15 novembro 2020

Das terapêuticas anti-virais (reload)

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Não vá o diabo tecê-las


Obrigatória a prevenção


Maleitas temporãs nem vê-las


Afastamo-las com estadão


 


Panelas grandes a preceito


Há que manter a tradição


Descascar ameixas a eito


Para dentro do panelão


 


Do gengibre são conhecidas


As vantagens medicinais


Qualidades enaltecidas


E uns poderes fenomenais


 


Da canela não é segredo


Que cura gosmas e terçolhos


Contra enfartamentos e medo


Elimina até os piolhos


 


Juntar açúcar bem medido


Do branco ou do amarelo


A ser mexido e remexido


Como se enrolasse um novelo


 


As quantias serão as certas


Para adoçar o paladar


Menos ou mais verás que acertas


No gosto que mais te agradar


 

Dos modernos e tecnológicos contos do Vigário

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Ontem coloquei umas coisas a vender no OLX. Mal tinha acabado de publicar os anúncios recebo um telefonema de alguém com voz e sotaque bastante rústicos, para me dizer que estava interessado em comprar as peças. Muito surpreendida com a rapidez da decisão de compra, confirmei a minha disposição de venda não tendo sido questionado o preço, o eventual estado mais ou menos depauperado. Prometeu-me o levantamento das ditas peças em minha casa, no dia seguinte. Mais disse que queria pagar de imediato por MB WAY.


Apesar da rapidez e da aparente facilidade de tão inédita transacção, perguntei porque não pagava depois de ter as peças. A resposta veio despachada, dizendo-me que só precisava dos números para completar o pagamento.


Depois de perguntar várias vezes a que números se referia lá acabou por dizer que era o PIN.


Transacção de imediato cancelada com interrupção abrupta da ligação, da minha parte, depois de perguntar se estava a brincar comigo.


Imediatamente a seguir telefona outro rústico, dizendo que se tinha enganado no número do telemóvel para o pagamento, e que precisava dos números do PIN. Aí já não achei tanta piada.


Depois de desligar o telemóvel vi que tinha um sms do serviço MB WAY, avisando-me que tinha havido 2 tentativas de uso do PIN que estava errado e que me restava uma tentativa.


Ou seja, os rústicos tinham usado o meu número de telemóvel para tentar pagamentos com MB WAY e usaram um qualquer PIN, tentando engodar-me para lho dar.


Depois de uma pesquisa pela internet com as palavras burlas e MB WAY, lá estava bem visível o esquema. Para quem não esteja familiarizado com o MB WAY, a rapidez e o despacho dos burlões podem baralhar os incautos e induzi-los a colaborar. Mesmo assim o pedido do PIN deve acender todas as campainhas e despertar todos os alarmes.


Mais um conto do Vigário. Esta nunca me tinha acontecido.

Respeito

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Vivemos tempos muito difíceis, a todos os níveis. A pandemia veio agravar e reacender problemas anteriores, colocando as populações perante dilemas impossíveis.


A cacofonia de opiniões, interpretações, descobertas reais ou fictícias, a disseminação da certeza de que todos sabemos de tudo e o fenómeno da proliferação de meios de manipulação, desde os tradicionais aos futuristas, transforma a decisão individual e colectiva numa tarefa hercúlea.


Por outro lado, a politização da pandemia vem baralhar ainda mais os cidadãos. Em vez de uma troca de informações e opiniões baseadas nas evidências científicas assistimos à divisão entre os bons e os maus, os certos e os errados, colando cada sector a uma área ideológica, o que é, por si só, a negação da evidência científica.


Acrescem as revoltas e incertezas quanto ao futuro, que se nos afigura triste e longínquo, o aumento das desigualdades, da pobreza, da marginalização dos mais fracos e indefesos e o crescer dos populismos e das tentações autoritárias. Trump é anterior a tudo isto, mas é bem o corolário da loucura instalada.


Por isso mesmo é preciso que tenhamos a noção daquilo que, apesar de tudo, mesmo com muitos erros e indecisões, mudanças de atitude e de orientações, nos é pedido. Vivemos numa democracia representativa e num Estado de Direito. Todas as decisões sobre confinamentos, recolheres obrigatórios, máscaras, etc., por muito penosas e discordantes das nossas próprias opiniões e (in)certezas, são tomadas pelos representantes das instituições que livremente elegemos, que mandatámos excatamente para estes fins.


Esta é uma crise global, que nos assusta e desafia a todos. Não nos devemos impedir de pensar e de partilhar as nossas opiniões e dúvidas, de debater as medidas uma a uma, de questionar e os poderes sobre as suas decisões e de os julgar, nas urnas. É assustador o espírito pidesco e de pensamento único que se está a impor nas nossas sociedades, apelidando todos os que não concordam com a linha oficial de negacionistas e divulgadores de fake news.


Mas nada disto deve diminuir a nossa vontade de fazer aquilo que está determinado pelo governo, assente nas promulgações do Presidente da República e pela aprovação do Parlamento. Nada disto deve colocar em causa a confiança na competência da DGS nem no SNS. Não há milagres e as mudanças nas orientações gerais são o espelho do que ainda há a descobrir sobre esta doença e este vírus, e do andamento das investigações internacionais que, comparando com outros momentos semelhantes, tem sido de uma rapidez notável.


Tenho imenso respeito por todos aqueles que, neste momento, têm nos ombros a tarefa de nos orientar. Imagino as infindáveis horas de reuniões, discussões, trocas de argumentos, indecisões, desespero, as insónias e as angústias antes de decisões com custos tão elevados.


