31 outubro 2014

Da aculturação dos bruxedos

bruxa.jpg


 


Estou a ficar definitivamente velha e ranzinza. Embora desconfie que quando era nova e alegre (se é que isso algum dia aconteceu) nunca tenha percebido o fascínio pelos carnavais.


 


Mas agora, com esta nova moda do Halloween, mais uma importação ou aculturação, a juntar ao Valentine's Day, e com o jantar interrompido por uma miúda já bastante graúda a pedir doce ou travessura, faz-me grunhir de exaspero e enervação.


 


Truque ou travessura? Já nem o Pão-por-Deus, de que também nunca gostei, se salva neste estrangeirismo militante. Só me faltam mesmo as verrugas com pêlos no nariz, para me transformar numa bruxa de olhos vermelhos.


 


Nota: A propósito vale a pena ler este post que, embora tenha sido escrito já há 3 anos, continua cada vez mais actual.

Abóboras

abobora.jpg


 


 


A única assombração, nesta noite de bruxas, é mesmo a imagem das abóboras que tenho para transformar em alguma coisa natalícia...

Da mudança de imagem

teste.png


Nos próximos tempos este blogue vai trabalhar para a imagem. Ainda não sei bem como, mas vais ficar diferente.


 


Aguardemos...

26 outubro 2014

Da sobrevivência da Pensão Estrelinha

Porto Praca_de_Carlos_Alberto.jpg


Uma das coisas de que gosto, quando vou a congressos e cursos fora da localidade onde moro, é a hipótese de me poder deslocar a pé, entre o hotel e o curso ou congresso, seja em Portugal seja no estrangeiro.


 


Neste momento temos várias ferramentas que nos ajudam a escolher o alojamento, que nos informam da localização precisa, do preço e das facilidades que oferecem aos hóspedes.


 


Animada destes princípios e com uma fé inabalável na internet e no rejuvenescimento da nossa oferta turística, que é muito melhor do que em muitos outros países com grande propaganda, procurei um local no Porto, onde pudesse, a um preço módico, ficar perto do Hospital de Santo António, onde iria decorrer o curso durante uns 4 dias.


 


Google maps e booking.com, duas indispensáveis ferramentas de que me socorro sempre nestas ocasiões, foram, mais uma vez, a resposta às minhas perguntas: na Praça Carlos Alberto, a 5 minutos a pé do Hospital de Santo António, um Hotel a 42,00/ noite, com pequeno-almoço e internet! Que mais poderia querer


 


Na estação de Campanhã, após uma viagem de comboio onde devorei The right attitude to rain, estranhei que o taxista não conhecesse o maravilhoso Hotel. Bem, mas lá fomos. A Praça Carlos Alberto é fabulosa, lindíssima e animada. Numa das pontas via-se uma porta com o nome do Hotel. Tive um instante de apreensão, ao ver a estreiteza da ombreira e a decadência da pintura, mas nada que encolhesse o meu optimismo.


 


Carregando a mala, franqueei a porta. Esperavam-me dois lanços de escada íngreme até ao 1º andar, seguindo as setas que indicavam a recepção. Esta constava de um balcão e de um senhor medianamente simpático, que me pediu a identificação, me indicou a sala do pequeno-almoço nesse andar (atrás de uma porta em mau estado reconheciam-se algumas cadeiras esquálidas). Quando me disse que o meu quarto era o número trezentos e qualquer coisa, no 3º andar, perguntei pelo elevador. Sorrindo o senhor medianamente simpático explicou-me que não havia. Ou seja, carreguei a mala por mais dois andares de escadaria tão íngreme como a anterior. A chave era uma chave verdadeira, amarelada, com a etiqueta do número pendurada; a porta do quarto era grande, pesada e abriu-se com bastante dificuldade. Lá dentro dei com das camas lado a lado, num quarto com as paredes mal pintadas, um chão de madeira corrida e que rangia, sem armário. A casa de banho tinha uma banheira xs, com uma cortina de plástico que já vira melhores dias, um chuveiro pendurado com uma cor baça e desocupada e, mesmo a um canto do tecto, sobressaía um termoacumulador, que aqueceria (ou não) a água do banho.


