08 julho 2007

Indigências

Este é mais um exemplo de total indigência, predominantemente política, deste governo, numa das áreas mais sensíveis. O que diz, como o diz e em que circunstâncias o diz, tal como as justificações de Correia de Campos para a demissão da Directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, são um hino à miopia e à incapacidade política, a juntar ao ministro Mário Lino e, mais recentemente, a Jaime Silva, para não falar do sempre eterno Manuel Pinho (não nos podemos esquecer que isto é feito por um governo e por um partido que, segundo tantas vozes autorizadas, estão numa deriva autoritária e que, para além disso, têm numerosos experts no controle dos media).

Mas há algumas coisas que são, de facto, de espantar: apenas nos Ministérios da Saúde e da Educação, e apenas com este governo, há apropriação partidária dos lugares de chefia na administração pública (não estou a justificar, estou só a perguntar)?

Sócrates, tal como Cavaco Silva, quis assumir as rédeas do governo e do partido. Tal como Cavaco Silva, arrisca-se a perder os dois.

O Sonho

O sonho desarruma
tudo, muda
as formas do mundo altera a ordem dos
assuntos é difícil contá-lo

quando por fim saímos
e acordar
se torna alívio chegamos a ser nele
assassinos faz crescer a angústia

do amor perdido
evitamos a
custo precipícios desalinho
de imagens como um filme do espírito

mas afinal a vida também vive
na dor e na ânsia pelo que não existe


[poema de Gastão Cruz; pintura de Kate Roesch: untitle (blue)]

06 julho 2007

Desumanidades

Nas últimas semanas fomos confrontados com notícias sobre decisões incompreensíveis e desumanas de Juntas Médicas, que consideraram aptos para o trabalho dois professores, uma com leucemia, outro com neoplasia da laringe, tendo ambos falecido, a primeira duas semanas após ter retomado o trabalho, o segundo meses depois.

Como era de esperar, o país reagiu indignado. Quando digo o país refiro-me a vários comentários que se foram ouvindo por todo o lado, de responsáveis políticos e personalidades várias.

Jornais, rádios, televisões e blogosfera, todos os dias juntam fragmentos de informação e muita opinião, resultando, para além da indignação, muita perplexidade, confusão e incredulidade.

De início acusou-se o Ministério da Educação de desumanidade, responsabilizando-o pelo ocorrido, quando os processos resultantes das avaliações de incapacidade por doença, profissional ou outra, não passam pelo Ministério da Educação (são da Caixa Geral de Aposentações – CGA - e/ou da ADSE); depois acusaram-se as Juntas Médicas, responsabilizando-as de inacreditável incompetência e de não terem formação específica, tendo vindo o Bastonário da Ordem dos Médicos anunciar que se bateria pela formação específica das pessoas que compõe as Juntas Médicas. Depois as Juntas Médicas responsabilizaram os relatórios médicos dos respectivos serviços dos Hospitais da Universidade de Coimbra e do Instituto Português de Oncologia do Porto, que referiam, na altura das comparências às referidas Juntas, remissão das doenças.

Neste momento responsabiliza-se a composição das próprias Juntas Médicas, que deveriam ser constituídas apenas por médicos. Ora segundo o site da ADSE, as Juntas Médicas são constituídas por um representante da ADSE, médico ou não, que será o presidente e terá voto de desempate e qualidade; segundo a legislação consultada será constituída por três médicos, dois da ADSE, um dos quais preside, e um escolhido pelo doente. Penso que este segundo caso se aplica aos acidentes de trabalho e/ou doenças profissionais. Mas isso não foi esclarecido por ninguém.

Também ninguém explicou exactamente o que estava escrito nos relatórios das Juntas Médicas, pois há vários graus de incapacidade e de aptidão para o serviço. Segundo a legislação a que tive acesso (Internet), as pessoas podem ser declaradas aptas para um determinado serviço, mas com limitações várias, assim como com graus ou percentagens de incapacidade, dependendo do tipo de doença e da deficiência por ela causada, antes da serem reformadas por doença.

Também ninguém explicou que as doenças oncológicas têm períodos de remissão, mais ou menos longos, assim como períodos de recidiva ou agravamento, o que significa que os doentes podem estar capazes numa altura e ficarem incapazes meses depois. Ou seja, que o facto de se ter um diagnóstico de cancro, tratado ou não, não implica obrigatoriamente a incapacidade total para o desenvolvimento de todas as responsabilidades profissionais. Por exemplo, uma doente que tenha tido um carcinoma (tumor maligno) da mama, que tenha sido tratada com cirurgia alargada e quimioterapia, pode ficar totalmente apta para o seu trabalho, dependendo do tipo de trabalho que faz.

