27 agosto 2006

Um aperitivo científico

Quando se nomearam determinado tipo de corpos celestes como planetas (do grego planētēs, que significa viajante) acreditava-se que os corpos iluminados que, à noite, pintalgavam o céu, se moviam e, portanto, viajavam à volta da Terra.

Segundo Ptolomeu, a Terra estava parada e, à sua volta, viajava o restante sistema solar (geocentrismo); havia então sete planetas: Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno.

Depois, primeiro com Aristarco de Samos (astrónomo grego que viveu por volta do ano 300 a.c.), passando por Nicolau Copérnico (cientista e astrónomo polaco, sécs. XV/XVI) até Galileu Galilei (cientista e astrónomo italiano, sécs. XVI/XVII), postulou-se que quem estava parado era o Sol, movendo-se a Terra (e os outros planetas) à sua volta (heliocentrismo); o Sol e a Lua deixaram de ser considerados planetas.

Posteriormente, e à medida que se aperfeiçoavam os telescópios, foram-se descoberto novos planetas como Plutão (1930) e UB313 (2003). Para além destes corpos celestes, também fazem parte do sistema solar satélites, cometas e asteróides.

A verdade é que têm existido grandes avanços neste campo, e as diferenças de massa e das órbitas (entre outras) entre os diversos corpos celestes, levou a comunidade de astrónomos, a União Astronómica Internacional (a 24 deste mês) a reclassificarem os corpos celestes, passando Plutão a caber na definição de planeta anão.

Não sei porquê tanta polémica relativamente a esta desclassificação. Daqui a alguns anos, provavelmente após mais desenvolvimentos tecnológicos que permitam conhecer com mais pormenor os corpos celestes, haverá novas revisões desta classificação e novas classificações.

Ainda bem que assim é. Em ciência a única certeza que existe é que não há certezas absolutas, e muito menos eternas...

(Vale a pena ler a Wikipédia)

Babel


Encontro na torre de Babel
uma multidão de cores
braços e olhos
absortos na diferença.

Eu absorvo a semelhança.

(escultura de Alan Baughman: torre de Babel)

26 agosto 2006

Amanhã


E se, amanhã, o mundo acordar sem neblinas húmidas e refrescantes, sem a secreta e inevitável certeza do sol a nascente?

A vida arruma-se em fascículos, numa gaveta interior bem dividida, automaticamente oferecendo os dados que a qualquer segundo necessita. Sem qualquer interrogação aceitamos como verdades o que se nos oferece ao olhar, o café aberto ao fechar a porta de casa, o ruído do motor ao dar a volta à chave, o azul baço do rio, a luminosidade dos dias de verão, os sorrisos de bom-dia quando se inicia o trabalho, o espreguiçar na cadeira depois de algumas horas de concentração. No ritualismo dos gestos e dos sentidos construímos uma sensação de eternidade e segurança irreal.

E se, amanhã, os contornos do dia forem diferentes e os meus olhos desdizerem as cores e as texturas do amanhecer?


(com agradecimentos aO Franco Atirador, pintura de Naofumi Maruyama: aurora)

Sentido único


Em sentido único amamos
esculpimos com gotas o rosto
rodamos ponteiros etéreos,
abrimos rios e veias
empapamos pedras e pombas.

Espantados ou serenos
como pó na eterna poeira,
nascemos e perecemos
com o luzir que incendeia
o único sentido do mundo.

(pintura de Helen Janow Miqueo: cosmic)

25 agosto 2006

Eu aguardo, sr. Ministro


Tenho tido uma enorme esperança de que com o PS no governo e com este ministro da Saúde, que tem pouco jeito para as câmaras, que parece sempre falar demais, mas que parece ter ideias, o que não abunda, que era mesmo desta vez que se iriam fazer reformas a sério.

E não temos tido razões de queixa. Tenho defendido que o estado e o funcionalismo público são para servir e não para se servirem. Penso que o estado tem algumas obrigações que não pode descorar, como a saúde universal e gratuita, mesmo que tendencialmente.

