04 agosto 2006

Poupança (1)

Por muito que seja imprescindível e meritório o esforço do estado, e portanto de todos nós, para poupar, em tudo o que for possível, essa poupança deve incidir primordialmente sobre os desperdícios. Na saúde, como em muitos outros sectores, há imenso desperdício.

Já várias vezes referi o meu desacordo em relação à organização dos serviços de urgência. Até agora, as equipas de urgência são formadas por médicos escalados de várias especialidades, cujo horário na urgência está inserido no seu horário de trabalho.

Como os serviços de urgência servem como serviços de consultas, que deveriam ser efectuadas nos centros de saúde, e como a escassez de médicos é crescente, para que se assegurem equipas de urgência os médicos têm que aumentar o seu horário de trabalho, à custa de horas extraordinárias. Por lei, são obrigados a cumprir 12 horas extraordinárias por semana. Na prática, um médico tem um horário de 35+12 horas ou 42+12 (se em exclusividade).

Deixando de parte a discussão da tabela de remuneração das horas extraordinárias, elas só serão feitas, para além do obrigatório, se os médicos quiserem. Qualquer trabalho a mais do estipulado no contrato deve ser acordado entre as partes, e só será efectuado se for compensatório para ambas.

Como vão os hospitais assegurar equipas de urgência, se os médicos deixarem de prestar mais 12, 24, ou mais horas extraordinárias por semana? Não sei e também não sei como se remuneram urgências com critérios de produtividade. Aliás ainda ninguém explicou.

Sugiro que se alterem os serviços de urgência e se transformem em serviços autónomos, com quadros próprios e especializados. Vejo o futuro algo negro.

03 agosto 2006

Verão


Lambuzo-me de figos.
Na cesta a sombra amadureceu.

Lavo-me de seda.
Na boca a cereja mordeu.

Abandono as mãos,
nos corpos avaros de céu.


(pintura de Elbert Price: figs with blue cup)

02 agosto 2006

Despedidas


Desde aquele dia começou a despedir-se. A morte anunciava-se, de forma mansa e vagarosa, escrita nas páginas do seu corpo. Uma proteína aqui, um gene acolá, uma troca de iões mal sucedida, e começavam a apagar-se os milhões de luzinhas que iluminam um corpo.

Lentamente preparava-se para a dor da separação, partia um a um os frágeis fios que a tornavam uma parte dele. Desligava-se poro a poro, como se a mornidão da temperatura fosse reduzindo a textura, descolorindo a pele.

A pouco e pouco a voz, o olhar, o sorriso eram já fantasmas da voz, do olhar, do sorriso, como imagens de antimatéria com a qual se habituava a conviver. Ia arquivando todos os gestos, os carinhos, a respiração, os pêlos, a língua. Olhava fixamente os movimentos para que os pudesse reviver em si.

Exalando a vida na cadência do respirar, esfumando-se para ela, embora ainda e só apenas ela o sentisse.

No momento que chegasse já o hábito da ausência se instalara, aquela névoa de lembrança permanecendo na penumbra do quarto, o cheiro das roupas quase perceptível.

No instante em que ele não fosse, já ela tinha deixado de ser, e continuaria num limbo de permanência suspensa até, como ele, se anular.


(fotografia de Pantelis Cherouvim: lonliness)

Obscurantismo


A luta contra o terrorismo não pode justificar tudo. São horríveis as mortes de civis, libaneses, palestinianos e israelitas.

Reconheço a necessidade do estado de Israel se defender contra os seus vizinhos que o não reconhecem como tal, imbuídos de fé, transformando diferenças políticas em guerras santas. A atitude de Israel tem levado ao extremar de posições no mundo árabe, nas próprias populações que, em eleições, colocam no poder grupos radicais que defendem o terrorismo como luta legítima pelo poder.

Mas notícias destas não ajudam o estado de espírito dos países ocidentais, no sentido de obrigar Israel a um cessar-fogo para negociações políticas. Aqui não há lugar à diplomacia nem à razoabilidade. É o fanatismo e o obscurantismo que apelam a choques civilizacionais. As declarações do Ayatollah Ali Khamenei são inaceitáveis e fazem perder a esperança na paz.

