29 dezembro 2006

Fiesta

Eva Armisén, pintora catalã com 37 anos.

Não sei bem o que dizer dos quadros e desenhos dela. Apenas que gosto. Totalmente infantis, de uma felicidade ingénua e natural. Vão ver.

Fiesta - exposição na Galeria Arte Periférica, do CCB, Lisboa, até 15 de Janeiro de 2007.

(tengo pájaros en la cabeza)

Na continuidade

Faltam poucos dias para renovarmos todas as nossas cíclicas boas intenções. Mas os rituais servem para isso mesmo, para podermos reequacionar prioridades e valores, para planear aquilo que não é controlável, mas que nos dá algum sentido de segurança.

Nestes horas em que pensamos reiniciar a vida, mesmo que ela recomece a todo o momento, nos actos mais banais da existência, sinto sempre que sou uma privilegiada, nomeadamente pelos amigos que tenho, pelas pessoas com quem me tenho cruzado, descoberto ou reencontrado, pelos desafios que ainda tenho de enfrentar e pelo enorme gozo de viver, mesmo que, por vezes, a vida seja amarga e triste.

O próximo ano será igual ao anterior e totalmente diferente, porque todos os segundos são avanços e nada se repete exactamente da mesma forma. Continuaremos a ter aumentos de bens de consumo, continuaremos a tomar muitos antidepressivos e ansiolíticos, continuaremos a queixar-nos do imenso trabalho que nos falta fazer, bebericando incontáveis chávenas de café, continuaremos a molhar-nos com a chuva e a derretermos com o bafo do Verão, a irritar-nos com os ralhetes de Sócrates e com a inanidade da oposição, continuaremos a gozar pontes, feriados e fins-de-semana, a clamar pela sociedade civil que não fazemos intenção de formar, dinamizar ou mexer.

Continuaremos a ser portugueses, no que temos de mau e no que temos de bom. Mas eu até gosto, nem que seja de vez em quando…

Assiduidade e pontualidade (2)

Não sei se ficou bem explícito, no meu post anterior, no meio de todos aqueles considerandos, que considero importante o controle da assiduidade dos profissionais de saúde e lamentáveis as reacções do Bastonário da Ordem dos Médicos e do Sindicato dos Enfermeiros. Ainda por cima, sendo esta uma matéria que diz respeito às competências sindicais, não se percebe muito bem o porquê da intervenção de Pedro Nunes (veja-se, por exemplo, a posição da Vice-Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, que desvaloriza esta questão)!

Se não se podem controlar horários diários rígidos e fixos, podem com certeza controlar-se horários semanais. É preciso, duma vez por todas, assumir que as unidades de saúde estatais estão mal geridas, e este é um entre muitos dos aspectos a regular. Comparar os gastos inúteis em relógios de ponto com os gastos que não se fazem em medicamentos, isso sim, é populista e demagógico!

A morte dos amantes

Se olho para o céu
pintas tons de ocre e rosa
para me deslumbrar.

Se me deito na terra
semeias tapetes de relva
para me confortar.

Se um dia me faltarem olhos
espanto ou horizontes
rasgarei véus de aurora
para te beijar
qual rito de amor e morte
para te ressuscitar.

(fotografia de at - Um buraco na sombra - La mort des amants)

28 dezembro 2006

Repetido

Voltarei no segundo
anterior à fronteira
em que fui retalhando
esta alma derradeira.

Voltarei devagar
como sonho repetido
àquele mesmo lugar
anterior ao segundo
em que hei-de enfrentar
o recomeço do mundo.

Voltarei eco de mim
lembrança raiz ou flor
novo sopro nova dor
nesse momento preciso
explosão de infinito
de quem ri por amor.

(Pintura de Naofumi Maruyama: breeze of river 1)

Assiduidade e pontualidade

Em Portugal, os problemas da assiduidade e da pontualidade são sempre vistos e sentidos de formas diferentes, dependendo do lado em que se está.

Se esperamos pela abertura de repartições, por uma consulta médica marcada para 2 horas antes, por alunos que chegam sistematicamente atrasados, se nunca conseguimos falar com alguém, por este ainda não ter chegado ou já ter saído para uma reunião importantíssima, estamos totalmente de acordo com a implementação dos relógios de ponto mecânicos ou electrónicos, com o rigoroso cumprimento de horários e com a exigência de sanções aos prevaricadores.