A forma como se organiza a gestão dos centros de saúde, hospitais, etc, sempre me pareceu secundária. O que acho fundamental e a que raramente se assiste, é à responsabilização de quem trabalha, começando por cada um dos prestadores de cuidados, até aos directores dos serviços, directores clínicos, administradores e directores hospitalares e dos centros de saúde.

Introduziu-se no sistema o conceito de empresarialização dos hospitais, elevando-se a bandeira da autonomia de contratualização, de definição de objectivos, de controlo de custos.

Há algumas semanas tem escapado para os media a ideia de que, afinal, alguns hospitais têm muito maus resultados, não se percebendo muito bem o que isso significa, a par de outras notícias de gastos sumptuosos, etc.

Talvez valesse a pena perceber o que correu mal nesses hospitais (se é que alguma coisa correu mal). Porque se há gastos excessivos, convém saber se houve acréscimo de produtividade, mais consultas, mais internamentos, mais actos operatórios, mais doentes a ser tratados de doenças muito dispendiosas como a SIDA e a doença oncológica, se se fizeram mais exames complementares, etc. Ou se, pelo contrário, esse dinheiro que se gastou a mais não se reflectiu em melhor qualidade de atendimento às populações e foi delapidado em horas extraordinárias desnecessárias, aparelhos que não se podem usar, administradores a mais, mobiliário, etc.

Repentinamente, o ministro ameaça os tais hospitais perdulários de voltarem atrás, ou seja, de passarem a ser, novamente, hospitais públicos.

Francamente, não percebo. E que tal responsabilizar as equipas de administração e gestão hospitalar pelo que se passa? Qual é a vantagem do retrocesso? E qual foi a vantagem da empresarialização?

Com enorme tristeza e apreensão, começo a duvidar do rumo, das ideias do Sr. Ministro, deste governo socialista.

Paralelamente, vão saindo artigos dando conta do início das negociações das propostas de alteração da remuneração dos médicos hospitalares. Filosoficamente estou de acordo no que diz respeito a premiar quem mais trabalha. Não estou de acordo, como bastas vezes o afirmei, com o fim da exclusividade de funções. Para mim, o correcto seria exactamente o contrário, com a total separação entre sector público e privado.

Espero que as negociações corram bem. A inevitabilidade da alteração do status quo é evidente. Esperemos que para melhor, com maior justiça, equidade e responsabilização.

Eu continuo a aguardar, Sr. Ministro.

(Os russos são
ligeiramente machistas!)

23 agosto 2006

Quase Setembro


Estamos a 2 semanas (menos) do fim do mês. Lá vão saindo alguns coelhos do chapéu, lá se vão treinando alguns casos e discussões. As alterações dos preços de alguns exames complementares, na ADSE, a ameaça de greve dos médicos às horas extraordinárias, a acusação de Cintra Torres de ingerência do governo na informação da RTP, as notícias sobre o aumento da dívida do subsector estado, e a proibição de circulação de resíduos perigosos em Souselas.

Passo a passo aproximamo-nos da reentrada na atmosfera terrestre. Os portugueses estão mais endividados, as férias vão-lhes sair caras.

O Outono faz falta, com as rabanadas de vento, as folhas estaladiças e o acorrer às despesas escolares. O cheiro dos livros, o formigar de gente pelas ruas, a discussão de casos difíceis, a responsabilidade pelo que se decide.

Que venha a actividade e que se varra esta modorra de Verão! Já chega de bonomia, preguiceira e sonolência!

Palavras


Olho para a infinita combinação de letras,
para o desmedido tesouro de palavras
e não encontro as suficientes para te amar.

Pacientemente vou coleccionando vogais,
retocando sílabas, refazendo vírgulas,
para esta longa carta de amor
que te ofereço, dia a dia.

(quadro de Justin Simoni: Words are Sweet Sounds for Objects Unreal)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...