20 outubro 2007

Carta

Hei-de escrever
uma carta
hei-de recortar
uma qualquer
forma geométrica
de pele
para esticar comprimir
secar de odores
gorduras manchas
hei-de riscar
tatuar em gomos
a sede a fome
a inexplicável
necessidade de ti.


[pintura de Andrew Stockwell: writing letters (by means of apology)]

E que tal pensar nisso?

Seria muito interessante que o Ministro da Saúde aproveitasse o relatório da auditoria ao SIGIC para rentabilizar mesmo os hospitais e centros de saúde, para aumentar os tempos dos blocos operatórios, fidelizar os funcionários ao seu local de trabalho e acabar com a promiscuidade entre o público e o privado.

Como se deduz do relatório, o tempo de espera para cirurgia diminuiu à custa de uma gestão centralizada e informatizada das listas de espera, pois o acesso ao sistema não melhorou, não houve aumento de produtividade das unidades hospitalares, nem individualmente dos cirurgiões, tendo os custos aumentado na fase inicial e reduzido numa fase posterior, não parecendo ter havido quaisquer ganhos.

Seria também muitíssimo interessante que o Bastonário da Ordem dos Médicos, em vez de invectivar o Ministro por causa da alteração do código deontológico para que os cumpridores da lei não fossem penalizados pela sua ordem profissional, ou sobre o inacreditável argumento da diminuição da produtividade médica pela implementação de um sistema biométrico de controlo de assiduidade, se preocupasse com a defesa e remodelação das carreiras médicas, pilares fundamentais da qualidade de prestação médica no nosso país.

Com a alteração dos vínculos de trabalho e de relação laboral entre os médicos e o seu empregador Estado, é indispensável que a Ordem dos Médicos se sente com o Ministério, com os sindicatos e com outras estruturas representativas da classe para regular e remodelar os graus da carreira, a atribuição de graus, as funções de cada grau, porque será ela, a Ordem, o tronco comum da formação médica, pré e pós graduada.

As unidades privadas de saúde devem ter, tal como as públicas, garantia de poder contratar médicos com qualidade e em contínua formação, assim como os médicos que trabalham para as unidades privadas devem ter assegurados os seus direitos a formação contínua e progressão na carreira. Para além disso, é necessário repensar o treino de especialistas, nomeadamente a idoneidade formativa dos serviços ou grupos de serviços.

Essas são preocupações que têm directa repercussão na saúde das populações. E que tal pensar nisso?

19 outubro 2007

Esquizofrenia política

Mesmo com cepticismo em relação ao que resultará do Tratado de Lisboa, não posso deixar de considerar uma vitória do governo, do Ministro dos Negócios Estrangeiros e de José Sócrates, o acordo alcançado para a assinatura do Tratado.

Outro assunto é a sua ratificação. Sócrates prometeu o referendo em campanha eleitoral; nos últimos tempos tentado recuar, com receio que o resultado do referendo seja desfavorável, estando aliás em acerto com o Presidente da República.

Muitas vozes se têm levantado contra o abandono do referendo, entre as quais a de Pacheco Pereira.

Qual não é o meu espanto ao ler um post do mesmo Pacheco Pereira, em que numa retorcida teoria acaba por afirmar que até pode ser que Sócrates avance para o referendo para ter ganhos políticos internos, denegrindo a posição que ele, Pacheco Pereira, sempre defendeu.

Portanto, para Pacheco Pereira, se Sócrates não quiser referendar está mal, pois desrespeita o povo que o elegeu, diminui a democracia e afasta os cidadãos dos governantes; se Sócrates referendar também está mal, porque o faz apenas e só porque daí tirará dividendos políticos internos, ganhando pela dúbia posição do PSD.

Pacheco Pereira entrou em delírio, em plena esquizofrenia (ou desonestidade?) intelectual.

18 outubro 2007

Agulhas

Algumas teimosas
esperas raras
assimétricas
agulhas sem barco
sem rio.

Almas quebradas pelo frio.

Quebradas.


(aguarela de Blue: I can see the universe in a handful of fallen pine needles...)

Na tua direcção

Apetece-me um armário vazio
estranho saber de pedras
de perdas de raízes.

Apetece-me uma grande mesa
sem forma um vidro
frágil colorido.

Apetece-me na tua boca
areia do tempo
algas eternas.

Apetece-me no teu corpo
mapas sinais
roda do mundo.

Na tua direcção.

(Steele Wrought Iron & Custom Metal Art: greentable)

Nódoa

Olha com mais atenção. Nem a limpeza das calças consegue manter, a única especificidade lisa, asseada, campestre, sóbria mas sofisticada, a que tem direito.

Uma nódoa cinzenta sobressai com uma lanterna na escuridão da noite. Molha a ponta do indicador com saliva e esfrega aplicadamente o tecido rugoso.

Desapareceu. Com a nódoa, ela também.

Eco

O estrondo da porta
ainda faz eco
transmite-se pelo ar
pelo corpo
em ondas de choque
como um terramoto
e as suas réplicas.

(pintura de Mauricio Ortiz: Echo)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...