17 agosto 2006

Em branco


Esta noite branca
ao lado dos corpos nus
os amantes brancos
absorvem sôfregos o frio
que paira no tempo
que lentamente se afasta
escorregando
do amor em branco
que desesperadamente
se desenha e arrefece.


(Pintura de Nikolay Reznichenko: White Night)

16 agosto 2006

Fim de dia


Está fresquinho, e que bem que sabe um intervalo na torreira de Agosto.

Depois de um jantar de conversa, remata-se com café e um pastel de Belém, morno, estaladiço, polvilhado com açúcar e canela.

Arte naïf


Talvez valha a pena espreitar o "XXVII Salão Internacional de Pintura Naïf", no Casino Estoril. Pelo menos ali o mundo é simples e colorido, e os barcos são barquinhos, o mar é azul e as barracas têm riscas à marinheiro.

(pintura de Mª del Carmen Artigas: Mar Menor)

15 agosto 2006

Suspenso


O mundo abre a janela,
sacode fragmentos de sonhos
areja palavras
recicla esperanças.

Suspende-se o medo.
Ouve-se piar um mocho.

Até à próxima bala.

(desenho de Pablo Picasso: guerra e paz)

Cessar fogo

Segundo o jornal “Público”, Hassan Nasrallah disse, num discurso televisivo, que o Hezbollah não é um exército regular e que não combaterá como um exército regular.

Deixemo-nos pois de afirmar hipocritamente que Israel atacou civis no Líbano. É claro que muitos civis morreram, mas muitos dos mortos eram combatentes do Hezbollah, misturados e vivendo no meio da população civil. Podemos não concordar com os métodos que Israel utiliza para defender o seu território, podemos não aceitar que Israel queira, unilateralmente, marcar as suas fronteiras, não reconhecer nem tentar negociar com os representantes do Hamas, eles próprios representantes legítimos dos palestinianos.

O que não podemos é encarar a ofensiva de Israel como se fosse a ofensiva contra um povo inocente, que nada fez para ser atacado. Trata-se da disputa de um território, em que os dois lados clamam pela justeza divina das suas pretensões.

Esperemos que este cessar-fogo se mantenha. Infelizmente, temo que seja efémero. Embora Israel e o Hezbollah o tenham aceite, já se percebeu de um e do outro lado as cautelas no discurso, o que pressupõe que apenas estão a recuperar forças.

Por muito que a comunidade internacional prepare documentos e negoceie nos bastidores, são os contendores que têm que querer a paz. Para tal, a existência de Israel como um estado soberano, com direito à paz, a delimitação de territórios e fronteiras negociadas, em vez da imposição pela força, como tem acontecido da parte de Israel, talvez pudessem abrir uma nesga de esperança.

13 agosto 2006

Progresso

A escravidão e a discriminação sexuais, nas nossas tão livres e ricas sociedades ocidentais, são uma consequência do incentivo ao consumo. Assim inventam-se novas necessidades e novos parâmetros de comportamentos, que chegam a atingir as raias do grotesco.

Li no DN (não está disponível on-line) que a moda dos saltos altos está a dar brado nos USA. Quando estou a dizer altos estou a falar (ou a reportagem falava) de saltos de 15 cm!

Para além "dos tornozelos finos, das pernas longas, das ancas firmes e das costas ligeiramente arqueadas" (segundo a mesma notícia), há também os pés doridíssimos, os calos, os joanetes, as dores nas costas e a impossibilidade de andar ou estar de pé por mais de 10 minutos seguidos, nada que não seja ultrapassável pela eterna capacidade de sacrifício feminino (é preciso sofrer para ser bela).

Mas pior do que isso é o facto das mulheres (aliás dos seres humanos e outros animais), por muito milionárias que sejam, terem pés com 5 dedos, numa forma mais ou menos rectangular, formados por ossos, cartilagens, articulações com limitações de movimentos, músculos, nervos, vasos sanguíneos e tecido adiposo, que formam almofadas plantares escassas, pele e unhas.

Pequenos detalhes! Já há médicos (aqueles que gostam de citar o código deontológico e que, por princípio, pelo menos não devem fazer mal) que, a troco de muito dinheiro, cortam ossos, insuflam com alguns produtos miraculosos as plantas dos pés, para criar uma zona de amortecimento maior e mais espessa, enfim, fazem da podologia uma escultura, para se poderem vender mais sapatos de altíssimo e elegantíssimo salto.

Só gostava que me explicassem em que é que isto é diferente do costume bárbaro e desumano de ligar os pés às mulheres chinesas, desde muito jovens, para que elas ficassem com pés elegantes. Mesmo que isso significasse uma vida dolorosa e periclitante, de pobres estátuas deitadas.

12 agosto 2006

Cacos


Dizemos palavras gastas,
pobres, cinzentas,
como as ruas destruídas,
as pedras empunhadas.

Secam-nos os olhos de pó,
sangue e lume,
como cacos de almas
nos corpos que caminham.

Estamos ébrios de morte,
gritamos raiva a sofrer,
para quando a plenitude
de começar a viver?

(pintura de Jack Bice)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...