 


Bom, testemos a internet - funcionava. Procurei vários hotéis mas, tal como me tinham afirmado, o Porto estava repleto de turistas e não havia lugar em lado nenhum, com excepção do IBIS São João.


 


Telefonei e reservei um quarto para os dias seguintes. Quando fiz o checkout, o senhor medianamente simpático não perguntou nada, nem porque razão não aproveitava uma única noite. Concluí que não deveria ser a primeira pessoa a prescindir de tão humilde conforto.


 


Mas tive pena. Prefiro uma caminhada pela manhã e não preciso de grande estadão para passar as noites. Mas não é preciso exagerar. E bastava uma pequena remodelação para ser uma maravilhosa pensão Estrela, em vez de estiolar em Estrelinha.

Da pAAAtÉtica falta de informação

 


É importantíssima a informação que, desde há uns dias, tem sido amplamente repetida e divulgada por toda a comunicação social, a par das pAAAtÉticas declarações de Passos Coelho - os resultados dos testes de stress aos bancos europeus.


 


Ficámos, portanto a saber que o BCP chumbou (nomenclatura originalíssima utilizada pelos jornalistas) nos tais testes de stress. Mas não ouvi nem li nada sobre a nota do BES nesses mesmo testes - sabemos que tinha passado em 2011 e que também estava em avaliação em 2013. Estranhamente não vejo nenhuma curiosidade em relação à sua performance; nem quais os restantes bancos europeus a sofrerem o tal chumbo.


 


Tenho muitas suspeitas de que estes resultados são totalmente irrelevantes e que não asseguram rigorosamente nada, muito menos a solidez de qualquer instituição bancária. Pior ainda - podem arrasar a credibilidade das Instituições avaliadoras.

12 outubro 2014

Das conversas presidenciais

Não conheço o teor das conversas entre Cavaco Silva e António Costa. Mas espero que tenham falado da antecipação das eleições legislativas. Era de todo o interesse que decorressem por volta de Junho ou Julho, antes das presidenciais. Aliás foi o próprio Presidente que primeiro falou de eleições antecipadas, na célebre sugestão de compromisso entre Passos e Seguro que fez há mais de 1 ano (que eu, ingenuamente, pensei ser para bom do país quando terá sido uma jogada para estrangular o PS).


 


Espero que tenham falado da nova posição de Portugal perante as exigências de Bruxelas – de defesa dos interesses dos seus cidadãos e dos serviços públicos de qualidade, de tentativa de inversão das políticas recessivas, de redução da pobreza e das desigualdades.


 


Espero que Cavaco Silva tenha compreendido que acabar o seu mandato com dignidade é facilitar o caminho ao fecho deste ciclo político de que foi um dos protagonistas que, agora, tenta apagar a sua responsabilidade.

Paixão

painful existence.JPGAnthony Moman


 


 


De um poema inacabado a página


em branco fere sangue


que não estanca a dolorosa pressa


do corpo esvaído na mais assimétrica forma


de paixão.

10 outubro 2014

Da nova oposição

Não basta que as sondagens demonstrem que há um novo caminho a percorrer e que há urgência e ânsia pelo início desse caminho. António Costa tem carisma e é, neste momento, o líder incontestado do maior partido da oposição. Porque temos de novo oposição.


 


Independentemente da construção de plataformas de entendimento com outros partidos que aceitem sem reservas a democracia, é muitíssimo importante que o PS ambicione e construa uma maioria absoluta para uma alternativa sólida de governo. A situação do país e da Europa é demasiado grave para que a base eleitoral do próximo governo não resulte de um largo consenso em relação a áreas chave da nossa vida comum.


 


Não é de pactos de regime, consensos ou reflexões urgentes que precisamos mas sim da afirmação de políticas sérias e que tenham como objectivo repor o primado do bem estar dos cidadãos e do serviço público, do reconhecimento que Portugal não pode aceitar ser minimizado na sua soberania e na sua independência perante a centralização do poder cada vez menos democrático da Europa.


