17 janeiro 2007

O Vírus que se fala (2)

É claro que a descoberta de uma vacina que impeça a infecção persistente pelos vários tipos de VPHar significaria o fim das lesões pré cancerosas e dos cancros associados a estes vírus.

Mas as coisas são ligeiramente mais complicadas. É verdade que cerca de 75% das lesões pré cancerosas e cancros estão associadas aos VPHar tipos 16 e 18. Mas os restantes 25% estão associados a outros tipos virais.

Para complicar um pouco mais também se sabe que os tipos virais têm distribuições geográficas diferentes: os tipos mais frequentes no continente americano são diferentes dos mais frequentes na Europa Central, que são diferentes dos da Europa de Leste, que são diferentes dos de África, que são diferentes dos da Ásia. Em Portugal, que é um país com grande mistura populacional, com gentes de todas as áreas geográficas, e com grande mistura de populações, não se sabe bem quais são os tipos mais frequentes.

A vacina que está comercializada é tetravalente, o que significa que é activa para 4 tipos virais: 2 VPHbr (6 e 11) e 2 VPHar (16 e 18). Até agora não se demonstrou que essa vacina fosse activa para outros tipos virais, estando a ser desenvolvidas vacinas com mais de 4 tipos de VPH.

Ou seja, a eficácia da vacinação nas raparigas, administrada antes da puberdade, só será demonstrada dentro de 15, 20 anos. Se não se sabe quais os tipos de VPH mais frequentes na população portuguesa, esta vacina pode ser mais ou menos eficaz.

É preciso ter a noção que a vacina não deve substituir os programas de rastreio de cancro do colo do útero, por análises às células ou por determinação da existência ou não de VPHar, pois pode estar a criar-se uma falsa noção de quem for vacinado está 100% seguro de não ter (aquele) cancro.

Por isso se entende a cautela dos serviços de saúde na ponderação da inclusão desta vacina no Plano Nacional de Vacinação.

para mais informação:



O Vírus de que se fala (1)

Já que se fala de HPV, gostaria de juntar o seguinte:

O Human Papilloma Vírus (HPV) ou, em português, Vírus do Papiloma Humano (VPH), é responsável por vários tipos de lesões verrucosas na pele (verrugas vulgares) e na mucosas (da boca, da laringe, do esófago, dos órgãos genitais – pénis, colo do útero, vagina), ânus, etc. (condilomas). Este vírus propaga-se por contacto directo (as verrugas multiplicam-se pela pele, habitualmente por contágio feito com as mãos do próprio, os condilomas nos órgãos genitais propagam-se por intermédio de contactos sexuais).

Há muitos tipos de VPH, ou seja, os que causam as verrugas na pele são diferentes dos que causam condilomas. Numa enorme percentagem de casos, embora as pessoas possam ser infectadas pelo vírus, o seu sistema imunitário fá-lo desaparecer rapidamente (clearence viral) e não chegam a desenvolver quaisquer lesões.

Isto é verdade para todas as infecções, nomeadamente as dos órgãos genitais. Assim, durante a vida sexual das mulheres e dos homens, há inúmeras infecções por VPH que são resolvidas sem qualquer problema.

Vários tipos de VPH estão associados ao desenvolvimento de lesões benignas – VPH de baixo risco (VPHbr), enquanto outros tipos estão associados ao desenvolvimento de lesões pré cancerosas e de cancros – VPH de alto risco (VPHar), neste momento já identificados 14. Estas infecções são muitíssimo frequentes, estimando-se que as mulheres entre os 25 e os 50 anos tenham 80% de probabilidade de ser infectadas por VPHar.

Estudos feitos em várias áreas geográficas demonstraram que, para que haja desenvolvimento de lesões pré cancerosas, é necessário que haja uma infecção viral persistente, o que acontece em cerca de 20% das infecções em mulheres com menos de 25 anos e em 50% de infecções em mulheres com mais de 50 anos.

