08 maio 2006

Ruído


Cansam-me estas tardes de ruído,
muita cor muita fúria muito pó,
sem goles de imensidão
nem relvas murmurantes de prazer.

Voo para longe para ti
as tuas mãos como um rio.
Espero a sombra da tua voz
o antegozo de te ver.


(pintura de Sofie Siegmann: sounds)

07 maio 2006

Grávidas de Barcelos


Desde ontem que os noticiários avisam que as “grávidas de Barcelos” se vinham manifestar em Lisboa, contra o fecho da maternidade.

Hoje fala-se de 10 000 habitantes de Barcelos a manifestarem-se.

Tenho curiosidade em saber: quantas são as grávidas? Estamos a falar de 123 831 habitantes, com cerca de 18% com idade inferior a 15 anos.

O encerramento de maternidades obedece a imperativos técnicos que se prendem, entre outros critérios, com o número de partos/ano, porque há falta de obstetras para fazerem os partos e, principalmente, porque não há número suficiente de parturientes que assegurem aos obstetras uma experiência suficiente para que os partos sejam feitos de uma forma tecnicamente perfeita ou, pelo menos, aceitável.

Este problema não se resolve colocando mais obstetras e parteiras nessas maternidades, mesmo pagos a peso de ouro. A acentuada redução da população em determinados locais do país é uma realidade. A desertificação das regiões do interior é um dos factores mais importantes na diminuição do número de partos por dia. E é a falta de soluções de emprego que leva à desertificação.

Problema insolúvel? Não sei. Mas a demagogia de quem pretende que estas medidas são apenas economicistas é prejudicial precisamente a quem permanece em Barcelos, ou em terras com problemas semelhantes.

Fala de filha


Pelo rigor e exigência, pela companhia e compreensão, pelos telefonemas e cafés saboreados, pelo proteccionismo, pela partilha dos dias e da vida quotidiana, pela sabedoria, pela presença, pelo exemplo e pelo amor incondicional, acima de tudo e de todos, principalmente de ti mesma, eu te agradeço, mãe.


(pintura de Lorna Teixeira: circle of life)

Samuel Beckett

É altura de comprarem bilhetes. Não se atrasem pois podem chegar tarde de mais. Não se pode perder nem um espectáculo do Teatro Meridional!

Fala de mãe

Tenho os melhores filhos do mundo.

Quando bebés iam para a cama à 9 da noite e raramente precisaram que lá estivesse para os adormecer. Foram alimentados a biberão, por mim, pelo pai, pelas senhoras que ficavam com eles em casa, pelas avós, enfim, por quem fosse preciso.

Choravam, riam, sujavam-se e brincavam como todas as outras crianças. Raramente nos fizeram passar noites em claro. Acordavam todos os dias muito cedo e nós com eles. Éramos os primeiros na praia e os primeiros nos restaurantes.

Adaptaram-se bem ao infantário e à escola. Não gostaram muito da natação mas nadaram até ao 5º ano. Portaram-se sempre bem nas aulas, enfrentando as reprimendas dos professores quando tal acontecia. Sempre fizeram os trabalhos de casa sozinhos, pedindo ocasionalmente esclarecimentos. Sempre trataram eles próprios das mochilas e dos fatos de treino. Sempre gostaram de se vestir, calçar sapatos e tomar banho sozinhos.

Sempre acompanharam as nossas refeições, do princípio ao fim, sem deitarem comida no copo de água, sem se levantarem 30 vezes e sem berrarem, como mal educados, que se queriam ir embora. Sempre cumprimentaram as pessoas crescidas e tentaram receber os filhos das ditas, mesmo sem os conhecerem.

Sempre comemoraram os seus anos em casa, com alguns amigos, excepto uma vez em que me armei em mãe moderna (jurando para nunca mais, após 3 horas de tentar domesticar 20 selvagens destruidores, aos urros).

Sempre perceberam que cada um tem a sua individualidade e direito a privacidade. Sempre entenderam que podem contar comigo e com o pai, que precisamos de tempo para nós, como eles. Nunca lhes revistei as mochilas, os cadernos, os amigos. Nunca precisei de lhes confiscar telemóveis. Entram e saem, organizam a sua vida de acordo com regras universais, lógicas para todos.

Zangamo-nos muitas vezes, porque é assim que deve ser, cada um defendendo acaloradamente os seus pontos de vista e os seus territórios. Vivemos uma democracia musculada em que os pais têm a palavra final. São bons estudantes e bons conversadores. Têm um espírito crítico acutilante e um humor imparável. Cumprem as tarefas domésticas que lhes estão atribuídas sempre a resmungar.

Agora tratam-me com a condescendência e o carinho com que se tratam as peças de porcelana, ligeiramente periclitantes e a ficar fora de prazo. Dizem que sou peculiar. Respeitam-me.

Adoro os meus filhos, que são os melhores filhos do mundo. E acho que eles também gostam de mim.


(pintura de Almada Negreiros)

06 maio 2006

Tratem-no

Estranhei a nomeação de Freitas do Amaral para Ministro dos Negócios Estrangeiros pensando, como muitos outros, que podia fazer sombra a José Sócrates. Nunca acreditei que fosse um trampolim para se candidatar à Presidência da República.

Embora ideologicamente me encontre num campo bastante diferente do de Freitas do Amaral, sempre lhe admirei a coragem e o desassombro, achando-o ponderado e sensato, dono de uma cultura e de um savoir faire de causar inveja.

É com espanto crescente que tenho ouvido as suas intervenções, nomeadamente no caso das caricaturas, que tenho lido as suas ausências em reuniões importantes e as suas justificações descabidas. Para além das declarações e acções, preocupo-me genuinamente com o tom da sua voz e com a abertura inusitada dos seus olhos, que lhe dão um ar de perplexidade e de amedrontamento.

Será que Freitas do Amaral está fisicamente bem? Não terá alguma desorganização humoral ou hormonal? Em vez de tentarmos vislumbrar motivações políticas obtusas e obscuras não deveríamos propor um exame médico detalhado?

Estou sinceramente preocupada!

Pensar é viver

Os livros de auto ajuda, como os comentadores dos discursos, os analistas políticos como Marcelo Rebelo de Sousa e outros, estão na moda e são o espelho da sociedade actual.

É muito mais fácil ler ou ouvir o que devemos fazer e pensar em determinadas circunstâncias, do que utilizar a nossa própria experiência, personalidade e massa cinzenta, tentando discernir o que é melhor para nós próprios, que não o é forçosamente para outros.

Tipificam-se atitudes e opiniões, emoções e respostas, massificam-se vidas e estruturam-se comportamentos. Desde a forma como nos devemos relacionar com os pais, os filhos, os maridos, como encaramos a violência urbana, as birras das crianças ou a incontinência urinária, tudo está explicado em livrinhos bem intencionados e bem publicitados. A padronização de muitos aspectos da vida tem adormecido a capacidade de pensar com a própria cabeça.

Talvez escreva um livro de auto ajuda subordinado ao lema: pensar é viver!

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...