20 janeiro 2007

Fiama

Grafia 1


Água significa ave

se

a sílaba é uma pedra álgida
sobre o equilíbrio dos olhos

se

as palavras são densas de sangue
e despem objectos

se

o tamanho deste vento é um triângulo na água
o tamanho da ave é um rio demorado

onde

as mãos derrubam arestas
a palavra principia


(poema de Fiama Hasse Pais Brandão)

A pergunta

A discussão da IVG está bem lançada e todos os dias vão aparecendo novos blogues em que se debatem argumentos a favor ou contra. Alguns com contributos muitíssimo interessantes, mesmo para quem já está convertido.

A propósito é muito interessante ler o excerto da entrevista de Paula Teixeira da Cruz, no DN, assim como o artigo do Prof. Jorge Miranda no Público (só disponível online para assinantes), que defendem opiniões contrárias.

Parece-me perigosa a tese de que a votação neste referendo possa, de alguma forma, espelhar o sentimento dos cidadãos relativamente à governação. É uma falácia que os defensores do “não” podem usar como recurso a uma tentativa de ganhar adeptos.

Toda a discussão filosófica sobre a vida humana e a pessoa humana, quando começa ou quando adquire a forma, é muito interessante mas pode desviar-nos do objectivo deste referendo e da pergunta que vai ser respondida e que se refere apenas à despenalização da IVG até às 10 semanas. Independentemente do que cada um de nós pense sobre a IVG, o que está em causa é saber se queremos que uma mulher que a pratique seja condenada a prisão. Ao contrário do que diz o Prof. Jorge Miranda, não se liberaliza, apenas se despenaliza. Como diz Paula Teixeira da Cruz: Fala-se na liberalização do aborto mas liberalizado está ele agora porque não há regras, há um mercado clandestino e paralelo.

A resposta à pergunta do referendo não tem a ver com opções políticas nem deve ser fruto de alinhamentos partidários. E todos os cidadãos, independentemente dos cargos públicos que ocupem, das funções de estado que exerçam, têm o direito de se manifestarem e de divulgarem a sua opinião.

19 janeiro 2007

Nunca é demais lembrar...

Resposta da deputada Natália Correia ao deputado João Morgado quando afirmou: “O acto sexual é para ter filhos” - 3 de Abril de 1982.

Já que o coito - diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

(poema de Natália Correia; desenho de Vasco)

(rapinado ao Sorumbático)

Excomunhão

De vez em quando, é preciso um toque de humor, irrealidade e anacronismo de que só alguns são capazes, e nunca nos decepcionam!

Desilusão

A esperança que se apossou de muitos de nós ao ver este governo assumir posições incómodas e a tomar medidas duras, mas que se impunham, nomeadamente na tentativa de servir o interesse público em vez do interesse de algumas corporações, que finalmente iríamos ter um governo que faria a diferença, está a decrescer à velocidade da luz.

A credibilidade do governo está todos os dias a perder-se. Os voos da CIA e a total e incompreensível ausência de respostas do governo, aliado à campanha anti Ana Gomes, as dúvidas do Tribunal de Contas relativamente aos resultados de 2005, os lamentáveis episódios em tudo o que envolve a protecção de menores, desde as equipas de diagnóstico e acompanhamento até às decisões judiciais, os processos que são muito aplaudidos, muito comentados para depois se esvaziarem e morrerem, os avanços de leão e as saídas de sendeiro do Ministro da Saúde, com orgulhos inapropriados por tremendo erros políticos e afirmações sorridentes que desmentem outras afirmações não menos sorridentes feitas anteriormente.

Qual é o rumo deste governo? O que pretende? Qual o alcance do silêncio mal gerido, ou de ensaios mediáticos e grandiloquentes?

É a desilusão cíclica e repetida que afasta a tão proclamada sociedade civil da intervenção, da cidadania e da política.

Mas esta desilusão dói mais quando é causada por aqueles que pensávamos partilharem as nossas ideias.

Não sou uma mulher de fé. Mas agora só me resta... acreditar.

18 janeiro 2007

Pátria

Soube da definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
as linhas que no mapa da memória
a mestra palmatória
desenhou.

Hoje
sei apenas gostar
duma nesga de terra
debruada de mar.


(poema de Miguel Torga; pintura de Paula Rego: a dança)

17 janeiro 2007

Ofertas originalíssimas

Nestes tempos maravilhosos da explosão tecnológica, em que já podemos squenciar o nosso próprio DNA, único e transmissível à nossa descendência, já há quem faça negócio a vender ideias para ofertas: T-sirts estampadas com a foto da nossa dupla hélice, quadros com a sequenciação fotografada ou pintada, colares de DNA, efim, é só dar asas à imaginação!

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...