Claro que ninguém entende porque é que um professor que teve um tumor maligno da laringe, tratado com cirurgia (ressecção da laringe) e tendo ficado afónico, tenha sido considerado apto para dar aulas de filosofia. Mas foi mesmo isso que aconteceu, ou terá ele sido considerado em condições de trabalhar na escola? Se calhar haveria algum tipo de trabalho que ele poderia desenvolver na sua profissão, sem ter componente lectiva.

O que mais me impressiona no meio de tudo isto, para além da óbvia infelicidade e tortura que se infligiu aos próprios doentes, não se sabe por quem, não se sabe como, nem se sabe porquê, estes casos são manipulados e estrategicamente servidos a conta-gotas, com informações contraditórias, muito pouco rigor, nenhumas perguntas e muito menos esclarecimentos, sem qualquer preocupação de perceber o que, de facto, se passou, responsabilizar quem for de responsabilizar e impedir que tudo se volte a repetir.

Apresentação

Escrever, tentar concretizar o mundo em que se entrecruzam emoções, angústias, momentos de felicidade e profunda melancolia. Como uma necessidade quase orgânica, preciso de libertar as palavras que me correm pelo corpo, concretizar em letras os sentidos, nomear as coisas que sou ou que quero ser, olhar-me de frente, organizar-me.

Escrever torna mais nítido o quotidiano, intensifica viagens, decompõe enigmas, esclarece e unifica os fragmentos de rotina, bocados incompreensíveis da vida, que me acordam e atormentam, que me maravilham e embelezam.

Escrever é um acto solitário e doloroso, que intimida e assusta, compulsivo e redentor, que me envolve e arrasa. Escrever é um vício, um acto de amor.

Nem sempre me reconheço no que escrevo, naquela que se espelha e se questiona, naquela que se incendeia e se consome. Nem sempre entendo a forma que as palavras desenham, como se houvesse mais que uma forma, mais que uma pessoa que de mim fizesse parte.

Nos versos encontro a arrumação da desordem, o sentido da confusão, a calma na desorientação. A música e o ritmo das palavras escritas, depois ditas, que se refazem e transformam de cada vez que se repetem, quando alguém se apropria delas, como eu me aproprio dos poemas que outros escrevem, como eu me apodero dos sons, das cores, dos ecos dos poetas.

A simetria da minha vida, disciplinada, rigorosa, criteriosa, cheia de regras e de controlos, completa-se com a total insubmissão das palavras. Mesmo dentro da libertação que é escrever, há a contenção do abismo, o medo da vertigem, do absoluto, que se pondera e se mede, autónoma e obsessivamente.

A constante procura do imo, da depuração, da essência, a certeza da eternidade dessa busca e da inevitabilidade do final, espartilham os gestos mas abrem as asas do impossível.

Este é um livro de reencontros, de luzes fracas e longos silêncios. Este é um livro de recomeços, de aceitação, de cortinas, de renascimentos. Este é um livro de afectos. Sem outra razão que uma entrega, com o pudor da alma nua, assim me dou, a um tempo receosa e feliz, com sombras e sem infinitos.

03 julho 2007

Cadeias

FT e Lino, respectivamente dos blogues O País do Burro e thesoundofsilence enlaçaram-me numa cadeia de 5 livros, 5 blogues.

Para além de agradecer tão grande honra, obedecerei sem tardar à nomeação de mais 5 livros:
  • O Pintor de Batalhas – Arturo Pérez-Reverte
  • Flubert’s Parrot – Julian Barnes
  • Lourenço Marques – Francisco José Viegas
  • Cotovia – Desző Kosztolányi
  • Tres Deseos - Amalia Bautista

E 5 blogues:

E quem quiser, continua…


(pintura de Paul Klee: Primary Route and Bypasses)

Leituras

Como tenho tempo, perdi algum dele a ler demoradamente artigos de jornais, mesmo dos económicos. Recomendo o artigo de Teodora Cardoso, no Jornal de Negócios online, sobre a confiança, ou mais precisamente a desconfiança dos portugueses, transcrevendo apenas uma parte do parágrafo final. Mas vale a pena ler e meditar nele todo.

(…) Tudo isto nos leva de volta à confiança. (...) A sua destruição parece, contudo, ter-se tornado, mais do que nunca, no objectivo fundamental dos que se habituaram a explorar a desconfiança em seu benefício.

De um estilo e de uma temática totalmente diferentes, adequado a qualquer altura e circunstância, também recomendo um excelente post de A. Teixeira, intitulado As maminhas da favorita.

A mais

Hoje acordei a mais para o dia. Com pernas e braços excedentários, com muitos neurónios activos.

O meu corpo não se lembrou que está em férias.

(pintura de Marianne Mitchell: reverence)

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...