11 setembro 2006

onze de Setembro de dois mil e um


Data


Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça



(poema de Sophia de Mello Breyner Andresen)

10 setembro 2006

Sándor Márai


“A herança de Eszter” é uma história contada na primeira pessoa, cuja acção decorre em dois planos temporais: o primeiro num dia, o segundo em 20 anos.

Com uma rara elegância de linguagem, mas de uma arguta e melancólica realidade, a narradora discorre sobre os seus pensamentos, que dissecam as fibras sentimentais do desencontro que foi a sua vida, toda ela na esperança de que um dia se realize no entendimento daquele que lhe suspendeu a existência.

É um livro agridoce, muito bem escrito, de uma aparente simplicidade, em que se espelha o intrincado mundo de amores e ódios, coragem e abnegação, mentiras e desespero, que nos deixa presos às páginas e ao mesmo tempo numa leve e funda tristeza.

“As velas ardem até ao fim” tem uma estrutura narrativa semelhante, com poucos diálogos, em que parece estarmos inseridos na cabeça do narrador e, ao transformarmo-nos nele, sentimos e vivemos os seus percursos, lembramos e somos lúcidos depois de uma longa e intemporal auto análise, de examinarmos e reexaminarmos todos os cambiantes do que foi marcante, mesmo que, na altura, não o tenhamos sentido como tal.

Autor húngaro, que se opôs ao nazismo e ao comunismo, deambulou pela Europa e acabou por se fixar nos Estados Unidos, suicidou-se com 89 anos, só e esquecido. Que eu saiba, em português, só estão traduzidos estes dois livros. É pena. Gostaria que houvesse mais.


(Estátua de Sándor Márai em Košice, Slovakia)

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O novo filme de Pedro Almodóvar é, como todos os anteriores, excessivo. Excessivo nas cores, excessivo nas formas, excessivo nas vozes, excessivo nos corpos, excessivo nos planos, excessivo na opulência.

É uma história de mulheres em que mais uma vez se demonstra que há uma sociedade à superfície e que, na profundidade, existe uma realidade com regras femininas, ditadas pelas mulheres mães e pelas mulheres filhas que depois são mães, em que os homens são catalizadores das acções, a causa e a consequência do universo feminino e da forma como ele governa o mundo. Porque a vida é feita de regras que não são impostas, apenas existem. As almas deambulam pela terra à procura da paz eterna, os sentidos são o motor dos destinos traçados, em ciclos contínuos e quase sempre repetitivos.

Mais uma vez somos testemunhas de acontecimentos extremos, contados com as câmaras a amplificarem as palavras, os risos, as lágrimas, os cabelos, as mamas, os rabos, os sapatos, as bocas, as rugas, as pinturas a escorrer pelas caras, os pimentos, o tomate, o sangue, as batas e os lenços e as meias até aos joelhos, o vento, as portadas de madeira, os corpos gordos, velhos, suburbanos, doentes, sem pudor, com a naturalidade e a cumplicidade de quem sabe que a ficção não é mais que uma imagem desbotada da vida.

Não foi o filme de que mais gostei. Mas gostei bastante.

09 setembro 2006

Pacto na Justiça


Não concordo com pactos de regime, acordos alargados ou negociações secretas. Quando voto escolho uma determinada força política que propõe um determinado conjunto de políticas, que eu gostaria de ver implementadas.

E o que foi que esteve mais em negociação? Outros pactos? O nome do Procurador Geral da República?

Que pactos se vão seguir? O da segurança social?

Foram o PS e o Eng. Sócrates mandatados com maioria absoluta para fazer um bloco central?

A quem pedirei contas nas próximas eleições? A José Sócrates (sim, porque o PS não foi tido nem achado), a Marques Mendes ou a Cavaco Silva?

Agendas desconhecidas?


