12 agosto 2006

Narciso


Ao folhear a alta velocidade a revista que sai com o DN aos sábados, li os títulos referentes a uma reportagem sobre Fátima Lopes (a estilista). Afirma, entre outras coisas, que só veste roupas, calça sapatos, usa jóias e malas, apenas desenhadas por ela. E que os próprios móveis são também por ela desenhados.

Fiquei a pensar naquilo. Como suspeito que Fátima Lopes não tenha dificuldades monetárias, ou seja, deve poder adquirir o que quer e quando quer, aquelas afirmações significam que só lhe apetece comprar aquilo que ela faz.

Será que, por muito que as peças de vestuário, calçado, acessórios, jóias e mobiliário dela sejam fantásticas, e é maravilhoso ser-se tão versátil, será que não há no mundo desenhadores de moda e de decoração que lhe agradem? Será que a sua imaginação e criatividade a preenchem, só por si?

Não consigo imaginar-me a viver rodeada por mim própria e pelas minhas criaturas, por muito que me agrade criá-las. A contemplação de si próprio, como Narciso, tem muitas facetas, é enganadora e muitíssimo limitadora. Surpreendem-me as pessoas que se envolvem em redomas, ainda por cima construídas à sua imagem e semelhança.


(pintura de Pier Paolo Pasolini: Narciso)

11 agosto 2006

Corporativismo assanhado

A propósito desta notícia do DN é absolutamente espantoso o conjunto argumentativo dos representantes da FNAM.

Se os médicos têm um contrato de trabalho de 42 horas com exclusividade num determinado hospital (o que significa que não podem acumular com outro trabalho, público ou privado, excepto ensino universitário), este tem todo o direito, que lhe é conferido por lei, de se assegurar que o contrato seja cumprido.

A declaração do IRS é um documento que se pede para variadas situações banais, pelo que não percebo como é possível a FNAM alegar a suposta privacidade das informações aí constantes.

Como em todas as profissões há aqueles profissionais que cumprem, com zelo e generosidade, felizmente uma esmagadora maioria, e há aqueles que não cumprem. Será que o Estado, que os emprega, que lhes paga, que é responsável pelo trabalho que desenvolvem, perante todos os cidadãos, não tem o direito e o dever de separar os bons dos maus elementos, de premiar quem deve premiar e de punir quem deve punir?

Sou totalmente a favor do trabalho em exclusividade. Penso que os hospitais só teriam a ganhar se tivessem os seus profissionais de saúde a trabalhar a tempo inteiro e em exclusividade, rentabilizando os blocos operatórios, os serviços de exames complementares e outros, com remunerações dignas e boas condições de trabalho. Melhorava-se o atendimento aos doentes e poupava-se dinheiro ao estado.

Espero que este não seja o mote para o acender do pavio do corporativismo cego que tem incendiado outras classes profissionais.

Patético

Não deixam de ser patéticas as notícias sobre o “alegado” acordo para o cessar-fogo negociado por americanos e franceses. Não se chega a perceber quem está em guerra.

Entretanto, Israel continua a ofensiva terrestre e o Hezbollah continua a lançar rockets.

E nós, entre os enviados especiais e os especiais comentadores, vamos assistindo impávidos ao desmoronar das nossa certezas.

Manhã


Ao meu lado segue o rio
majestosamente quieto
em bandas de azul e luz.

Abro o vento na janela
acordo a música
na manhã que começa.

O dia 11


Não são fanáticos em nome de uma fé, de um ódio, de uma visão apocalíptica do mundo. Não são pequenos grupos de gente marginalizada que fabrica em casa bombas assassinas. Não são adoradores de virgens no céu nem hordas de dementes.

São elites com dinheiro que movem outras elites com conhecimentos. São teias de interesses que movem muitos milhões. São gente com conhecimentos científicos ou que sabe a quem se dirigir. São telemóveis, computadores, internet e chamadas para a morte.

São gente que usa todas as facilidades que tentam combater e destruir. São gente que só conhece os princípios abstractos porque tem uma vivência pragmática.

Como entender? Como tentar explicar?

O medo veio para ficar.

09 agosto 2006

Untitled


Não meu, não meu é quanto escrevo,
a quem o devo?
De quem sou o arauto nado?
Porque, enganado,
julguei ser meu o que era meu?
Que outro mo deu?
Mas, seja como for, se a sorte
for eu ser morte
de uma outra vida que em mim vive,
eu, o que estive
em ilusão toda esta vida
aparecida,
sou grato Ao que do pó que sou
me levantou.
(E me fez nuvem um momento
de pensamento).
(Ao que sou, erguido pó,
símbolo só).

(poema de Fernando Pessoa; pintura de Brian Lloyd Fetherston: souls)

Velocidade


Que grande atleta, que corpo escultural, que máquina de correr! Mesmo não sabendo falar português, cantar o hino ou comer bolinhos de bacalhau, aposto que ninguém, neste momento, questiona a justeza da escolha da nacionalidade que Obikwelu fez.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...