Respeito por todos eles, um enorme respeito. Mesmo que não concorde, que me irrite, que me espante e me revolte, cumprirei as regras.

14 novembro 2020

Filhos

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Tommy Craggs


 


Crio filhos como quem cria árvores.
Deixo-as varridas pelas intempéries
descobrindo pássaros e revivendo almas
dos que às suas sombras se recolhem.
De vez em quando arrastam braços
e arrancam raízes numa ânsia de movimento.
Nesses dias aparo troncos com sangue e lágrimas
cavo mais fundo a terra para que
do meu corpo se equilibrem de novo.
Aí para sempre me deitarei um dia dormindo
entre o lodo e a eterna revolução de viver.

10 novembro 2020

Novembro

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Fracture


Jannick-Deslauriers


 


Em frente a mim sem espelho nem nuvens


apreendo o espaço que me rodeia


respiro as últimas gotas de passado


encerro o pó e a juventude.


Não sei das janelas do futuro


nem dos ninhos de águas revoltas


que me arrastavam pela vida.


Mas ainda me esperam as papoilas de Novembro


e o doce sabor da aventura.


 

05 novembro 2020

Quinze (15) anos

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Quiet Whisper


Miertje Skidmore


 


Quinze anos se passaram desde que comecei este blogue. Quinze anos em que muito aconteceu e mudou, no mundo e em mim.


Olho para a realidade actual e pergunto-me em que medida fiz parte destes quinze anos, como terei eu participado, moldado ou sido moldada pelas torrentes que nos assolam diariamente, umas mais subterrâneas, outras mais transparentes.


Definhei, particularmente na cor com que olho para o presente e para o futuro. Vou emudecendo, de espanto e incapacidade de processar este novo anormal em que nos tornámos como comunidade. As convicções nos alicerces da liberdade e da democracia rudemente postas à prova perante tão avassalador ataque aos valores da justiça, solidariedade, independência, sabedoria, competência, humildade, todos aqueles que nos habituámos a associar à sociedade do novo milénio, em que o acesso à informação e à cultura, aos mais elementares meios de dignificação da vida seriam, pelo menos, mais alargados, em que a igualdade fosse mais espalhada.


Na verdade parece tudo estar a ruir. A inacreditável hipótese de reeleição de alguém como Donald Trump para a Presidência dos EU é assustadora. A falta de respostas dos sistemas democráticos, o deslaçar das sociedades, o aumento das desigualdades, da pobreza, da xenofobia, do racismo, com o consequente aumento dos populistas, é perigoso e parece não ter forma de ser detido. Os partidos da esquerda não têm sido capazes de dar respostas aos problemas cada vez mais urgentes e os totalitarismos já não são apenas larvares.


Na minha vida também aconteceram coisas muito boas. A internet tem lados negros mas é uma ferramenta poderosíssima no conhecimento, na informação, na criação de laços entre pessoas que, de outra forma, nunca se encontrariam. Conheci pessoas fantásticas, embrenhei-me em grupos, discussões, trocas de experiências, algumas negativas mas a maioria positivas. Estou mais velha mas fiz coisas diferentes e que nunca teria pensado fazer, tanto a nível profissional como pessoal. Publiquei 4 livros de poesia, mudei duas vezes de local de trabalho, participei na organização de vários eventos científicos, ri muito e chorei muito, zanguei-me muito, esperei muito.


Apesar do desânimo, sei que é passageiro. Espero ainda muito, de todos, mas principalmente de mim. Vai-se fazendo tarde e começa a faltar o tempo.

02 novembro 2020

Do atraso das bruxas

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Afinal até as vassouras estão com problemas, provavelmente devido à pandemia. E hoje chegaram as bruxas e os bruxedos a minha casa.


Começou logo de manhã, mesmo de manhãzinha. Como tenho treinos a toda a hora e momento, que se alteram consoante as possibilidades e as disponibilidades do serviço, é perigoso tomar por certo que os horários não precisam de ser confirmados diariamente.


Sendo assim, lá fui confiada e pontualmente às 07:30 para o ginásio, não sem antes andar de trás para a frente à procura de uma máscara que, pelos vistos, desapareceu durante a noite. É claro que a PT, que NUNCA se atrasa nem NUNCA falta não estava. Algo me disse que deveria confirmar o treino no calendário do telemóvel (agora até para entrar no ginásio é preciso a app no telemóvel) e, de facto, confirmei que NÃO havia treino.


Regressei a casa sem sequer fazer 10 minutos de passadeira. Há que aproveitar para descansar as perninhas.


Mas a manifestação das forças ocultas foi forte e avassaladora no momento em que quis calçar uns sapatos, dos poucos que se tinham salvo após a razia das mudanças. Ao andar deixavam uma estranha pegada negra. Decidi que estavam sujos e, depois de esfregar as solas com bastante entusiasmo, tentei de novo. Andar andei, mas os sapatos foram-se despedindo da vida aos pedaços, desfazendo-se à medida que dava passos decididos pela casa. Alguém foi lesto a comparar-me a um dos monstros do Exterminador Implacável, que se ia destroçando à medida que se deslocava, deixando pedaços de pés e pernas para trás. De facto os sapatos eram velhos. Na realidade não me lembro mesmo quantos anos já teriam, mas podiam ter escolhido uma forma mais discreta e menos abrupta de me avisarem da sua senescência.


Enfim, vamos ver o que ainda me aguarda. Mas que o dia está azarado, está.

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