07 junho 2007

A Chave em Salónica

Abarbanel, Farias ou Pinedo
atirados de Espanha por ímpia
perseguição, conservam todavia
a chave de uma casa de Toledo.

Livres agora da esperança e do medo,
olham a chave ao declinar do dia;
no bronze há outroras, distância,
cansado brilho e sofrimento quedo.

Hoje que sua porta é poeira, o instrumento
é cifra da diáspora e do vento,
como essa outra chave do santuário

que alguém lançou ao azul quando o romano
com fogo temerário acometeu,
e que no céu uma mão recebeu.


(poema de Jorge Luís Borges, pintura de El Greco: o enterro do Conde de Orgaz)

04 junho 2007

Descolar

Será durante um fim-de-semana, quase às escondidas, como se fosse uma ladra, que irá desfazer um espaço de tantos anos, descolar os papéis uns dos outros, quase amassados pelo seu próprio peso, retirar os livros da estante, que deixarão buracos escuros e solitários, encher sacos pretos com os restos de uma parte da sua vida, limpar das paredes as palavras, os sorrisos, as confidências, o “diz que diz”, o vapor do chá.

Será durante um fim-de-semana, no silêncio comprido dos corredores, que irá recolher o mocho, o cinzeiro lascado, os quadros, o currículo, gravar ficheiros de que já nem se lembra, devolver a cor esverdeada ao monitor.

Será que na pele das cadeiras, no vidro das janelas, nos puxadores da porta terá ficado alguma impressão sua, alguma marca? Será que aqueles anos serão apenas guardados, catalogados, arrumados e usados nas gavetas da sua memória?

Será durante um fim-de-semana que levará consigo a amizade que perdura para lá das paredes, nas emoções que partilhou e que fazem já parte de si mesma.


(Pintura de Regi Bardavid)

A prioridade europeia de Sócrates

O primeiro-ministro afirma que a presidência portuguesa da União Europeia se guiará pela prioridade da reforma dos tratados.

Não percebo muito bem como chegou Sócrates a essa conclusão. Nem percebo se a reforma dos tratados levará à existência de uma política europeia mais coordenada e solidária, dentro da própria Europa e, principalmente, fora dela.

Não é por acaso que Gorbachev chama a atenção para o descrédito a que chegou Tony Blair, ao deixar-se envolver pelo desejo imperialista desta administração americana. Na realidade, para além das piores relações entre a Grã-Bretanha e a Rússia, não sei que tipo de relações deve a Europa manter ou desenvolver com a Rússia.

O problema é que ninguém sabe exactamente o que fazer com a Rússia de Putin, e os velhos guardiães dos direitos humanos e das liberdades democráticas, deixam de querer dar lições sobre isso mesmo, mas apenas à Rússia, porque aos países africanos e aos países dominados pelo fundamentalismo islâmico, a Europa gosta de dar lições de moral.

Neste momento não há uma voz avalizada que fale pela União Europeia, não há uma política coerente que represente as posições da União Europeia. E temo que com a reforma dos tratados, passe a existir uma coerência de alguns países europeus que falarão por todos os outros, com ou sem o seu aval.

02 junho 2007

O Castelo


Lisboa ao fim da tarde, espalhando-se pelas colinas, pintada de azul no fundo, escadas e miradouros, Tejo, sol, jacarandás, Lisboa enche os pulmões e lava os dias de chumbo.

01 junho 2007

canção solar

faça como
de costume,
arrume o cabelo,
ponha
o seu perfume,
deixe
que pela fresta
vague o lume,
dance ao som
daquele blues
no último volume,
faça como
de costume,
rode a baiana,
desarrume,
entre no meu
coração,
e saia impune,
como de costume.


(poema de Múcio Góes: Traversuras; desenho de Karen Kucharski: earlier than usual again)

Mudar

Como sociedade devemos estar gratos a Conceição Oliveira pela frontalidade com que se observou e decidiu que não era capaz de julgar séria e imparcialmente.

Como pessoa compreendo a sua ânsia e necessidade de partir em busca de outros rumos.

Mudar faz bem, mexe o espaço das ideias e reflecte o movimento. Mudar abana as certezas e potencia a inovação, desastrada ou gloriosa.

(escultura de A. Ceschiatti: a justiça)

A greve

Já todos disseram e repetiram, mais simuladamente ou mais às claras, que a greve geral foi um fracasso.

A greve é um direito de quem trabalha, que deve ser exercido em liberdade, sem os constrangimentos e as pressões cada vez mais explícitas das entidades empregadoras. A existência de comissões arbitrais que definem serviços mínimos compostas por quem simpatiza com um dos lados, é desonesta e cerceadora das liberdades individuais.

A greve é uma demonstração de desagrado, é um processo de luta, é um gesto de solidariedade. Por isso não deve ser desperdiçada. Por isso não se entendeu o porquê desta greve geral. Com a crise de desemprego, de trabalho precário, de redução do poder reivindicativo dos trabalhadores, esta derrota terá consequências e era evitável. Será que Carvalho da Silva o percebeu?

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...