Mas quando chegamos sistematicamente atrasados às reuniões, porque não deixámos de tomar o imprescindível café, quando trabalhamos por tarefas e concluímos que o serviço está feito, mesmo que o horário ainda não se tenha esgotado, ou quando podemos realizar o trabalho noutro ambiente, nomeadamente em casa, porque não necessitamos de aparelhos ou de atender o público, aí já não se justificam relógios de ponto, nem obrigatoriedades de permanência num determinado local físico, cumprindo um horário fixo.

Vem isto a propósito da reacção do Bastonário da Ordem dos Médicos, e do Sindicato dos Enfermeiros à campanha que tem sido (bem) montada no que diz respeito à falta de controle da assiduidade dos profissionais de saúde e do incumprimento de uma lei que já tem 8 anos.

É claro que é necessário controlar a assiduidade e a pontualidade dos profissionais de saúde, como aliás de quaisquer outros. Não se admite que blocos operatórios que deveriam começar a funcionar a uma determinada hora não o façam por falta de pontualidade dos profissionais. Não se admite que estejam doentes horas à espera de consultas porque as marcadas para as 8:00h começam às 10:00h. Não se aceita que um serviço com um quadro composto por várias pessoas funcione com menos de metade porque as outras estão algures em parte incerta. Estas situações existem e são responsáveis por uma parte da ineficiência dos serviços públicos.

Mas há também o reverso da medalha. Os profissionais que trabalham nos serviços de urgência têm direito, por lei e pela segurança da qualidade diagnóstica, a folga no dia seguinte, para descansarem. No entanto, pela escassez de recursos humanos, continuam a trabalhar ininterruptamente, repetindo-se esta situação mais do que uma vez por semana. Nestes casos, os profissionais dão muito mais horas ao serviço público, não sendo remunerados por esse trabalho adicional. Por outro lado, há tarefas não têm horários rígidos: uma cirurgia pode demorar meia ou quatro horas, se houver complicações pelo caminho. A observação de tecidos ao microscópio, para os diagnósticos das lesões operadas ou biopsadas (pequenos fragmentos que se retiram de um tumor, por exemplo, para ser analisado), não necessita ser feita integralmente no serviço, havendo diagnósticos fáceis e outros que precisam de muito tempo de estudo e, inclusivamente, de consultas a especialistas exteriores às próprias instituições.

O que me preocupa é o facto de, em vez de se pugnar por regimes de trabalho que assegurem a qualidade do serviço prestado às populações, no que diz respeito ao cumprimento dos horários, à rapidez e eficácia diagnóstica, à gestão dos escassos recursos humanos existentes, em vez de se chamar a atenção do poder político para as graves assimetrias na distribuição de médicos por determinadas especialidades, o que levará à exaustão e ao envelhecimento dos poucos que ainda persistem, se perdem estas oportunidades a assumir posturas conservadoras, sem se sugerirem soluções que resolvam os problemas e responsabilizem os profissionais todos, desde os administradores, aos directores clínicos, directores de serviços, médicos, enfermeiros e auxiliares de acção médica, pelo integral cumprimento das suas funções.

Os horários devem ser controlados e adequados a cada função e a cada especialidade; deve apostar-se na pontualidade e, principalmente, em cumprir metas e objectivos bem definidos, nunca perdendo de vista aquilo que é mais importante: a qualidade no atendimento dos doentes.

27 dezembro 2006

Arredondar aos cinquenta

Já a arredondar para os cinquenta, vou cumprindo dia a dia a tarefa de viver. As rugas já se notam, os cabelos embranquecem, o peso não se controla tão bem, fazem-se muitos metros a mais por causa dos pequenos e grandes esquecimentos.


Já a arredondar para os cinquenta, vou tendo o raro privilégio de amar cada vez mais os antigos amigos e os que de novo se vão juntando, vou gostando de vinho com conversa, de livros apaladados, de cartões de Natal, de uma voz inesperada que não esqueceu.

Já a arredondar para os cinquenta vou soldando o amor, à prova de tudo o que moldamos, à medida de tudo o que partilhamos.


(pintura de Tudor Gradinaru: Candles in the Sky)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...