05 maio 2006

Dias de cinza


Dias de cinza,
grãos de areia
finos, frios.

Dias de mantos
diáfanos, escuros.

Dias de sono
de abandono.


(fotografia de Craig Murray)

Faltas

Não percebo muito bem a lógica do aviso das faltas às aulas. Segundo me parece as faltas deverão ser sempre excepcionais. Se os professores adoecem, não podem saber com antecedência que vão estar doentes.

Se as faltas são devidas a congressos, cursos de formação ou visitas de estudo, não me passa pela cabeça que os professores, individualmente ou em grupo, não acautelem os tempos de aulas com outras actividades ou com outros professores.

Para que servem os grupos por disciplina, os Delegados de Grupo, ou o Conselho Directivo?

A febre legisladora e controladora do governo não resolve nem pode substituir a responsabilidade dos órgãos dirigentes de uma escola, hospital, empresa ou assembleia (da República também). Todos devem assumir as responsabilidades que lhes cabem e ser responsabilizados.

Não se podem criar polícias nem inspectores individuais para cada situação. O que se pode e, quanto a mim, se deve é pedir contas aos responsáveis pelas más prestações, ou pelas faltas dos seus colaboradores, para que eles próprios possam exigir e responsabilizar directamente os indivíduos.

Marca Portugal

Ontem andei todo o santo dia a pensar e hoje continuei. A TSF, como é sua obrigação matinal, acordou-me ontem com uma maravilhosa sondagem em que os portugueses estavam tristes e desiludidos com o seu país, concluindo que se Portugal fosse uma marca, estava condenada a desaparecer. Desafiava depois os portugueses optimistas (presumivelmente os que não tinham colaborado na sondagem) para, no fórum TSF, declamarem as razões para se gostar do país.

Não tive oportunidade para ouvir o Fórum, mas não deixei de me considerar optimista e tenho andado a pensar nas características que podem contribuir para ter orgulho no meu país.

Continuo a pensar mas já encontrei duas boas razões: somos muito imaginativos nas reportagens e nas manchetes informativas e temos um grande sentido de humor!

02 maio 2006

Amostra de Frida



Um dia de férias desgarrado do resto sabe bem, quebra o ritmo e aproveita-se ao segundo.

Assim sendo resolvi finalmente ir ver a exposição de Frida Kahlo. Saí de lá bastante desiludida, não com a Frida Kahlo mas com a exposição.

A exposição está dividida em 7 grupos: infância e juventude, 4 quadros (entro os quais “o autocarro” de 1929) e 3 desenhos; paixão por Diego Rivera, 2 quadros (“Hospital Henry Ford” de 1932 e “umas quantas facaditas” de 1935); casa azul, 10 quadros (“a minha ama e eu” de 1937, “a coluna partida” de 1944, “auto-retrato com macaco” de 1945); diário, 3 retratos; altares dos mortos; trajes de Tehuana; um documentário sobre a pintora, com testemunhos de sobrinhas, escritores e críticos de arte. Nos primeiros quatro grupos estão expostas fotografias de Frida Kahlo, feitas por inúmeras pessoas, entre as quais o pai e Diego Rivera.

A iluminação é muito fraca, os pequenos textos de introdução a cada parte da exposição e aos quadros, desenhos e pinturas lêem-se mal, porque a cor das paredes não faz contraste suficiente com a cor das letras. Há poucos quadros, poucos desenhos, pouco de tudo. Dá a sensação de que é apenas uma pequena amostra de uma verdadeira exposição, se calhar o pouco a que tivemos direito. Senti-me defraudada.

O documentário, pelo contrário, é interessante e esclarecedor. Dá-nos uma ideia de que o fenómeno Frida Kahlo é recente, que foi criado um comércio à volta da história revista, aumentada e retocada da pintora, carregando nas cores do sofrimento, da boémia com aventuras bissexuais, esquecendo-se o principal, a obra.

