23 novembro 2006

Política no feminino

A propósito de Ségolène Royal, à volta de um excelente vinho e não menos excelentes petiscos, discutíamos, eu e duas amigas, se a existência de poucas mulheres em lugares relevantes da política se deve ao menor número de oportunidades que as mulheres têm, na nossa sociedade habitual, ou se à sua menor apetência pelo jogo político.

Houve quem defendesse que a política é um jogo de estratégia e planeamento e, por isso, um jogo masculino, mediado pela testosterona. Que as mulheres são pragmáticas e que não têm paciência nem jeito para o poder, têm outros interesses, nomeadamente o apelo biológico da maternidade e do cuidar, que seria, penso eu, mediado pelos estrogénios.

Eu penso que, para além de ainda não existirem igualdade de oportunidades entre os dois géneros, pois não há uma verdadeira distribuição equitativa das tarefas domésticas e de apoio familiar, a verdade é que o tipo de poder exercido tem uma marca essencialmente masculina e que, a esse tipo de poder, as mulheres resistem e afastam. Mas também penso que, na medida em que houver cada vez mais mulheres a ascender a cargos políticos relevantes e de direcção, a forma de exercício da governação se transformará, levando as mulheres a procurarem mais a luta política, com armas e objectivos diferentes.

Será interessante observar o que se vai passar nas próximas décadas.

Numa coisa acordámos todas: as quotas de participação feminina são uma forma machista de resolver a questão!

22 novembro 2006

Golfo da Guiné


Ao largo de S.Tomé e Príncipe peixes de várias formas e cores enriquecem catálogos incompletos, numa festa da natureza viva.

Para quem, como eu, tem algum receio das profundezas marinhas, é absolutamente fascinante ter um vislumbre do que ainda há para descobrir, neste planeta que maltratamos todos os dias.

Tantas vezes ignorada e desprezada a ciência preenche gulosamente os nosso olhos, a nossa imaginação, abre-nos a mente a novas aventuras.

Especificidades

Não sei porque é que este parágrafo do Manifesto em defesa da Caixa de Previdência dos Jornalistas não pode ser aplicado aos professores, aos médicos, aos enfermeiros, aos bombeiros, aos polícias, aos militares, aos mineiros (mesmo que sejam muito poucos), aos talhantes e a um sem número de outras classes profissionais!

(…) 3. O facto de os jornalistas disporem de um subsistema de Saúde significa que o Estado tem em conta, há décadas, as especificidades da nossa profissão, designadamente jornadas intensas e prolongadas e informalidade de horários, com fortes impactos na saúde e na qualidade de vida destes profissionais, como demonstra a significativa prevalência de stress e de doenças do foro cardíaco, desgaste rápido e até morte precoce. Esta situação agravou-se nos últimos anos, com a crescente precariedade, um extraordinário aumento dos níveis de exigência, polivalência e de disponibilidade. (…)

Já agora sugiro que se distribua o Manifesto em todas as casas, para que todos o possamos assinar, alterando o nome da profissão de risco e criando Caixas de Previdência para cada uma, alertando para as especificidades dos perigos inerentes a cada trabalho.

21 novembro 2006

Entrega

ENTREGA

Pressinto-me
destino desencarcerado
no beijo que transcende
as bocas no osculo dado.

Se a vida estancasse
no embrião que se gerou
esfumava-se
o desejo com que se amou.

Mas não se gera o destino
unindo os lábios num beijo
sem coração que valha
um homem dando-se à terra
como ao sexo que lhe calha.

(poema de José Craveirinha; pintura de Chichorro: sonhar amanhã sem lágrimas)

Sem asas


Devo estar muito senil, arcaica e totalmente fora da onda, mas acho debilóide a campanha do Millenium BCP “jovens com asas” (Bruno Nogueira é o desgraçado que dá a cara e a voz).

A forma e o conteúdo (2)

A propósito deste “post”, recebi um comentário do Luís Naves que transcrevo na totalidade, para se tornar mais fácil entender o meu comentário ao comentário dele.

