11 abril 2006

Untitled


Há uma voz antiga atrás da minha
e outra mão se prende na cortina

e afasta os reposteiros dessa luz
que ao puro esplendor logo conduz.

Se a voz que aqui retenho se faz presa
da própria escuridão que viu acesa,

é que outra voz se perde sem saber
que a minha voz a busca para morrer.


(poema de Luís Filipe de Castro Mendes; pintura de Madeline Garrett: Desertscape V - Hidden)

... e nós por cá...

A Itália está cada vez mais italiana, dramática e excessiva. Berlusconi está cada vez mais igual a ele próprio, inexcedível.

Prometem-se grandes contratempos e instabilidade. Tudo está periclitante e explosivo.

Em França, Villepin perdeu para Sarkozy. Chirac aprovou a lei, mas com algumas alteraçõezitas…

Nós por cá… Parece que o documento sobre o estudo do aumento da produtividade com a redução das férias judiciais vai ser apresentado.

Eu sou como S. Tomé.

09 abril 2006

Da sombra


Da sombra que passa
em momentos de luz
a pele como a taça
do mel que seduz

Da sombra que somos
nos dias de mar
momento em que fomos
capazes de amar

Da sombra que dou
quando olhas assim
para quem te guardou
nas sobras de mim


Há (re)encontros que nos espantam e comovem. Um buraco na sombra para nos aconchegarmos das luzes asfixiantes e da vertigem.

(fotografia de Sérgio Brunetto)

A meio


meia cortina
meio aberta a mão
meia metade de pão
meia conversa

meia sesta despida
meio nua tua ausência
meio desejo dormindo
meio sono escondido

meio a medo estendo
meio sorriso devagar
meia perna encosto
meio a despertar

(pintura de Martha Hollingsworth: Ivy)

Cenas do quotidiano (1)



Já vai longa a viagem. No CD tocam os Supertramp. Lá atrás o T:
- Quem é o vocalista deste grupo?
O pai de T:
- São dois…
- (inclinando-se para a frente) - Van Dóis?
- Não, são dois!
- (as mãos em concha, atrás das orelhas) - Sam Dóis??
O irmão de T, de voz arrastada, gazadora e trovejante:
- Não, é Van Der Dóis!!!
- (cara franzida e incrédula) - O quêê?!?!
O pai, a mãe e o irmão de T, em desespero ensurdecedor:
- Nãããooo!! São DOIS!!! São DOIS vocalistas!!
- (recostando-se no assento) - Hahh, são dois!

Evangelho segundo Judas


Na continuação do estudo de antigos manuscritos sobre os primeiros anos do cristianismo, evangelhos não canónicos, hereges ou gnósticos, o Evangelho segundo Judas será um acontecimento de grande importância, não só cultural mas teológica.

O facto de Judas não ser um traidor mas o discípulo predilecto de Jesus, de tal forma que é ele a quem Jesus confia o papel confirmador da previsão messiânica (com a sua morte) e sendo a ressurreição espiritual, ao contrário da carnal, a experiência inscrita nos textos gnósticos, é uma diferença substancial à leitura canónica da ressurreição de Jesus e da morte de Judas, consumido pelo remorso.

Por outro lado, Judas traidor e assassino de Jesus foi utilizado como estandarte do anti-semitismo, interpretação tolerada pelos responsáveis cristãos, com implicações macabras.

Considero interessantíssimos os debates sobre a pessoa de Jesus, na sua dimensão histórica e religiosa, fora da visão limitativa e redutora do catolicismo. Ao contrário de Frei Bento Domingues ("Um partido do Papa?" - Público de hoje), penso que Jesus teve um importante papel político e que a sua intervenção cívica, integrada na religião judaica, foi vista como uma perigosa promessa de revolução social e política, como tantas houve naqueles tempos.

Violência e ignorância

Livros queimados, escolas destruídas, os templos do saber profanados.

Isto é, para mim, a verdadeira e mais perigosa guerra religiosa.

Não há causa, reivindicação ou direito que justifique a glória da ignorância e da violência, ou da violência e da ignorância, porque uma implica a outra, sem ordem definida.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...