29 setembro 2007

Fim de Setembro

Setembro acaba e já se perfilam o vento e a chuva, os dias cinzentos e o peso do quotidiano.

Somos bombardeados com títulos desesperantes e deprimentes, que nos conduzem a uma revolta permanente e a um descrédito nas estruturas, mas sobretudo nas pessoas que nos representam, que têm o dever de governar e de transformar o caos em ordem.

Os consumidores perdem a confiança, o petróleo sobe, os pobres empobrecem, os livros são mais caros, os horários dos estudantes são horríveis, os pais e as mães matam os filhos, a justiça entrega crianças aos bandidos, as prisões soltam perigosos criminosos, desmantela-se o serviço nacional de saúde, o Irão tem a bomba, na Birmânia assassinam-se populações que clamam por liberdade, rebentam suicidas em autocarros apinhados no Afganistão e no Iraque.

Em toda esta avalanche informativa sinto-me uma bandeira ao vento, sem tempo nem capacidade para procurar a luz ao fundo do túnel, os factos por entre as interpretações e opiniões, alguma coisa mais próxima da realidade.

A dúvida metódica é uma atitude que, levada ao seu máximo expoente, pode paralisar o progresso ou até a simples existência rotineira da vida. Mas quando se vai percebendo que aquilo que se lê, se ouve, se vê, é apenas uma ínfima e camuflada parte do todo, as crenças no rigor e na competência vacilam, resultando no exagero da dúvida perpétua.

A possibilidade de tudo ser mostrado, comentado, expressado, é uma conquista inalienável da democracia e algo porque devemos lutar sempre. Só assim é possível comparar muitas partes ínfimas da verdade, misturá-las, somá-las e hierarquizá-las. Pressupõe-se, no entanto, que há boa-fé por parte de quem informa e de quem é informado.

Mas apercebemo-nos de que isso é uma ficção. Assim como é cada vez mais ficcional a possibilidade de se sentir informado, não pela existência de censura ou por falta de informação, mas pela omnipresença da desinformação, seja ela intencional ou resultado de negligência, ignorância ou incapacidade profissional.

Vamos, a pouco e pouco, procurando o refúgio de uma realidade virtual, de assuntos pouco complicados, cuja escolha por nós decidida não implica desestruturação de estilo de vida, de novas formas de pensamento, de novas dúvidas.

Vamos, a pouco e pouco, perdendo a capacidade crítica, pelo exercício sistemático da incerteza.

Em Setembro voam folhas caducas, amareladas, quebradiças, preparando os ramos para o pousio invernal, para o renovar da vida na Primavera.

Que estamos nós a preparar? Que vamos nós construir?

27 setembro 2007

Critérios editoriais

Não concordo com Santana Lopes. Fez um mau serviço ao país e ao seu partido quando foi um péssimo primeiro-ministro. Não gosto da atitude, da postura, do ar blasé, do populismo, da irresponsabilidade, de quase tudo o que lhe diz respeito.

Mas ontem fez aquilo que já há muito alguém devia ter feito: afrontar o sacrossanto critério jornalístico, a omnisciência do sempre comentador Ricardo Costa.

Já na cerimónia de posse do Presidente da República a SIC notícias interrompeu o discurso de Jaime Gama para que alguns comentadores, nomeadamente o próprio Ricardo Costa, dizerem algumas inanidades, considerando-se muito interessantes.

Desta vez tiro o meu chapéu a Santana Lopes. E a SIC notícias faria melhor em reconhecer o erro e pedir desculpa a Santana Lopes e principalmente aos espectadores, diariamente desrespeitados por esses excelentíssimos critérios editoriais.

26 setembro 2007

Deste lado

Algo indistinto e profundo
impede a porta de fechar.

O peso em pesadelos
doces e cruéis perfumes
sedosos fios de chumbo
sentidos a definhar.

Algo irrelevante e obscuro
impede o olhar.

Parte o espelho
e foge.

(pintura de Stephen Barclay: Broken Window)

Roda livre

O espectáculo degradante a que todos nós assistimos pela performance dos dois candidatos a líderes do PSD é, para além do mais, muito preocupante.

José Sócrates continua em roda livre, sem ninguém que o interpele, que o incentive a fazer melhor, sem mostrar que é uma alternativa. O pensamento único de líder único e indiscutível nunca foi benéfico.

O Primeiro-Ministro não precisa de se esforçar para continuar no poder. E o país bem precisa que se esforcem por ele.

23 setembro 2007

As vidas dos outros

Depois do cartaz, a intimidade da arte na nossa casa, embrulhada em mim própria, só, eu e o filme. Uma história de pessoas e valores, de gradientes e de sofrimento, de idealismo e resistência.

Uma história brilhantemente interpretada, num tempo escuro e invernoso, num tempo perigoso, de demissão e denúncia, de solidão e companheirismo, de amargura e esperança.

Às vezes alguém redime as culpas dos outros, redimindo as suas. Às vezes os outros somos nós, que insidiosamente invadimos, que vagarosamente trituramos, que silenciosamente amamos.

"Ser ou não ser, isso É a questão"

Hamlet de William Shakespeare mostra-nos o génio do escritor.

Em cena no Teatro Maria Matos, a peça é o texto e os actores que lhe dão vida.

Um palco totalmente depurado de adereços, um som que se manifesta entre as cenas, nunca deixando transparecer tempos mortos, uma iluminação minimalista.

O teatro é o texto e os actores, com as palavras bem pronunciadas, às vezes um pouco gritadas, com solenidade e pesar, onde até os momentos mais leves prenunciam tragédia, onde os pés descalços servem a discrição dos movimentos que possam distrair das palavras.

A roupa escolhida é uma mistura intemporal, que faz lembrar histórias de fadas e príncipes, de cavaleiros e reinos, óbvia nos vestidos da rainha (Gertrudes), com excepção do rei (Cláudio) e do pai de Ofélia (Polónio), que vestem colete e gravata, para mim uma opção incompreensível.

O início e o fim da peça são fabulosos, com os espelhos e as máscaras que invocam as várias faces que nos moldam e que usamos, num drama em que todas as emoções humanas são violentamente tratadas. Duas horas e meia com ritmo e intensidade paralelas, sem deixar que se abrande a atenção de quem assiste, transformaram esta tarde de domingo num magnífico início da minha temporada de Outono.

  • HAMLET - William Shakespeare
    (tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen e adaptação de João Maria André)
  • versão cénica e encenação - João Mota
  • cenografia - José Manuel Castanheira
  • figurinos - Carlos Paulo
  • música - José Pedro Caiado
  • desenho de luz - João Mota e Zé Rui
  • interpretação - Albano Jerónimo, Alexandre Lopes, Ana Lúcia Palminha, Carlos Paulo, Diogo Infante, Frédéric Pires, Gonçalo Ruivo, Hugo Franco, João Ricardo, João Tempera, Jorge Andrade, José Pedro Caiado, Miguel Sermão, Natália Luíza e Raúl Oliveira
  • execução musical - Hugo Franco e José Pedro Caiado
    co-produção - Comuna Teatro de Pesquisa e Teatro Maria Matos

(pintura de Delacroix: Hamlet e Horácio)

22 setembro 2007

Ondas

Chegaremos às ondas
sedentos de mar de bruma
de barcos.

Que as auroras de espuma
nos guiem para além do eco
dos deuses.


(fotografia em friskyreddog: bluewave)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...