25 setembro 2006

Decisões inadiáveis

Estudos sobre a sustentabilidade financeira da Segurança Social, do Serviço Nacional de Saúde, a Reforma da Função Pública, dossiers que todos os governos de todos os partidos evitaram até agora, vão sendo noticiados com mais ou menos pompa.

Estamos na era das decisões difíceis, estamos na época da moda neoliberal, estamos no tempo em que a ideologia se asfixia com o mercado.

Este é o momento deste governo socialista mostrar que são as ideias que comandam o mundo. O dinheiro é importante, não se pode distribuir o que se não tem, mas a forma como se destina e a quem se destina o dinheiro faz a diferença na política. É aos políticos que compete governar, foi para isso que foram eleitos.

Mas a tão falada sociedade civil deve controlar, apreciar, comentar, reivindicar. Os sindicatos têm cada vez mais um papel menos importante na defesa dos interesses dos trabalhadores, porque ainda não perceberam que se transformaram em associações de defesa de privilégios corporativos.

E os trabalhadores necessitam de representantes conscientes das mudanças ao longo destas últimas décadas, que reivindiquem o que é justo e possível, que defendam a qualidade, o mérito e o rigor.

Sou a favor das progressões por mérito, sou a favor das remunerações diferenciadas por desempenho, sou a favor da informatização dos serviços, da formação contínua de todos os profissionais, dos apoios sociais às famílias, às mulheres e aos homens que trabalham e têm filhos e pais e mães a seu cargo, aos solteiros e solteiras, às pessoas.

Não tenho medo que se reforme o que está mal, desorganizado, ineficiente, ineficaz e gastador. Mas as reformas têm que ter em vista os cidadãos, porque os serviços servem para os cidadãos, os impostos são para gastar com os cidadãos, para que vivam melhor, aprendam mais, sejam mais felizes.


Adenda: Já começaram a surgir associações “pró-vida”, de "famílias numerosas", de "biólogos pela natureza", de "médicos pela consciência" e outros que mais ainda surgirão contra a despenalização do aborto. Mas o Ministro da Saúde tem uma necessidade, quase diria patológica, de abrir a boca. Porque é que ele não está calado???

24 setembro 2006

Naturoterapia


Os anos vão secando a pele, transformando-a num mapa em que estão indicados todas as perdas de vitaminas, todos os cigarros, todos os aperitivos, todas as noites mal dormidas, o vento e a chuva e o calor.

As rugas da alma, que ao longo da vida se cruzam e se arredondam, se cravam ou quase desaparecem, estão dependentes de cremosas festas, de hidratantes beijos, de rejuvenescedores abraços, de palavras prenhas de felicidade.

Para manter a alma limpa e sedosa devemos inocular amor, sem avareza nas doses, mas com muita atenção à qualidade!


(pintura de Scott Bennett: soul in wonder)

Último dia




Que seja a preto e branco

o vislumbre do teu corpo

nos contornos da sombra

que desenha por instantes

a luz.

(Fotografia de Hugo Madeira: O Fatalista)

QuartoEspaço: "Fragmentos de Liberdade": Fotografia, Pintura e Video
Armazém nº53, Cais do Ginjal – Almada - Dias 15,16,23 e 24 de Setembro
19h-23h.

23 setembro 2006

Animalidade

Égua tu foras
e sem rédea
e sem trégua
te montara
por trás
em pêlo
pelo gozo que me dás.

Se vaca foras
então
tuas tetas ordenhara
e teu leite
meu deleite
por todo corpo espalhara
em louca avacalhação
de touro de cobrição.

Fosses porca de chiqueiro
e contigo chafurdava
na lama
como na cama
para guardar o teu cheiro
e nem sequer me lavava
para o ter o dia inteiro.
Varrasco me comportava
como poço de carinho
envolvendo-te em toucinho.

Talvez cabra te quisesse
para contigo saltar
e por ti toda esfregar
uma barbicha aparada
de bode que quer e pode.
Disputava-te à marrada
amarrada e bem vendada
e levavas uma esfrega
que nenhuma cabra-cega
ou menos cega imagina…
Questões de lana-caprina!

E se cadela nasceras
cada cio teu atendia
dia e noite
noite e dia
a teu sexo me prendia
e eu ladrava
e gania
sem me importar com a dor.
Podia até
por amor
tirar-te trela e coleira
mesmo que fosses rafeira
desde que fosses fiel…
Amava-te sem quartel!

Até gata te queria
com requebros nos miados.
subia por ti telhados
em noites de lua cheia
servindo-te
volta-e-meia
suculentos linguados
ou outros peixes que tais…
Amava-te nos beirais
pelas noites de janeiro
com requintes naturais
de felino cavalheiro.

Mas tu nasceste mulher
e uma mulher me gerou
homem como sou hoje
e um homem que te quer
num desejo natural
pelo mais belo animal
que Deus ao mundo deitou!

(poema de Pedro Neves; escultura de Auguste Rodin: femme accroupie)

Rascunho


No rascunho diário
em que pernas, olhos e pele
ensaiam a existência,
procurando a perfeição da voz,
a certeza no olhar,
o dedilhar dos receios
com subtileza de sombra,
amarroto as folhas amareladas
deste Setembro.
Sinto-me já crepitante e volátil
e o dia apenas amanheceu.


(Fotografia de Nadezda Koldysheva: Autumn shadows)

22 setembro 2006

Sobre o "Beato"

Subscrevo na íntegra o editorial de Helena Garrido, no DN de hoje. Sóbrio, lúcido, desencantado, certeiro. Vale a pena ler.

Pelas Ruas da amargura

Fernando Ruas e a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) deram, mais uma vez, uma triste imagem do poder autárquico, apostado em manter as regras de endividamento e má gestão, chegando à ameaça de incumprimento das obrigações públicas para que foi eleito.

A redução do défice é uma imposição da administração central e das autarquias e é um imperativo para tentar melhorar o estado da nossa economia. Talvez seja altura de auditar a gestão autárquica e perceber como são gastos os dinheiros dos contribuintes, que devem ser exactamente para as funções que a ANMP ameaçou cortar: educação, saúde, segurança e salubridade.

O espanto indizível de quem ouve as declarações de Fernando Ruas só é ultrapassado pela tentativa de marcha-atrás, protagonizada pelo mesmo Fernando Ruas quando, questionado na TSF sobre a ameaça de cortes de financiamento, deu o dito por não dito afirmando que manteria intactos todos os compromissos com todas as entidades, nomeadamente PSP, GNR, escolas e recolha de lixos.

Triste, triste, tristíssimo.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...