02 outubro 2016

A Cor Púrpura




 



Faz hoje 30 anos que me debulhei em lágrimas a ver A cor púrpura. A minha irmã sofria há 2 dias na maternidade e a criança nunca mais nascia. Eu, Interna de tenra idade, sem coragem nem personalidade para incomodar as Senhoras Doutoras de Obstetrícia, gente antipática e distante, que olhavam para mim como para uma mosca, chata e cansativa, entrava e saía com o coração cada vez mais apertado.



 



Estava muito calor. Nessa tarde finalmente decidiram-se pela cesariana. Arranjei forma de me manter junto às Neonatalogistas, as únicas criaturas que me olharam com simpatia, e vi um embrulho trazido a correr para a mesa de observação, em que se identificavam dois pesinhos brancos. A rapidez e a cara ansiosa das Neonatalogistas não pronunciavam nada de bom e eu nunca mais ouvia o choro da criança. Assisti à aspiração, às massagens daquele ínfimo ser, a contar os segundos e a saber o que era um Apgar de 0 ou de 5.



 



Não me lembro exactamente de quanto foi, mas senti que muita coisa poderia correr mal e que tínhamos muitos meses, senão anos, sem saber as sequelas dessa dificuldade em acordar para o mundo a gritar. No dia seguinte, depois de uma noite de grandes insónias e angústias, quando a fui visitar, passei pela minha irmã num corredor da enfermaria e nem a reconheci, de tal forma estava lenta, alquebrada, entorpecida.



 



Foi sempre uma criança mais despachada que todas as outras da família. Aprendeu a andar, a falar, a pensar muito bem e muito depressa. Ultrapassou todos os medos da mãe e da família com um sorriso despreocupado e decidido. Há 30 anos eu fundia-me com a minha irmã e sofria as dores de saber o quanto uns segundos podem significar no começo da vida de alguém. E esses 30 anos passaram depressa, e foram cheios de novidades, supresas e desafios, para mim, para a minha irmã e para aquele ser que é hoje uma linda e fantástica mulher.

 

A cor púrpura é um dos filmes da minha vida.

 

3 comentários:

  1. Cristina Loureiro Santos20:49

    Pois foi, quando pensamos como tudo se passou, quais as consequências que aquele Apgar 1 poderia ter tido...
    Ainda bem que ela foi sempre muito despachada em tudo!
    Adorei, simplesmente!
    Obrigada.
    <3

    ResponderEliminar
  2. Anónimo23:20

    Lindo Sofia.

    ResponderEliminar
  3. Estou sem palavras - fico cheia de saudades! Que bonito, obrigada tia :)

    ResponderEliminar

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...