11 dezembro 2006

Isenção (actualizada)

Considero a argumentação que gira à volta da ausência de José Sá Fernandes no programa Prós & Contras absolutamente abusiva. A RTP é um canal público mas não estamos em campanha eleitoral. Os critérios jornalísticos que ditam o tipo de convidados para cada programa e o local onde estão sentados, não são obrigatoriamente os da proporcionalidade de votos.

Segundo o Sol e o Arrastão, houve um recuo por parte da produção do programa e, afinal, José Sá Fernandes já faz parte do painel central, devido aos protestos do Bloco de Esquerda. Se assim foi, acho uma pena, pois considero uma cedência de profissionais perante o folclore bloquista. A qualidade e a isenção dos organizadores do programa deverão ser avaliadas pelas audiências e pelos organismos de regulação.

A verdade é que este programa tem levantado celeuma, pois só assim se compreende os holofotes nele sempre focados e o sempre animado debate em relação aos eventuais convidados.

Quem se estará a sentir incomodado?

Actualização: vale a pena ler estes “posts”. Até parece que foi combinado!

10 dezembro 2006

Últimas


Finalmente morreu Pinochet. Que a terra lhe seja pesada.

A pobreza é uma ameaça à paz - Muhammad Yunus, prémio Nobel da paz, 2006.

Apesar de tudo, Portugal é dos países do mundo onde se vive mais e, se calhar, melhor!

O próximo


Só, neste templo de intimidade que criei, com janelas grandes, a música do piano e da guitarra, água a escaldar para o chá de roiboos, velas, incenso, manta nos joelhos e teclado obediente, refastelo-me no egoísmo próprio de quem pertence à escassa percentagem dos ricos e privilegiados do mundo.

Posso ofender-me e escandalizar-me com o abuso consumista do Natal, no conforto diário do café e torradas matinais, no vício intelectual de livros, teatro e música.

Como podemos nós comprar velas perfumadas e lambuzar-nos na consoada? Para uma infinidade de pessoas como nós, para o próximo tão distante do nosso mundo, Natal é mais uma noite a dormir ao relento, ou a morrer de fome, de guerra ou de falta de coisas tão básicas que nem concebemos a sua inexistência.

Só, na intimidade que criei, com o aconchego do amor que me rodeia, não me permito sequer perceber a miséria e a penúria que não se resgatam pela invocação anual e milenária de um nascimento, também ele metáfora de solidão e abandono, que não mancham a nossa felicidade, a nós, os senhores do mundo.

[fotografia de Jean-Luc Cramatte (?): refugiados, Rwanda]

Deontologia


Os médicos são cidadãos de pleno direito. Não têm mais nem menos direitos, como não têm mais nem menos deveres.

A sua actividade profissional, tal como todas as outras actividades profissionais, é regida por um código de ética, específico pelas consequências da prática de uma determinada profissão, geral pelos princípios de honra e de defesa da dignidade humana, mas que não pode sobrepor-se às leis do país.

Como disse num “post” anterior, os princípios não se alteram com as modas. A defesa da vida e da qualidade da vida, a defesa da dignidade humana, a obrigatoriedade de defender ambas, são princípios universais e intemporais.

Mas o conceito de vida e de qualidade de vida vão-se modificando à medida que o saber evolui. O prolongamento da vida por meios artificiais, a prevenção da doença pela existência de vacinas, a cirurgia endoscópica, o rastreio de neoplasias malignas, o achado de alterações patológicas pela utilização de meios de diagnóstico, antecipando consequências fatais por permitir actuar a tempo, tudo são ganhos para a vida e para a qualidade da vida que ninguém põe em causa.

Os médicos têm consciência e têm o direito de a seguir. Mas têm o dever de não prejudicar ninguém ao seguirem a sua consciência. Têm o dever de proporcionar a outros que sigam a sua própria consciência. E só assim se percebe que a recusa de um doente em seguir um determinado tratamento obrigue o médico a respeitar a decisão, mas não o desobrigue de zelar pela vida desse mesmo doente, ou de indicar quem o possa fazer, não violando os seus próprios princípios.

As leis são gerais e fazem-se para a totalidade da comunidade, independentemente das opções de consciência que cada cidadão é livre de fazer. Não podem existir ordens profissionais que, nos seus códigos de conduta, punam os seus membros por cumprirem a lei. Não podem existir ordens profissionais cujas leis internas se sobreponham às leis gerais.