 


Não há que ter medo de enfrentar os assuntos, sejam eles quais forem. Os compromissos internacionais para com os credores devem ser cumpridos de forma a parar com a delapidação da sociedade livre, solidária e democrática a que temos assistido nos últimos anos.


 


Os fenómenos populistas tendem a ocupar o vazio em tempos de descrédito, insegurança e pobreza. É preciso inverter a queda para o abismo. Temos condições para lutar - renovação dos princípios e valores, realinhamento do que de essencial é preciso preservar; mobilização de vontades e de esperanças - é possível mudar.

Dos primeiros dias do próximo governo

sondagem.jpg


Expresso

Demasiado

daniel.png


 Daniel Arsham


 


 


1.


Antes que o mar me inunde


enrolando em ondas e pedras fragmentos de pele e alma


antes que o vento me afogue


em estilhaços de sopro e esquecimento


espalho brasas e olhos


e aprendo a massa do infinito


com que resitimos às tempestades de medo.


 


2.


Nem grande nem perfeito o nosso sonho de felicidade


nem fugaz nem perene a nossa funda imperfeição.


 


 3.


Como gato em fuga aguardo uma porta


entreaberta um silêncio desprevenido uma candura


de espírito ausente para activar um desaparecimento


instantâneo.


 


4.


Realidade demasiada e solitária rasura


linhas longas e sinuosas de apagamento.

06 outubro 2014

Vertigem

A Cloudy Sky


Joseph Mallord William Turner


 


A vertigem do desfiladeiro


em velocidade de nevoeiro


eu e o tempo em secreta intimidade


fragmento suspenso na eternidade.

05 outubro 2014

Hoje, como então


 


Hoje, como então, é da varanda da Câmara Municipal de Lisboa que se corporiza a esperança. Da solenidade dos discursos retiraremos apenas a linguagem secreta e universal dos olhares, comodidades e incomodidades de postura e sorrisos.


 


Hoje, como então, esperamos recomeços e continuidade - na liberdade, na democracia e na solidariedade de uma vida em comunidade.

04 outubro 2014

Dias despidos


Eyes as big as plates


Agnes 1



Eyes as big as plates


Agnes 2


Riitta Ikonen & Karoline HJorth


 


Ainda está bom tempo e os fins-de-semana são aproveitados para passear. De certa maneira fazemos voltas semelhantes, pois vamo-nos prendendo a hábitos, mesmo os hábitos do lazer: o café de manhã, o jornal que se folheia, a tv aberta em programas tontos, as ruas cheias de gente, o vagar das livrarias, os restaurantes ainda vazios à uma da tarde.


 


Passamos por muita gente velha, que atravessa a rua lentamente, sem olhar nem se assustar, curvados para o chão ou buscando o horizonte enevoado atrás dos óculos, com bengalas que não usam e eternos saquinhos de plástico com misteriosos conteúdos, outros com sandálias e calções, ipads assestados à paisagem urbana, não sei bem se gostam ou se apenas cumprem um ritual.


 


Vejo-me daqui a uns anos, igual em vagar e alheamento. No entretanto vou gozando os dias abertos e despidos de afazeres, tão poucos que se escoam rapidamente entre os dedos.

Porque sim


Calvin & Hobbes

Da conglomeração da esquerda

 


António Costa precisa de aglomerar a esquerda. A sua presença no I Congresso do Livre é um bom sinal. E os seus opositores estão muito preocupados. O BE esfrangalha-se e o PCP teme o voto útil. Quanto a Marinho e Pinto talvez tenha subestimado a tolerância dos ses compatriotas. Havendo quem mobilize os votos com esperança na mudança, deixam de fazer sentido os vendedores de ilusões e semeadores de virtudes.


 


Agora António Costa e o PS têm que se voltar para o seu verdadeiro opositor - este governo e a sua base política. É urgente que se construa uma alternativa com uma sólida e alargada base de apoio. É urgente discutir a crise, a Europa, a dívida, os serviços públicos, a solidariedade, o desemprego, o investimento, a sociedade digna e decente em que queremos viver.

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...