03 fevereiro 2006

Em nome de Deus


A onda de violência que varre os fundamentalistas islâmicos, relativamente aos “cartoons” sobre Maomé, é absolutamente inqualificável, assim como o é qualquer acto de violência purificadora feita em nome de Deus, seja ele qual for.

Quem não gosta dos “cartoons” não compra o jornal, não liga a televisão. Se é uma ofensa retratar Maomé como incitador ao terrorismo, também me parece ofensivo o silêncio desses guardiães de Alá, quando há bombistas suicidas que matam indiscriminadamente, ou quando raptam pessoas para espalhar o terror.

Como reagiriam os cidadãos que agora incendeiam bandeiras da Dinamarca e que violentamente se manifestam às portas das embaixadas, se houvesse acções semelhantes na altura dos atentados de Nova Iorque, Madrid e Londres?

A liberdade é um valor em si, para os crentes e para os não crentes. Nunca ninguém se preocupou em avaliar a ofensa de um não crente quando ouve uma locutora de telejornal despedir-se “até amanhã, se Deus quiser…”. A crítica e o humor são corrosivos. Só tem medo desta conspurcação espiritual, por pensamentos e actos, quem se omite a pensar.

02 fevereiro 2006

Amar


Quero-te assim,
devagarinho,
dentro do mundo que eu sou.
Às vezes água,
às vezes vinho,
a exacta bebida que o amor criou.


Os/as homossexuais (mesmo querendo) não se podem casar. Mas os heterossexuais podem, se quiserem. Se não quiserem juntam-se, amancebam-se, amigam-se, juntam os trapinhos, unem-se, de facto. Mas o casamento está ali ao alcance da mão, ou mesmo ao alcance dos dedos.

Então porquê transformar as uniões de facto (estou sempre a falar relativamente aos heterossexuais) em casamento sem casamento? Não percebo.

Os/as homossexuais, de facto, só se podem juntar, unindo-se mesmo que não seja nessa união de facto. E são apelidados de lésbicas e "gays". Também não percebo. Para mim são só pessoas que, de facto, não podem (mesmo que queiram) casar-se. Para mim não é urgente. Para eles/elas pode, de facto, sê-lo.

Confuso? Não. O que é simples não confunde. Amar é simples. Saber olhar o amor, nem sempre.

(pintura de Kyung Hwa Kim)

Segredos

Afinal não foi o Bloco de Esquerda (penso eu!), mas hoje lá acordámos com outra bomba jornalística: uma secreta mais secreta que as secretas, chefiada por um secreto magistrado, no meio de grande e tenebroso secretismo, sob as ordens do ainda mais tenebroso e menos secreto (e muito menos discreto) José Sócrates!

Claro que há sempre algum segredo contado à orelha de algum indiscreto jornalista, por motivos muito secretos, para ser dito com grande alarido aos ouvidos dos incautos e estremunhados ouvintes.

Será verdade? Será mentira?

É segredo!

01 fevereiro 2006

Casar


Casar, contrair matrimónio significa, segundo os dicionários que consultei, a união contratual entre duas pessoas de sexos diferentes, para constituir família.

É claro que o conceito de família se foi alterando ao longo dos tempos, e também o conceito de que o casamento tem que ser obrigatoriamente entre pessoas de sexos diferentes, tem vindo a ser modificado.

Hoje em dia, na sociedade ocidental, a palavra família tem múltiplos significados quanto ao número e quanto ao sexo dos seus fundadores e intervenientes. Por isso é natural que as palavras casamento e matrimónio venham a adquirir tantos significados quantas as variedades e tipos de família existentes.

Modificar a lei para que esse contrato possa ser celebrado entre pessoas do mesmo sexo, é uma hipótese cada vez mais provável, tal como aconteceu noutros países da Europa.

Mas fazer desse tópico um facto político importante, todo o dia badalado pela nossa comunicação social, parece-me totalmente descabido e resultante de uma completa instrumentalização do assunto por algumas pessoas, nomeadamente pelo Bloco de Esquerda (BE).

Não me tenho apercebido de quaisquer crispação ou reivindicação da sociedade em geral em relação aos direitos dos homossexuais. O que se passou hoje, com a ida de um casal de mulheres a uma conservatória, para se casarem, por sinal acompanhadas por um advogado (que previdentes!), por sinal com direito a notícias, de meia em meia hora, e a tema de fórum, na TSF e, (que coincidência!) com declarações de Fernando Rosas relativamente à premência da iniciativa legislativa do BE, por causa deste grande "problema" que é preciso "resolver"!

Como perdeu protagonismo e importância, nomeadamente por causa dos resultados das presidenciais, o BE tem que agitar-se muito, bradar muito, encontrar muitas causas da "esquerda plural", "fracturantes" da sociedade, para repararem nele.

Sou totalmente contra a marginalização de seja de quem for. Francamente, parece-me que este é um ínfimo problema ao pé de outros que deveriam ser resolvidos, esees sim, rapidamente, como a questão da despenalização do aborto, por exemplo.

Talvez amanhã o BE escolha outro importante facto político para o ouvirmos durante todo o dia.

(pintura de Tamara de Lempicka)

30 janeiro 2006

Untitled


As letras arrumadas
descodificam
a solidão
na ausência de sentidos.
Movo os olhos
e recebo a luz.
Esqueço as mãos
descomprometidas
do mundo.

(pintura de Mary Ann Guliov)

29 janeiro 2006

Untitled


O céu ficou silencioso e de olhos baixos,
Os pássaros calaram todos os seus cantos;
O vento emudeceu; a música das águas acabou
De repente; o murmúrio da floresta
Morreu lentamente no coração da floresta.
Na margem deserta do rio tranquilo,
Nas sombras do anoitecer desceu silenciosamente
O horizonte sobre a terra muda.
Nesse momento no silencioso e solitário alpendre
Beijámo-nos pela primeira vez.
Nesse momento exacto, ao longe e perto
Repicaram os sinos e soaram os búzios
Nos templos dos deuses apelando ao culto.
Um estremecimento percorreu o infinito mundo das estrelas
E os nossos olhos encheram-se de lágrimas.

(poema de Rabindranath Tagore, tradução de José Agostinho Baptista; pintura de Sujata Bajaj)

Neva



Há cerca de 30 anos que aqui vivo. Hoje, pela primeira vez, está a nevar. Não consigo tirar os olhos da janela, a ver os flocos brancos a precipitarem-se para o chão, desfazendo-se em água.

Lá fora, as pessoas puxam dos telemóveis para avisar amigos e familiares. Subitamente, estamos contentes.

(foto de Andy Grider)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...