09 janeiro 2016

Das decisões que se impõem

presidenciais 2016.png


 


Estive a reler tudo o que já escrevi sobre as eleições presidenciais. Lembro-me que foi nas vésperas de umas eleições presidenciais, as de 2006, que iniciei este blogue, em apoio à candidatura de Manuel Alegre. Dez anos já passaram. Eu estou muito diferente e o País também.


 


Tenho-me distanciado deste processo eleitoral porque não me sinto motivada a intervir publicamente. Por motivos que se prendem com a minha vida pessoal e profissional, mas também com o desinteresse e a frustração com o processo e com os candidatos. E também porque já percebi que as minhas reflexões e as minhas opiniões são, na maior parte das vezes, ultrapassadas pela realidade.


 


Surpreendi-me e continuo a surpreender-me com as evoluções políticas desde as últimas eleições legislativas. Considero esta solução governativa inédita com enormes riscos, mas que até agora tem funcionado (bem). Mantenho as minhas reservas e preocupações, nomeadamente em relação à Educação. Não tenho nada contra os exames nem avaliações, muito pelo contrário, há estudos e relatórios internacionais e nacionais que apontam para reforços dos mesmos, e as alterações a meio de anos lectivos não me parecem boas decisões. Noutras áreas, entre as quais a da Saúde, estou expectante e os sinais têm sido (muito) encorajadores e promissores. Ou seja, António Costa e os seus ministros estão a levar a sua avante, de forma diplomática, cumprindo o que prometeram. Mantenho as reservas e as expectativas. Torço para que corra muito bem.


 


Voltando às presidenciais, por muito que tente não consigo alhear-me totalmente. A proliferação de candidatos é sintomática da sensação de irrelevância que esta função atingiu, muito resultado da presidência de Cavaco Silva, mas também do próprio esvaziamento dos poderes presidenciais. Considero um erro porque por muito escasso que sejam os poderes eles podem ser decisivos em alturas decisivas.


 


Ouvi os debates entre Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa com Marcelo Rebelo de Sousa. Com Sampaio da Nóvoa, Marcelo Rebelo de Sousa foi agressivo, deselegante e desagradável; com Maria de Belém foi desagradável, agressivo e deselegante. O palanque do qual perorou durante décadas ao povo, criticando, gozando e dando notas a todos os protagonistas políticos, culturais, desportivos, etc., etc., porque de tudo ele falava, obliterou o facto que Daniel Oliveira realçou – nós não sabemos o que Marcelo Rebelo de Sousa pensa, apenas sabemos a classificação que deu à forma como os outros se comportaram. Neste momento Marcelo Rebelo de Sousa está a ser avaliado, gozado e criticado, estando as suas notas a descer vertiginosamente.


 


Por outro lado, ao tentar expor como handicap a ausência de passado político de Sampaio da Nóvoa esvaziou totalmente a hipótese constitucional de qualquer cidadão sem um pesado currículo político se poder candidatar a alcançar a Presidência da República. Da parte de Marcelo o profissionalismo dos agentes da política é algo que se critica em abstracto mas que se defende em concreto. Já para não falar da incrível defesa da contenção de despesas na campanha eleitoral, o que é a negação da igualdade de oportunidades a todos os cidadãos para poderem ser eleitos, o que é uma atitude antidemocrática. Além disso o descaramento é demasiado, visto que Marcelo Rebelo de Sousa teve uma campanha subsidiada pela comunicação social que durou décadas.


 


A prestação de Maria de Belém foi irrelevante, para não dizer triste. Aquela ideia de explorar as características pantomineiras de Marcelo é de uma menoridade atroz.


 


Resta Sampaio da Nóvoa. A contenção com que enfrentou o despautério de Marcelo foi de uma estoicidade assinalável. Nenhum dos candidatos é o meu candidato. Mas não me absterei de votar e penso que é mesmo muito importante que se vote. A 2ª volta é alcançável. Ter na Presidência uma pessoa como Marcelo Rebelo de Sousa, por muito inteligente, culto e brilhante que seja, é um perigo institucional porque ele é sinónimo de instabilidade. Sampaio da Nóvoa é uma incógnita, não tem carisma, é pouco mobilizador, não disse ainda nada de relevante, tem um discurso intelectualizado e redondo. Mas demitirmo-nos de escolher é ajudar a eleger quem nós não queremos de todo.


 


Sendo assim, na convicção de que é preferível alguém que me diz pouco a alguém que considero um perigo, votarei em Sampaio da Nóvoa.

3 comentários:

  1. Jaime Santos23:59

    Não vi, confesso, os debates. Mas tive oportunidade de ouvir Nóvoa aqui atrasado ao vivo, e considero-o correto, coerente e com dom de palavra. Ou seja, discordo de si. Vou votar nele na falta de um melhor candidato/a na área do PS, que para mim não seria Guterres, mas sim alguém como Elisa Ferreira ou Maria João Rodrigues, que têm um passado político relevante e também porque são mulheres, já é bem tempo de elegermos uma para a principal magistratura do País. Mas vou igualmente votar nele pelo perigo que representa a imaturidade de alguém como Marcelo Rebelo de Sousa, cuja única responsabilidade governativa, no tempo de Balsemão, é de triste memória. Desde então, tem-nos brindado com sucessivos atos falhados. É um homem inteligente e culto, mas é preciso ser-se muito mais do que isto para se ser um bom PR. O comportamento passado de alguém é normalmente indicativo do comportamento futuro e em relação a Marcelo esse comportamento não augura nada de bom...

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  2. Anónimo10:47

    BEM DE ACORDO COM O TEXTO DO ARTIGO.

    TAMBÉM VOTAREI SAMPAIO DA NÓVOA.

    CORDIAIS SAUDAÇÕES DEMOCRÁTICAS E SOCIALISTAS

    ACÁCIO LIMA

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