06 dezembro 2006

Desigualdade

Gostava de ouvir os catorze sindicatos dos professores, as várias associações de pais, os partidos políticos e os governantes passados e presentes sobre os resultados deste estudo, em que se demonstra que as escolas discriminam os alunos pela sua origem socioeconómica, e discriminam os alunos pelo seu desempenho, de forma a que se criem guetos de escolas e guetos nas escolas.

Lembro-me da indignação de todos quando esta ministra chamou a atenção para estes fenómenos, responsabilizando também os professores por estas práticas (pouco) pedagógicas.

Porque os problemas na escola pública são mais e muito mais graves do que o suposto autismo do ministério em relação ao Estatuto da Carreira Docente.

05 dezembro 2006

"Diálogo de Vanguardas"


Finalmente fui ver a exposição de Amadeo de Souza-Cardoso.

Foi uma odisseia. Os astros não estavam a meu favor. Depois de começar o dia com um arco-íris lindíssimo, apanhei duas valentes chuvadas, daquelas que nos deixam totalmente encharcadas, com o triplo do peso a transportar nas pernas, nas botas e na carteira, que ainda está a secar.

Mas após essas peripécias climáticas, lá entrei da exposição, despojada de todos os meus pertences, inclusive a gabardina (estava molhada, justificou o segurança).

Mas valeu a pena. A exposição espalha-se por 2 pisos, em círculos mais ou menos concêntricos, misturando as inúmeras obras de Amadeo com obras de outros artistas com quem o pintor privou e que foram seus companheiros de experimentação.

Podemos aperceber-nos das várias fases de exploração das formas, com a decomposição geométrica dos objectos, em curvas e vértices repetidos e multiplicados, em cores vivas e contrastantes; a exploração das cores e das matérias, a mistura de objectos, letras e números, de máscaras faciais, de bonecas regionais.

Podemos observar desenhos a lápis, com cores, formas cheias de movimento, pedaços de papel em que treinava figuras e decomposições. Podemos ver algumas folhas de um conto de Flaubert que ilustrou (La Legende de Saint Julien L’Hospitalier), cadernos de desenhos que publicou.

É extraordinária a quantidade de obras que produziu em tão pouco tempo. Imaginamos que não fazia mais nada senão desenhar e pintar, compulsivamente. Aquilo que mais me deslumbrou foi a luminosidade e a pureza das cores e das formas.

Apenas uma nota menos boa: não gostei muito da iluminação que me pareceu fraca e nem sempre bem colocada. A identificação das obras era um pouco errática, obrigando a passear de cá para lá, em vez de estar sequencial.

É uma exposição imperdível. Deveria fazer parte dos curricula escolares.


(Pintura de Amadeo de Souza-Cardoso: Brut 300 TSF)

Disciplina

Se falar alto, com muita convicção, repetir até à exaustão palavras encadeadas, mesmo que não signifiquem nada, ser agressiva, tonitruante e mal-educada é sinónimo de qualidade num deputado parlamentar, então Luísa Mesquita é excelente.

Não partilho dessa opinião. Para mim um bom deputado é o que sabe do que está a falar, é o que pretende saber os porquês das políticas governamentais, é o que respeita a assembleia utilizando um discurso correcto, simples e claro, é o que não se baseia nos favores partidários, fazendo o seu trabalho diário com os olhos postos nos cidadãos que o elegeram.

Talvez por isso a disciplina partidária e as orientações dos presidentes dos grupos parlamentares, quais chefes de orquestras afinadas, não faça, para mim, muito sentido. Mas eu também não sou deputada.

Mesmo quem não pertence ao PCP sabe que a disciplina partidária é muito mais importante do que a opinião de um qualquer militante, independentemente de ser ou não deputado. Não se percebe a comoção da deputada Luísa Mesquita quando lhe pediram (ordenaram) que fosse substituída no parlamento. Ela deveria saber que assim era, desde que foi eleita, e que nunca seria o trabalho que desenvolvesse no parlamento, fosse qual fosse a avaliação feita, que teria qualquer influência no assunto.

Não percebo pois o sururu gerado à volta da substituição da deputada, assim como não entendo o motivo da recusa da mesma em ser substituída.

Mas ainda percebo menos o espanto pelo facto de Luísa Mesquita não ter comparecido às jornadas parlamentares do PCP. Alguém esperava que fosse, depois de lhe ter sido retirada a confiança política? Qual o interesse de debater estratégias parlamentares com alguém que, evidentemente, não voltará ao parlamento, e que não é bem vista pelos seu líder carismático e simpático, com é moda dizer-se de Jerónimo de Sousa?

04 dezembro 2006

Agonias

Augusto Pinochet e Fidel Castro, um na reforma outro na reserva como fantasma omnipresente: o mundo assiste à agonia lenta destes ditadores. Não tão lenta como a longa ditadura que ambos personificaram. Não tão agonia como a triste agonia de um sistema corrupto, pobre e desigual.

Também já se tinha assistido à morte lenta e arrastada de Francisco Franco, na tentativa de manter até ao limite um regime em estertor. Mesmo a morte de António de Oliveira Salazar foi adiada, esta em espírito, com a ventilação assistida protagonizada por Marcelo Caetano. Mas a ditadura portuguesa já estava em falência multiorgânica, sendo o desfecho irreversível. Como é o de Cuba.

03 dezembro 2006

Stradivarius


A resposta, ou pelo menos uma tentativa de resposta para a excelência do som de um certo tipo de violinos, parece estar na forma como as árvores eram tratadas com o objectivo de preservar a madeira, a matéria-prima necessária. Aí estaria o segredo dos Stradivarius. Só falta recomeçar a tratar as árvores com os mesmos produtos, e haverá sempre violinos de som celestial!

Trafaria

Naquelas paredes
estão dedos
entrançados
tantos anos
de palavras
escondidas.

Naquelas portas
estão olhos
proibidos
tantos anos
de segredos
desmentidos
derramados
sem sentidos.


[Fotografias de Hugo Madeira: Trafaria. ex-Prisão da P.I.D.E (1936 - 1974)]

Equilíbrio



Chove, mas não me importo. Temos a natureza que tende sempre para o equilíbrio, absorções e eliminações, catabolismos e anabolismos, a lesão e a reparação, teses e antíteses, neste conjunto molecular que faz com que sinta que o mundo escurece sempre que se tolda esse equilíbrio.

Chove, mas não me importo. Chegou o tempo de retomar a rotina.

(pintura de Alberto Delmonte: El dueño del equilibrio)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...