Sofia, se isto fosse assim, aplicava-se a todos os países do mundo. a Espanha, em 1928, era um país com 80% de camponeses, mas esta discussão seria ali impossível, pois ninguém se lembraria de caracterizar o povo espanhol como tacanho, miserável, etc. Salazar é fruto do seu tempo e não especificamente da sociedade portuguesa da época. Tem de comparar com Mussollini, Hitler, Horthy ou Franco, ditadores bem mais sanguinários e que admiravam (sem excepção) Salazar. Ninguém se lembraria de dizer que Hitler é igual ao povo alemão de 1933, mas a ligação entre povo português-Salazar ocorre a MFM. Claro que Salazar era tacanho, avesso ao risco, mas o povo português da época não era: emigrou em massa, portanto, tinha coragem; era conservador e católico, mas isso não é sinónimo de tacanho; os camponeses eram quase todos analfabetos, mas não incultos.

É verdade que este raciocínio se pode aplicar a todos os povos do mundo, e a todos os seus governantes, figuras “ilustres” em todas as áreas, da política, da literatura, das ciências exactas, das ciências militares, etc. Sei muito pouco de sociologia, mas parece-me um excelente tema de estudo as relações entre as tais figuras “ilustres” (sejam elas quem forem) e o povo que lhes deu origem.

No seu artigo de opinião, MFM não afirmou que o povo português, de 1928 ou de qualquer outra época, só poderia ter originado um ditador como Salazar. MFM não afirmou que o mesmo povo nunca poderia dar origem a outro tipo de governante, em que outros defeitos ou qualidades desse mesmo povo estivessem representadas, ou que fosse mesmo o contrário das características dele. Aquilo que ela disse, e eu concordo, é que Salazar era o espelho do povo em que nasceu e foi criado.

Concordo com o Luís quando diz que estas análises devem ter em conta as circunstâncias e a época. Já não sei se concordo que a emigração em massa é uma prova de espírito aventureiro, embora exija imensa coragem. Parece-me que a emigração, naquela época, resultou da penúria e miséria em que se vivia, ou seja, terá sido mesmo uma questão de sobrevivência.

O analfabetismo e a ignorância, extremamente fomentados e usados pela Igreja Católica, foram factores muitíssimo importantes para o tipo de vida e condições em que se aceitava viver, em que se achava normal viver. A subserviência aos poderosos, comandantes do espírito e da carne, o relacionamento pouco saudável com as hierarquias, não as enfrentando abertamente mas fazendo-o pela calada, boicotando passivamente o poder, sempre foram características nossas.

É difícil olharmos para nós próprios e reconhecermo-nos em traços de que não gostamos. Conhecer os nossos defeitos colectivos pode ser a chave para nos orgulharmos das nossas qualidades colectivas.

20 novembro 2006

A forma e o conteúdo


A propósito da última crónica de Maria Filomena Mónica (MFM) no Público de ontem, já li vários comentários.

As elites não gostam do povo que dirigem. Concordo. Também penso que MFM não gosta do povo, de 1928 ou de agora. Mas isso não impede que tenha razão.

Quase todos nós, que vivemos na grande cidade, somos descendentes dos camponeses que, em 1928, compunham a maior parte da população analfabeta, ignorante, católica, temerosa, pouco dada a aventuras e riscos, invejosa e medrosa. Por muito que gostasse do meu avô, que para mim era das melhores pessoas do mundo, não posso deixar de lhe reconhecer muitos destes defeitos.

É claro que havia excepções, sobretudo algumas mulheres que, apesar da tacanhez e limitação de objectivos dos seus maridos e senhores, lutaram pela calada, trabalhando como escravas, dia e noite, para que os seus filhos pudessem estudar, desenvolver ambições e melhorar a vida.

É claro que existiram homens empreendedores, generosos, voluntariosos, mas eram (e são) uma escassa minoria. E também concordo com MFM no retrato que traça de Salazar, tão tacanho como todos os seus súbditos, exercendo a sua tacanhez e a sua pobreza de espírito durante tantos anos, pobre e honrado, sem sair da sua toca, sem olhar em redor, sem ter curiosidade de alargar os seus horizontes.

Também podemos falar das elites, de que MFM não falou nesta crónica, mas às quais já se referiu em vários outros textos, entrevistas, livros, da mesma forma ríspida e pouco abonatória, que transformou na sua marca registada.

O estilo pode ser pouco simpático, a forma pedante, mas o conteúdo é realista.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...