Não tenho conhecimentos de pintura ou de história de arte para discorrer sobre a técnica e / ou o valor da pintura de Frida Kahlo. Mas quem olha para os quadros sente uma força e uma imaginação prodigiosas. Naquela época deve ter sido inovador aquele tipo de imagética, de temas, de figuração da dor e da ansiedade, do corpo como altar.

Como apreciadora de pintura gosto das formas, das cores, dos mortos e do sangue, dos pássaros e do macaco, das camas, do sol e da lua chorosa. É uma pintura incómoda, atractiva e admirável.

Quanto à própria Frida era com certeza uma mulher extraordinária porque diferente, porque lutadora, romântica, amante e amadora da vida, da beleza, dela própria, da dor, dos homens e das mulheres, uma divulgadora orgulhosa da cultura do seu país.

(Frida Kahlo: a coluna partida – 1944)

01 maio 2006

Primeiro de Maio

Sou totalmente avessa aos aglomerados de causas, opiniões, expressões literárias, músicas na moda, tudo o que é a cultura do unânime.

É até preconceito não me apetecer ler os livros que toda a gente cita, ver os filmes que todos já viram, ir à praia quando luz o primeiro raio de sol, comprar sandálias tipo andas, pintar o cabelo de louro com madeixas vermelhas, usar as saias-hippies-pós-modernas-com-flores-e-túnicas deste verão.

Por isso hoje levantei-me cedo, apitei furiosamente ao carro do vizinho que se atravessava atrás do meu, li 2 jornais, tomei café 3 vezes consecutivas (o último já foi descafeinado) com 5 pessoas diferentes, enviei 3 e-mails, fartei-me de pecar na Internet e vou trabalhar durante a tarde.

Hoje estou bem, muito bem. Hoje sinto-me feliz.

(David Keen: New World)

30 abril 2006

Na voz de Amália

Gaivota



Se uma gaivota viesse

trazer-me o céu de Lisboa

no desenho que fizesse,

nesse céu onde o olhar

é uma asa que não voa,

esmorece e cai no mar.



Que perfeito coração

no meu peito bateria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde cabia

perfeito o meu coração.



Se um português marinheiro,

dos sete mares andarilho,

fosse quem sabe o primeiro

a contar-me o que inventasse,

se um olhar de novo brilho

no meu olhar se enlaçasse.



Que perfeito coração

no meu peito bateria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde cabia

perfeito o meu coração.



Se ao dizer adeus à vida

as aves todas do céu,

me dessem na despedida

o teu olhar derradeiro,

esse olhar que era só teu,

amor que foste o primeiro.



Que perfeito coração

morreria no meu peito morreria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde perfeito

bateu o meu coração.


 





(poema de Alexandre O'Neill; pintura de Joaquim Rodrigues: fado)

29 abril 2006

Pseudo-anarco-esquerdista disparatada

Bem sei que é irracional, imaturo, se calhar totalmente infundado, e pseudo-anarco-esquerdista disparatado, mas não deixei de sorrir escarninhamente ao ler este artigo sobre as remunerações dos administradores do BCP, saído no “The Wall Street Journal” de ontem, onde se afirma que “estão a encher os bolsos à custa dos accionistas”.

A golbalização é irreversível, o mundo mudou, temos que nos adaptar às novas ordens mundiais económica, política e social, temos que prescindir dos privilégios que adquirimos nestes últimos 50 anos. Todos já conhecemos esta retórica e, em maior ou menor grau, todos concordamos com ela, é inevitável.

Mas há um sentimento incómodo de que qualquer coisa está virada do avesso. Num país em crise há tanto tempo, em que não aparecem sinais de melhoria, mesmo com políticas de austeridade que, muitos clamam, são insuficientes, muito provavelmente com razão, não deixa de fazer eco na lógica das coisas simples a reflexão de Rui Tavares, no "Público de hoje: “Socorro: somos todos uns privilegiados - Um dos aspectos mais proeminentes do discurso político contemporâneo é que as castas dominantes, que não perfazem juntas mais do que um por cento da população, têm por hábito chamar privilegiados à maior parte dos restantes 99 por cento”.

Populismo? Pois, pois é, mas desconfortavelmente a fazer sentido.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...