02 julho 2007

Página em branco

Que poema, de entre todos os poemas,
página em branco?
Um gesto que se afaste e se desligue tanto
que atinja o golpe de sol nas janelas.

Nesta página só há angústia a destruir
um desejo de lisura e branco,
um arco que se curve – até que o pranto
de todas as palavras me liberte.

(poema de Sophia de Mello Breyner Andresen)

01 julho 2007

Portugal europeu

Apesar de dizer, todos os sábados e domingos, que deixarei de comprar o DN, todos os fins-de-semana reincido na compra.

Hoje valeu a pena. Tem um excelente grupo de artigos sobre a presidência portuguesa da União Europeia – Especial Europa – bem escritos, informativos e interessantes.

A propósito do mandato de Sócrates para redigir e aprovar o Tratado Reformado, parece-me de grande desonestidade política argumentar-se contra a necessidade do referendo pelo facto de não ser a Constituição/Tratado Constitucional que será ratificada/o, mas apenas um tratado. É um truque de prestidigitação que corre sérios riscos de desacreditar ainda mais José Sócrates e todo um conjunto de europeístas que defendem não se poder correr o risco de ver o tratado reformado rejeitado.

Em democracia correm-se riscos em todas as eleições. É mesmo a essência da democracia: correr o risco de convencer os cidadãos!

Nomeações

O regime de intimidação, autoritarismo e compadrio político que se vive (e que já se viveu noutras legislaturas) é atrofiante para os cidadãos, reduz a confiança nos governantes e instala a cultura dos capachos profissionais, os olhos e ouvidos dos chefes, tudo o que é mais contrário e pernicioso à vivência democrática. Pelo que temos lido na imprensa, os casos da DREN e do Centro de Saúde de Vieira do Minho são disso excelentes exemplos (se bem que não entendo porque é que um caso passado em Janeiro só agora seja notícia).

Mas, mais uma vez segundo o que leio na imprensa, mais precisamente no Público de hoje (página 8), o caso da não recondução do cirurgião Fernando Portal como director do Hospital Distrital de S. João da Madeira, cargo que exercia há 17 anos, não é idêntico e não pode ser confundido com os outros.

O Director de um Hospital é um lugar de nomeação política. Podemos discutir a correcção ou incorrecção da lei mas, neste caso, não é isso que está em causa. Sendo um cargo de nomeação política, depreende-se que quem o ocupa se revê ou, pelo menos, se compromete a seguir a política e as orientações governamentais.

Ora parece que o Dr. Fernando Portal declarou publicamente a sua divergência em relação à reestruturação dos serviços de urgência, no que dizia respeito ao fecho dos mesmos no Hospital que dirigia.

É um direito que lhe assiste, obviamente, é mesmo um dever de quem pensa e tem lugares de direcção dentro da rede de prestação de cuidados de saúde, se discorda, combater as medidas que considera prejudiciais e contrárias ao bem-estar da população.

Mas cabe ao ministro ajuizar se quem escolhe para a direcção de uma unidade de saúde, e repito é uma escolha política, tem condições políticas para implementar as medidas decididas por ele e pelo resto do governo.

O que me espanta é o próprio Dr. Fernando Portal não ter apresentado a sua demissão por estar em total desacordo com o fecho das urgências do seu hospital.

Acho que se confunde muito o direito de divulgar opiniões com a responsabilização e assumpção das consequências desse mesmo acto. Somos livres de discordar das opções políticas do Ministro da Saúde. O que não podemos é esperar que o Ministro nomeie para a direcção das unidades de saúde pessoas que discordam da sua política e que, logicamente, não terão as melhores condições políticas para exercerem esses cargos.

30 junho 2007

O dia seguinte

O dia seguinte, sonolento, tranquilo, em câmara lenta.

Ainda se ouvem os ecos das conversas, o tilintar dos copos, os risos, ainda se sente o calor e o aconchego dos abraços, dos olhares, da cumplicidade, da alegria dos reencontros, o agridoce das despedidas.

Saboreio o dia seguinte.

27 junho 2007

O vazio

Por vezes de repente há um vazio
nem um gesto nem voz nem pensamento
terrível como a foz do grande rio
onde vai dar algures o esquecimento.

Nem branco ou negro nem sequer cinzento
um calor sem calor. Frio sem frio.
Não há nada por fora. E nada dentro.
Não é menos nem mais. É só vazio.


(poema de Manuel Alegre; fotografia de Jonathan Day-Reiner: emptiness)

26 junho 2007

O dono

Joe Berardo é notícia todos os dias e a toda a hora. É fácil perceber porquê: é rico e pensa que pode dizer e fazer o que lhe apetece. E faz. O poder anda cheio de salamaleques à nova coqueluche.

Ele é irreverente e rico, tem muitos quadros, é muito rico, é muito bom para a cultura e para os negócios, é rico, filho, pai e neto do omnipresente e omniscente mercado. Ele lança OPAs, ele abre museus, ele exige a demissão de Mega Ferreira da sua Fundação, ele exige a demissão de Mega Ferreira do Centro Cultural de Belém.


Algures a meio do caminho, alguém o deixou pensar que era dono. Ele assume-se, para já, como dono do Centro Cultural de Belém. Dentro em pouco, quem sabe?

24 junho 2007

Transformarei o tempo

Transformarei o tempo.

Não te perderei
por entre as sombras
do que falta de nós
pois já guardei
esse longínquo sabor
da memória.

(pintura de
Arnaud Juncker: evasion)

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...