Antes de mais afirmo desde já o meu total repúdio a todas, mesmo a todas, organizações terroristas, independentemente da cor política, do país a que pertençam ou da fé que processem. Afirmo ainda a minha total solidariedade para com Ingrid Betancourt e outros sequestrados como ela, e o desejo de que termine o pesadelo das vítimas e das famílias.

Por todas as estas razões não posso perceber o facto de representantes de uma organização terrorista serem convidados por um partido que se diz democrático, a fazer propaganda das suas acções terroristas num país como o nosso, e acho patéticas e inaceitáveis as justificações do PCP.

Há, no entanto, alguns factos que me deixam algo perplexa:

  • Ingrid Betancourt foi sequestrada pelas FARC a 23 de Fevereiro de 2002;
  • Em Junho de 2002 a União Europeia põe as FARC na lista das organizações que considera terroristas (é óbvio que as FARC são terroristas independentemente da data a partir da qual assim as classifica a União Europeia);
  • Todos os anos a Festa do Avante recebe representações do Partido Comunista Colombiano (2002, 2003, 2004, 2005) e, também, da revista Resistência (pelo menos em 2004) que faz propaganda das FARC.

Parece-me deveras extraordinário que só este ano se tenha descoberto a ligação e apologia que o PCP faz às FARC!

Bem sei que mais vale tarde que nunca, mas não deixa de ser intrigante…

07 setembro 2006

Vem mesmo a propósito

A propósito do último programa "Quadratura do Círculo" vale mesmo, mesmo a pena ler Quadratura da estética, do "Lóbi do Chá" e As férias não lhes fizeram nada bem... do "Herdeiro de Aécio".

Incêndios


Sempre considerei Pacheco Pereira como um indivíduo que, embora pertencente a um partido político, tinha a capacidade de olhar para o cenário político de uma forma independente e intelectualmente honesta.

Tenho que rever em baixa essa minha assumpção. Então após a “Quadratura do Círculo” de ontem, é mesmo obrigatório e urgente que o faça.

De muito se pode acusar este governo, nomeadamente do controlo mediático, da propaganda e do discurso autoritário-e-positivista, possível pela inexistência de oposição credível.

A discussão sobre os incêndios, no dito programa, foi de uma inacreditável demagogia e falta de rigor, como Pacheco Pereira sempre reclama, o rigor.

Então vamos lá ao rigor:

  • Segundo o relatório de 5 de Setembro, da Direcção Geral dos Recursos Florestais (DGRF), entre 1 de Janeiro e 31 de Agosto deste ano, houve 18770 ocorrências (2897 incêndios e 15873 fogachos) o que correspondeu a 57994 ha de área total ardida. Este número corresponde a 19,31% da área ardida em 2005, 29,79% da média da área ardida entre 2001 e 2006 e 91,35% da menor área ardida (2001 – 63483 ha).
  • Ao olharmos para o gráfico do índice de severidade, percebemos que 2006 foi semelhante a 2003.

É claro que é horrível a quantidade de área ardida, é claro que o governo não pode ficar satisfeito e deve tomar medidas para que acabe este flagelo sazonal. Mas não podemos deixar de reconhecer que as medidas implementadas foram importantes e tiveram resultados muitíssimo melhores que os obtidos de há 5 anos para cá! Foi uma vitória de todos os que combatem os incêndios e uma vitória política de António Costa e do governo.


O que não correu nada bem foi a prevenção, a limpeza das matas, por exemplo e, se calhar, deve ser aí que se devem concentrar os esforços e alterar atitudes e comportamentos, do estado e dos privados.

Ao não reconhecerem estes factos, Pacheco Pereira e Lobo Xavier demonstraram quão desesperada está a oposição. E bem à maneira de político chocarreiro, quando percebeu que era melhor largar o assunto incêndios, Pacheco Pereira atacou falando no MIT (importante, sem dúvida) e do passaporte electrónico!

Foi de tal maneira que até consegui concordar com Jorge Coelho!!

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...