Até porque, como o próprio Bastonário disse, não se vão punir médicos que pratiquem interrupções de gravidez, dentro do quadro da lei. Qual a vantagem de ter um código deontológico cujos preceitos não são para cumprir? De facto, tem-se assistido a uma oposição passiva à aplicação da lei já existente por parte da classe médica, em geral.

O estado deve zelar para que a lei seja cumprida e assegurar condições para que, em todos os serviços públicos, as consciências individuais não se imponham à consciência colectiva.

Nova Europa Social

Ao ler a crónica de VPV, no Público de hoje, fiquei com a desconfortável sensação de que os princípios de solidariedade social, igualdade e dignidade humana dependem da moda.

Os princípios para uma Nova Europa Social são o cerne da visão socialista da Europa e do mundo, e são intemporais. Podem discutir-se as formas de atingir esses princípios, que terão que ser obviamente diferentes das que se usaram há 10, 20 ou 30 anos atrás. O mundo mudou, a evolução tecnológica é exponencial, há novas potências emergentes, menos emprego, maior desigualdade social.

Não me parece que o socialismo esteja fora de moda. Talvez seja o VPV que esteja a precisar de uma modernização acelerada.

Constituição europeia revisitada


Ao contrário do que eu esperava, Portugal vai insistir, em 2007, em ressuscitar o defunto tratado constitucional europeu.

Tal como António Barreto diz, na sua crónica de hoje do Público, a Europa não aprendeu com os erros e corre para saltar o problema.

aqui abordei este assunto e não percebo a necessidade de uma Constituição europeia. A União Europeia é uma comunidade de Estados independentes e soberanos, não é um Estado em si. A multiplicidade de culturas enriquece a União Europeia e torna-a possível desde que não se esqueçam as diferenças e se respeite a possibilidade autónoma na decisão.

Se alguns pensam que o Tratado Constitucional, ou Constituição, é um imperativo prático e ideológico, com argumentos de peso tais como a possibilidade de políticas externa e de defesa comuns, então devem lutar para convencer os cidadãos europeus, todos eles, desse desígnio europeu. E deverão ser os cidadãos, por meio do voto, que é a forma de participação democrática por excelência para se decidirem políticas, a eleger um órgão mandatado para a criação do tal tratado constitucional.

Todos nos queixamos da ignorância da população relativamente aos assuntos europeus, do divórcio do povo com a política, mas os nossos representantes não se esforçam por aproximar os cidadãos das suas responsabilidades cívicas.

Portugal podia e devia liderar esse processo. Poderia incitar todos os países que formam a comunidade europeia a discutirem este assunto, dando-lhes capacidade de decisão. O reavivar de um processo já morto e enterrado, vai fragilizar a ideia duma Europa coesa e alargada.

09 dezembro 2006

"Por detrás dos Montes"


A cena em tons de terra, com artefactos de madeira rudes e nodosos. O som de cordas onduladas, arranhadas, as vozes que soam dolentes, arrastadas, os badalos e a percussão secos, agrestes, ecoando.

As figuras castanhas, com capas, as cabeças cobertas, tapadas, que escondem, as mãos em gestos sinuosos, certeiros, comedidos, ajeitam vestes, dobram distraída e mecanicamente as mantas, fiam a lã, cosem segredos ancestrais.

O vento, a cruz, o sino, o pau, a servidão, o hábito, a ingenuidade, o medo, o estranho, o emigrante, a máscara que transportamos, que usamos, que mudamos, a rejeição da diferença, o silêncio.

Por detrás dos Montes, violento e triste, primitivo e belo, de uma beleza terrosa e granítica, que nos atinge como o grito da gaita-de-foles.

Espectáculo do qual se sai sem palavras, mas com as emoções à flor da pele.


“Por detrás dos Montes”, criação do Teatro Meridional
(concepção e direcção cénica: Miguel Seabra; dramaturgia e assistência artística: Natália Luíza; interpretação: Carla Galvão, Carla Maciel, Fernando Mota, Mónica Garnel, Pedro Gil, Pedro Martinez, Romeu Costa; espaço cénico e figurinos: Marta Carreiras; música: Fernando Mota; marionetas: Eric da Costa; desenho de luz: Miguel Seabra)

[O teatro Meridional fica no Beco da Mitra (Rua do Açúcar, 64). É um espaço de tecto muito alto, com um aquecedor de gás cnetral, acolhedor, com algumas mesas em jeito de café teatro, chá e café para aquecer nestas tardes e noites invernosas, e uma sala de espectáculos com cadeiras forradas de vermelho-púrpura]

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...