21 julho 2007

Ir às compras

Ir às compras é o pior que me pode acontecer. Explico: não é ir às compras no sentido de rumar ao supermercado, normalmente aos domingos, com o sentido do dever que herdei sei lá de quantos avoengos, e encher o carrinho com arroz, batatas, carne, fruta, legumes, papel higiénico, etc. Nem é ir às compras no sentido de precisar de comprar alguma roupa, normalmente aos domingos, indo directamente às lojas que interessam, ver, experimentar, se gostas compras, se não gostas sais, tudo rápido e eficaz. Se há muita gente nas lojas fujo e regresso mais tarde. Para mim as compras são uma tarefa doméstica, mesmo assim praticada mais frequentemente do que seria estritamente necessário. A única excepção a esta regra é o gozo que tenho ao entrar nas livrarias, folhear os livros, cheirar os livros e comprá-los.

Portanto quando ouço alguém desafiar-me para, num dia de férias ou de fim-de-semana, ir ver as montras ou ir às compras, só por ir ver montras e comprar coisas, independentemente de se precisar delas, fico assustada e recuso veementemente.

Mas, mesmo assim, há alturas em que não podemos recusar, porque quem nos pede merece os nossos maiores sacrifícios. No fim de três horas enfiada num centro comercial, em que entrei e saí de várias lojas para assistir à deambulação, observação, palpação de tecidos, experimentação de sapatos, abertura de carteiras, considerações variadas, propositadas e despropositadas, a somar a filas intermináveis de carros à ida e à volta, tudo isto sem me irritar e sem zarpar a alta velocidade, cheguei a casa firmemente convencida de que já podia (e devia) ser canonizada.

Qualidade da democracia

Enquanto se filosofa e discursa sobre a alegada deriva autoritária do governo e sobre o clima de medo que se instalou na administração pública, o Presidente da República expôs laconicamente o seu pensamento sobre o facto de o governo regional da Madeira se recusar a aplicar a lei da IVG, aprovada no Parlamento após referendo nacional.

E qual foi o seu poderoso e breve pensamento? Que quem sentir que as leis não estão a ser aplicadas deve recorrer aos tribunais.

Tudo isto me parece gravíssimo e revelador de que as opções pessoais e morais de determinados actores políticos estão a condicionar a aplicação das leis no território nacional, com objectivas diferenças de acessibilidade dos cidadãos a um determinado serviço.

A Madeira é uma Região Autónoma, o que não pode significar que os cidadãos madeirenses se vejam impedidos de usufruírem dos mesmos direitos dos cidadãos do Continente ou dos Açores.

O referendo realizado em Fevereiro sobre a despenalização da IVG até às 10 semanas de gestação, foi efectuado em todo o território nacional, portanto o seu resultado e consequências, nomeadamente a lei posteriormente aprovada, deverão ser aplicados, igualmente, a todo o território.

Na presença de um insuportável assomo de autoritarismo (mais um) de Alberto João Jardim, colocando as mulheres da Madeira em total desigualdade perante as do Continente, não ocorre ao Presidente outra coisa senão acatar as ordens de Alberto João Jardim, fingindo que a solução política para este problema político é o recurso aos tribunais.

E quem recorrerá aos tribunais, as mulheres que quiserem abortar? Em que tempo útil? E se os tribunais lhes derem razão após as 10 semanas de gravidez, abortam na mesma? E será ilegal? Também irão a tribunal?

O que se está a passar, desde há muito tempo, na Região Autónoma da Madeira é vergonhoso. Mas ainda mais vergonhosa é a forma como as instituições democráticas, nomeadamente o Presidente das República, têm lidado com a situação, permitindo a Alberto João Jardim todos os desmandos de que se lembra, prejudicando os seus concidadãos. E isso é intolerável.

Gostava de saber se é esta a qualidade da democracia que o Presidente preconiza.

Adenda: outros textos sobre o mesmo assunto:

e, já agora, Autoritários - João Gonçalves.

19 julho 2007

Louras




Duelo de titãs!

A Generala

Não há dúvida que Portugal tem muito boa imprensa internacional, façanhas invejáveis e invejadas!

Janelas

Medi o chão em milhares de passos,
alguns ofegantes alguns hesitantes
mas ainda não absorvi o espaço em mim.

Mergulhei em todos os milímetros das paredes
em todos os pontos assimétricos de luz
mas ainda não acendi o lume em mim.

Falta-me ainda o espanto inacabado
com que abrirei todas as manhãs
janelas de sonhos incandescentes.


(pintura de Stephen Lack: Y fish windows)

18 julho 2007

Louvação do barro

Cantarei o barro, porque nele esteve a vida
e este sangue que ferve em nosso corpo.
Meus olhos de barro pressentem o repouso
e o clarão imortal de uma outra vida.

Cantarei o barro porque foi amassada
a nossa carne do barro inconsistente
e na argila curtida e inanimada
o sopro de Deus entrou como a semente.


(poema de Marìa Manenttrad. João Cabral de Melo Neto; escultura de Rodin: mão de Deus)

15 julho 2007

Eleições intercalares de Lisboa

(Às 21:51h)

A abstenção, como se esperava, foi homérica.

Custa-me muito que se ouça, a todo o instante, o discurso dos maus políticos e da má política, quando os cidadãos se demitem de se pronunciar, se alheiam da cidadania. Era bem melhor que nos exigíssemos mais a nós próprios, em vez de carpirmos a nossa própria incapacidade de intervir.

O PSD (e Marques Mendes) perdeu tudo o que tinha a perder: perdeu pelo tempo que a Câmara levou a cair; perdeu porque não houve dissolução da Assembleia Municipal; perdeu porque Paula Teixeira da Cruz, entre outros, não avançou; perdeu porque escolheu Fernando Negrão; perdeu porque ficou em terceiro lugar; perdeu porque ficou atrás de Carmona Rodrigues.

O CDS (e Paulo Portas) perdeu tudo o que tinha a perder: perdeu porque incorporou uma estratégia de ataque a Maria José Nogueira Pinto; perdeu porque Paulo Portas não avançou; perdeu porque escolheu Telmo Correia; perdeu porque não conseguiu eleger nenhum vereador.

O BE perdeu pouco: apenas conseguiu manter um vereador.

José Sá Fernandes ganhou: os votos foram para ele, que fez um bom lugar.

Helena Roseta ganhou mais do que perdeu: conseguiu eleger mais que um vereador.

O PCP (e Ruben de Carvalho) ganhou: merecia, pela seriedade e bom trabalho desenvolvido.

Carmona Rodrigues ganhou e muito: ficou em segundo lugar depois de ter caído com a Câmara; ficou à frente do candidato do partido que lhe retirou o apoio.

O PS (e António Costa) ganhou: ganhou a Câmara; não contabilizou os votos contra o governo; foi pouco tocado pelos independentes, embora a presença de Helena Roseta o possa ter impedido de ter maioria absoluta.

Enfim, daqui a dois anos há mais.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...