06 fevereiro 2015

Diluindo

 Andy_Goldsworthy.jpg


 Andy Goldsworthy


 


1.


Água quente muito quente pelo corpo


acordo dos vapores da noite. Angústias


e tristezas dormidas com calmantes pesadelos


mais claros à luz da manhã. Vou-me diluindo


e preparando para o dia músculos


mais relaxados e descontraídos a alma


lavada pelo menos por fora.


 


2.


A estrada atravessa o sol casas


isoladas com alguém solitário como solitárias


as faces fechadas que comigo se cruzam. Solidão


é uma das palavras que melhor conheço


que se me pegou à pele e que me torce


por dentro. Solidão no que penso no que decido


no que não digo.


 


3.


Sinto as mãos quando não são


apertadas sinto desnorte quando não sou


conduzida sinto que as palavras me endurecem


o sangue me interrompem o fluir do carinho


e do pensamento.


Será que penso ou que sinto?


Ou que sinto o que penso?


Ou que penso o que sinto?


 


4.


Respiro mais fundo antes de abrir


a porta e engulo o que tiver


que engolir. Mas nem sempre as lágrimas


se prendem ou a raiva se segura. Transborda


e espalha-se mole peganhenta e feia


como são todas as mesquinhas formas


que nos desintegram.


 


5.


E eu já não tenho mais gavetas para encher


de revolta nem tapetes para esconder


entulhos. Tudo se me baralha e vou eliminando


selectivamente bons e maus momentos como se tudo


fosse apenas uma linha basal


de cansaço e desesperança.

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