1.
Água quente muito quente pelo corpo
acordo dos vapores da noite. Angústias
e tristezas dormidas com calmantes pesadelos
mais claros à luz da manhã. Vou-me diluindo
e preparando para o dia músculos
mais relaxados e descontraídos a alma
lavada pelo menos por fora.
2.
A estrada atravessa o sol casas
isoladas com alguém solitário como solitárias
as faces fechadas que comigo se cruzam. Solidão
é uma das palavras que melhor conheço
que se me pegou à pele e que me torce
por dentro. Solidão no que penso no que decido
no que não digo.
3.
Sinto as mãos quando não são
apertadas sinto desnorte quando não sou
conduzida sinto que as palavras me endurecem
o sangue me interrompem o fluir do carinho
e do pensamento.
Será que penso ou que sinto?
Ou que sinto o que penso?
Ou que penso o que sinto?
4.
Respiro mais fundo antes de abrir
a porta e engulo o que tiver
que engolir. Mas nem sempre as lágrimas
se prendem ou a raiva se segura. Transborda
e espalha-se mole peganhenta e feia
como são todas as mesquinhas formas
que nos desintegram.
5.
E eu já não tenho mais gavetas para encher
de revolta nem tapetes para esconder
entulhos. Tudo se me baralha e vou eliminando
selectivamente bons e maus momentos como se tudo
fosse apenas uma linha basal
de cansaço e desesperança.
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