Ou seja, apenas 6 a 11% das mulheres que tenham infecção persistente por VPHar desenvolvem lesões pré cancerosas, e destas apenas uma em cada mil mulheres (1/1000) terá um cancro.

Tudo isto para concluir que, embora todos os cancros do colo do útero (um dos cancros frequentes em mulheres) estejam associados a infecção por VPHar, ter infecção por VPHar só numa pequena percentagem de casos significa ter lesões pré cancerosas e, ainda em menor percentagem, cancro.

14 janeiro 2007

Nós, pessoas

As pessoas não são boas nem más. São pessoas.

Têm mais dúvidas que certezas quando, repentinamente, se questionam sobre assuntos em que nunca se detiveram a pensar. Assuntos que correm nas margens das suas vidas e que só as incomodam em raras ocasiões, todas súbitas, desastrosas, misteriosas, dolorosas, que as deixam momentaneamente desequilibradas.

Nos enormes intervalos em que vivem as vidas pesadas ou leves, sofridas ou alegres, iguais a tantas e todas as outras vidas que conhecem, sabem surdamente que esses assuntos são de evitar.

Não somos bons nem maus. Somos. Todos.


(pintura de Jose Garcia: people)

Referendo


Não sei se restam algumas dúvidas, quanto ao que vou votar.

12 janeiro 2007

Agora

Agora que me criei
dentro das minhas rugas
fundas, castas, sinuosas
vindas da terra e da alma,

agora que me enfrentei
com sonhos e ventos agrestes,
em que me sinto torcer
em árvore seca e rugosa,

agora é que me poisas
aves de asas em leque
que murmuram ladainhas
de letras e versos de sombra,

agora é que me pintas
amoras em ramos quebrados
de horas e dedos abertos
carentes, sedentos de luz.


(pintura de Sylvie Kantorovitz: clump of trees)

11 janeiro 2007

Ética

Não é fácil existirem debates desapaixonados quando nos referimos à IVG. Tudo o que diga respeito a valores ou crenças é acalorado e desafiador.

Ao fundamentarmos as nossas atitudes e opiniões, para além da paixão, devemos socorrer-nos de toda a informação disponível sobre o assunto.

Estudos estatísticos da magnitude do aborto clandestino, as suas consequências nas mulheres que os praticam, sociais e económicas, a curto, médio e longo prazo, estudos e relatórios do que se passa ou passou nos países que adoptaram uma legislação mais liberal, a forma como a IVG é assumida em termos de serviços de saúde, comunicações e artigos científicos sobre as várias vertentes.

A responsabilidade da informação detalhada e rigorosa é de todos. Aos médicos pede-se rigor na análise, transparência e clareza nas exposições, linguagem simples, acessível e exigente. Não se pode aceitar que profissionais de saúde usem palavras sem terem o cuidado adicional de transmitirem o seu significado, falem de sindromas não reconhecidas na literatura científica da especialidade, apontem trabalhos científicos sem revelar quem os fez, onde estão publicados, onde se podem ler, principalmente quando pretendem proporcionar informação científica.

Ao desinformar-se a população apenas se está a contribuir para o aumento do medo, da culpa e dos mitos.

O papel dos médicos neste debate, enquanto investidos do seu papel profissional, deverá ser o de informar e não o de brandir ameaças veladas à saúde futura de quem decidir interromper a gravidez, sem revelar em que se baseiam tais afirmações.

Enquanto meros cidadãos podem assumir a acalorada e intensa paixão dos que defendem valores, sejam eles quais forem. Mas há uma linha de demarcação que não deve ser transposta, em nome da ética e da honestidade intelectual.

10 janeiro 2007

Poção

Ouço-te em passos
distraídos
entreabro a porta
aos feitiços.

Guio-te no silêncio.
Sem demora
chegas e instalas
os sentidos.


(pintura de Mary Burke; potion)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...