Bons rapazes

É difícil comentar uma decisão destas.

As crianças, apesar de crianças, são seres humanos. Mesmo que maltratadas pelas condições de vida em que nasceram e viveram não podem deixar de ser responsabilizadas pelos seus actos.

Torturar e matar não deixa de ser torturar e matar pelo facto desses actos terem sido praticados por adolescentes. Viram sangue, ouviram gritos e súplicas, sabiam que estavam a fazer MAL.

Reduzir tudo isto a uma brincadeira de mau gosto é enviar uma mensagem, a elas e a todas as crianças, de que tudo tem desculpa, de que os actos próprios podem sempre ser atribuídos a factores exteriores, que não há opções individuais ou livre arbítrio.

E se não fosse um homem com mamas haveria tanta compreensão pelos agressores?

Embrulhada

Pois é. A Ministra da Educação meteu-se numa boa embrulhada. Esperemos a decisão a seguir. Quanto à recomendação de aumentar as vagas no ensino superior, para colmatar injustiças, não percebo como. Quantas? Quais? Em que cursos?

Espera-se da Ministra sensatez, e que se rodeie de colaboradores que a ajudem a ultrapassar o imbróglio.

O precedente criado é muito perigoso. As medidas excepcionais justificam-se, mas suspeito que, a partir de agora, vão passar a existir muitas excepções, com exigências de medidas ainda mais excepcionais, entrando-se numa espiral sem fim à vista.

A propósito, será que os resultados vão ser assim tão diferentes?

01 agosto 2006

Corporativismo


A Inspecção Geral de Saúde (IGS) está a conduzir uma investigação aos médicos que mais prescrevem, no sentido de despistar relações perigosas entre a prescrição medicamentosa e o financiamento de viagens aos médicos prescritores.

Levantou-se imediatamente o Bastonário da Ordem dos Médicos (OM) classificando esta investigação de “perigosa”, “inaceitável” e “difamatória”.

Em primeiro lugar parece-me que a IGS tem o direito e o dever de inspeccionar tudo o que, no seu entender, puser em causa a correcta gestão de dinheiros públicos, assim como investigar eventuais casos de corrupção activa e passiva.

Em segundo lugar, se o problema a investigar é a relação entre a prescrição a mais e os financiamentos por laboratórios farmacêuticos aos médicos, não me parece que seja mais eficaz se for por método aleatório, conforme sugere o Bastonário da OM. Por outro lado, e concordo plenamente que a adequação do receituário ao problema de saúde deve ser determinada por peritos médicos, com certeza que a IGS poderá consultar os peritos sempre que isso for necessário. Para além disso, a OM e os tribunais existem para denunciar medidas e actuações ilegais, procedendo em conformidade.

Assim, eu gostaria de ter ouvido o Bastonário da OM elogiar esta investigação, demarcando-se de todos os médicos prevaricadores, salvaguardando e defendendo a honra e a dignidade daqueles que, todos os dias e nem sempre nas melhores condições, atendem os doentes com o seu melhor saber e profissionalismo.

Ou será que o Bastonário não ouve os rumores sobre médicos que prescrevem a mais? Ou sobre turismo médico? Ou sobre relações perigosas entre indústria farmacêutica e médicos?

Há dois pontos em que concordo com o Bastonário: é tão mau prescrever a menos como prescrever a mais; a escolha deste timing para noticiar a investigação (que está a decorrer desde Março) faz parte duma estratégia global do governo, em que se fazem sair notícias contra uma determinada classe profissional, preparando terreno para um grupo de medidas difíceis, que dizem respeito a essa mesma classe. Foi assim com os juízes, com os professores, adivinha-se que assim será também com os médicos.

Parece-me pouco ético que o faça. O que interessa é que a OM não se pode deixar arrastar para uma posição de confronto corporativista, fechando-se e negando o óbvio. Os médicos precisam de quem os defenda verdadeiramente, exaltando a honra e a dignidade de quem trabalha, realçando o muito de muito bom que há na profissão médica e não enjeitando iniciativas destinadas a identificar e isolar o pouco de mau que também há.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...