outros.

Não havia melhor coisa no mundo. As partidas de badminton no quintal, com a corda da roupa a servir de rede, os jogos de escondidas, em que o mais afoito e admirado por tal feito se escondia na pocilga dos porcos, pelo que ninguém o iria encontrar nunca, embora a retrete antiga, numa casinhota com aspecto infecto, e o galinheiro ou a coelheira, também fossem lugares a que poucos se arriscavam.

A adega e o forro, cheios de tralhas antigas, móveis estropiados, arcas em que os livros contavam histórias de um amor ridículo e proibido, como proibida era a leitura de qualquer livro que não fosse Uma família Inglesa, As pupilas do Senhor Reitor, As duas Mães e poucos mais, umas escadas imensamente perigosas, que rangiam horrores, não tinham corrimão e estavam às escuras, pregos ferrugentos, toneladas de pó branco e espesso, de muitos e muitos anos, que se viam pairando no ar, pela luz baça que entrava pelo telhado, uma enorme quantidade de perigos que eles adoravam e que ninguém parecia entender.

Abandonados à sua própria sorte mas inigualavelmente felizes.

(pintura de Andrew Macara: three boys with tyres)

17 novembro 2007

Chapéus de esquerda


Abraço

Sabem – me a sal
as sombras do navio.
Basta que me abraces
e um infinito de ondas
solta-se na sede imensa
de navegar.

Sabem-me a sol
as ondas deste rio.
Basta que navegues
e solta-se a sede
no imenso infinito
do teu abraço.

(pintura de Evelyn Williams: Lovers I)

Anacronismo deontológico

A atitude do Bastonário da Ordem dos Médicos, em vez de contribuir para a credibilização e prestígio da classe médica, apenas serve para a fechar sobre si própria e afastá-la cada vez mais da restante comunidade.

O poder dos médicos, enquanto senhores de um saber que lhes dava acesso às portas da vida e da morte, conferia-lhes um halo de sacerdócio tão importante como o dos ministros religiosos.

A abertura ao conhecimento, a democratização da informação e do acesso ao saber, foi corroendo a relação entre os médicos e a restante população, porque estes se fecham e resistem com atitudes, normas e dogmas que se vão desadequando cada vez mais da sociedade em que vivem, e se vão afastando cada vez mais da verdadeira prática profissional.

Se a existência de um código deontológico se pode aceitar como normal, pela regulamentação de práticas e normas de conduta que protejam as populações de actuações erradas, abusivas, negligentes e pouco éticas, a declaração de não proceder conforme esse código questiona de imediato a pertinência desse mesmo regulamento ético.

Por outro lado, se o código deontológico se arroga como defensor da consciência dos médicos, a consciência individual é privada e o comportamento individual é regulado pela lei e pelo sistema judicial pelo que, mais uma vez, se questiona a necessidade de regulamentação de uma consciência colectiva.

As normas de conduta foram-se modificando ao longo dos séculos e aquilo que era crime há uns anos deixou de ser considerado como tal, assim como atitudes aceitáveis e até desejáveis há 50, 100, 200 anos, são agora olhadas como verdadeiros crimes.

Ao Bastonário da Ordem dos Médicos pede-se que defenda o saber, a formação, a idoneidade dos seus associados, que valorize os médicos naquilo que têm de valorizável, não a manutenção de atitudes anacrónicas, protestos de independência e superioridade moral, tão eloquentes como vazios, defendendo o indefensável.

Em suspenso

Não olho
não falo
não ouço
não sinto as migalhas
de ar
a seda dos dias
não conto as batidas
do tempo.

Estou em suspenso
espero.

(pintura de Herman Pekel: Afternoon Coffee Break)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...