06 maio 2007

No fundo dos relógios

Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.


(poema de Filipa Leal; pintura de Frank Ettenberg: Cities of the Mind)

Vida eterna

O politicamente correcto ganhou mais uma batalha: a aprovação da lei antitabágica, por UNANIMIDADE, na Assembleia da República.

Ninguém contesta o direito dos não fumadores. Mas porque não se deixa ao critério dos donos dos restaurantes, bares, hotéis, etc, o facto dos seus estabelecimentos serem para fumadores ou para não fumadores?

Acho bem que comecem a pensar nas multas que farão pagar aos gordos. Quem comer mais que uma bifana, multa. Quem se recusar a comer sopa… multa! Quem preferir um gelado a uma saudável laranja… multa! Podem até encontrar-se formas de punição inovadoras: 3 voltas ao quarteirão em passo de corrida; 20 flexões; andar de bicicleta durante 1 hora; fazer três piscinas em 20 minutos.

Seremos todos mais saudáveis, mais belos, mais fortes, mais brancos, mais deuses, não sei se mais felizes, mas isso, como diria a outra, também não interessa nada.

Eleições

Sarkozy ganhou as eleições presidenciais, em França. Tenho pena, mas já se esperava.

De notar a extraordinária afluência às urnas, o que faz transparecer a preocupação dos franceses com o seu futuro, o que demonstra que a democracia ainda está viva e de boa saúde.

Vem aí o liberalismo e a força do mercado. Qual será a dimensão e a importância do estado francês nos próximos anos? Qual a política da imigração, com este filho de imigrantes?

Quanto ao futuro da União Europeia, vamos ver o que acontece. Sarkozy quer um mini tratado sem referendo. Ou seja cozinhar o que lhe interessa, com alguns dos grandes países, e fazer valer o seu peso político, económico e demográfico.

A França assim quis. Ainda não chegou a hora da esquerda, pelo menos desta esquerda francesa.

No nosso arquipélago da Madeira, Alberto João Jardim ganhou mais uns anos para insultar tudo e todos, principalmente os do contnente. Precipitou eleições por causa das finanças regionais. Será que pensa que assim vai ter mais dinheiro do contnente? Seguramente que ele não pensa isso, mas foi isso que ele levou os madeirenses a pensar. Temos mais uns anos de Carnaval assegurados.

05 maio 2007

Lisboa

A cidade está suspensa porque os vereadores, aqueles que se elegeram como seus representantes, se agarram a fios invisíveis, de teias já rasgadas, que se estendem a outras cidades.

A cidade está parada, pelos Carmonas, independentes ou dependentes, pelos Soares que foram e pelas Paulas que hão-de ser, pelas Marias Josés e pelos partidos, todos, de esquerda, de direita e sem partido.

Até quando?

Voltar

Estiquei todos os músculos, até ao limite do possível, após horas e horas de sono, encaracolado e profundo. Amanhã é dia de retomar viagens, caminhadas, físicas de quilómetros, mentais à velocidade da luz. Retemperar.

Para tanto não preciso de mais que dos braços que me esperavam, da cumplicidade de quem me quer. A vida é feita de partidas e gestos dolorosos, mas os reencontros reavivam a chama, movem mundos e abrem mares, que nos deixam voltar.

01 maio 2007

Granito

Gasto nos ombros
as forças tensas
do tempo a passar
por dentro de mim.

Com esforço inevitável
espreito hesito
na dor de continuar.
Estendo as mãos
em asas
pesadas como granito.
Ergo o corpo
ensaio o grito
preparo-me para voar.


(escultura de John Bernard Flannagan: The Early Bird)

O 1º de Maio

Comemorei o dia do trabalhador a trabalhar. Porque precisava, porque tinha que ser. Durante o caminho fui ouvindo várias frases desgarradas, várias considerações sobre o sindicalismo e os sindicalistas, sobre a relação entre os patrões e os empregados.

Desde que me lembro, o 1º de Maio enche-se de manifestações cuidadosamente programadas para lutar politicamente contra os governos, quaisquer que eles sejam. E desde que me lembro, os oradores são praticamente os mesmos, as frases praticamente as mesmas, as faixas, os cartazes, as palavras de ordem, os lamentos e as promessas de luta, tudo igual.

O mundo mudou e muda todos os dias. O problema do trabalho, ou mais precisamente da ausência dele, é dos maiores desafios que se colocam à sociedade que vamos construindo. O paradigma do trabalho para toda a vida acabou, há milhares de pessoas a quem é negado esse direito.

Para quem tem emprego, a insegurança dos postos de trabalho é cada vez maior e o uso que as entidades patronais fazem dessa insegurança é cada vez mais preocupante.

Tal como no início do movimento sindical, a mobilização dos trabalhadores em volta de associações que os protejam e os defendam é hoje uma necessidade avassaladora.

Mas não nestes sindicatos que avaliam a sociedade com os olhos de há 30 anos, não com estes sindicalistas que não conhecem o trabalho, as suas condições, a sua competitividade, a sua falta de ética, porque efectivamente são funcionários administrativos no seu próprio sindicato.

Rigor e a exigência devem ser a bandeira de quem diz defender os trabalhadores, a formação, a competitividade, os bons resultados, a exaltação do mérito. Só assim podem exigir exactamente o mesmo das direcções das empresas, dos directores dos serviços, dos patrões, dos ministros, dos governos.

Os sindicatos devem ser associações que dialoguem com seriedade e com verdade com os representantes do poder instituído, para que impeçam e denunciem as arbitrariedades que vão sendo cometidas, sem respeito nem preocupação pelo futuro das empresas e de quem lá trabalha.

É necessário um movimento sindical renovado, que defenda verdadeiramente o trabalho e lute por condições dignas numa sociedade em que as regras da solidariedade se vão esquecendo, e em que a lei parece estar sempre do lado do mais forte.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...