25 abril 2021

Avenida

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Maria Helena Vieira da Silva


 


Vou florir na avenida


De cravos brancos ao peito


Que o encarnado da vida


Trago de vestido inteiro


 


Vou cantar na avenida


Os sonhos da liberdade


Que a canção da minha vida


Vai gritando a realidade


 


Vou correr pela avenida


Atrás da felicidade


Que esta profunda corrida


Nunca passa da metade


 


Vou marchar na avenida


Com bandeiras sem idade


Que não me dou por vencida


Na manhã da eternidade


 

Manhã da madrugada inaugural


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Manhã da madrugada inaugural

De um tempo claro liso branco

De uma nova e luminosa vida

Ainda que dorida

Ainda que sofrida

Bem vinda

Liberdade.

11 abril 2021

Epigrama

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Traições

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Só agora começou


 


Atraiçoada é exactamente o sentimento que define o que, durante algum tempo, senti em relação a José Sócrates.


Fui eleitora de Sócrates para Primeiro-ministro nas duas eleições em que ganhou, primeiro em maioria absoluta e depois em relativa. Defendi as políticas de saúde e de educação dos seus governos, as opções estratégicas pelas energias renováveis, a aposta na literacia digital e nas tecnologias de informação. Ainda hoje defendo tudo isto.


Indignei-me com as manipulações políticas, as falsas acusações, as fugas de informação, a inacreditável forma como foi preso em directo. Tudo o que escrevi sobre o assunto, mantenho.


No entanto foram as suas palavras, as suas justificações, as suas alegações e as suas mentiras que me deixaram boquiaberta, que me deixaram indignada de novo, mas com a minha própria ingenuidade. Como me foi possível, a mim e a tantos outros, sermos tão redondamente enganados pela sua personalidade? É claro que fiz e faço um julgamento moral da sua pessoa, do seu carácter, e da sua falta de vergonha para afirmar que foi afirmando.


E por isso, se calhar como tantos outros, me senti atraiçoada naquilo que, para mim, era uma questão de honra, de probidade de quem nos governa. Não é preciso santidade nem virtudes robóticas e enganosas. Nunca confiaria em alguém sem mácula nem vício, porque as pessoas são uma mescla de tudo e tudo é necessário para se ser inteiro. Mas afirmar que se sente atraiçoado pelo partido parece-me uma tal forma de alheamento da realidade, de desconhecimento da sua própria pessoa, para não dizer de desfaçatez e falta de vergonha, que me custa a entender.


Não é fácil admitir perante nós próprios as nossas fraquezas e defeitos, as nossas ingenuidades e faltas de sagacidade. Mas não é possível fingir que as somas em dinheiro vivo trocadas entre Sócrates e o motorista, as justificações sempre diferentes da proveniência do dinheiro, primeiro da mãe, depois do amigo, o facto de guardar obras de arte em casa dos empregados, enfim, tantos e tão profusos disparates debitados ao longo destes anos que a ninguém convencem.


A Justiça tem o seu papel e ninguém deve ser condenado em praça pública. O que se passou e passa no caso do ex-Primeiro-ministro é um susto para qualquer cidadão. Mas não podemos fechar os olhos e os ouvidos ao que o próprio nos ofereceu e oferece. E não é bonito. Não são estas as características que desejo para alguém que nos represente e governe.

10 abril 2021

Justiça

Ao fim de 7 anos de prisão em directo, fugas de informação, escutas e julgamento na praça pública, o Juiz Ivo Rosa destroçou as acusações do Ministério Público, muitas delas já prescritas aquando da acusação. Culpado ou inocente, ninguém merece que isto lhe possa acontecer.


É tudo muito mau, seja qual for o ângulo pelo qual se tente olhar.


Nem José Sócrates e os outros acusados saem ilibados dos crimes de corrupção, nem o Ministério Público sai ilibado de incompetência. Os populismos têm uma época cheia, destilando o ódio aos políticos, aos magistrados, aos juízes, a tudo e a todos.


Ninguém se pode sentir seguro com uma justiça que funciona desta forma. A democracia está mais frágil.

02 abril 2021

Trava-línguas pascal

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Um dois três


quatro cinco seis


vamos ter festa


e não é de Reis.


Sete oito nove


dez onze doze


amêndoas não tenho


que ninguém as trouxe.


Treze catorze quinze


dezasseis dezassete dezoito


mas em vez delas


comprei um biscoito.


 


Dezanove vinte vinte e um


foge cabritinho


que já estás gordinho.


Vinte e dois vinte e três vinte e quatro


vamos embora


que está na hora.


 


Já se faz tarde


nesta vidinha


o que vai dar


não se adivinha.


Besunta a forma


espreme o limão


à nossa retoma


de escravidão.


Sopra no forno


limpa a colher


que não há retorno


vamo-nos benzer.


Cristo confina


confino também


a alma definha


e fica refém


do corpo dobrado


que não se sustém.


 


Recolhe a esmola


que sem vintém


ninguém se consola


e esta revolta


já não se detém.


 

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