31 dezembro 2013

Da irrevogabilidade do novo ano

 



 


Lá se conseguiu passar 2013. Não sei se vem melhor se pior, mas a este já sobrevivemos.


 


Para o ano há mais. O optimismo não tem sido o meu forte, e o horizonte continua nublado e incerto.


 


Entretanto prepara-se a noite, calma e vagarosamente. Na cozinha há um alguidar de mexilhões à espera de uma esfrega, em sentido literal. A ideia é fazer mouclade dos mexilhoeiros, acompanhada de um vinho Saint-Bris. O remate será com fruta de calda, queijo e, para entrarmos bem-dispostos (e meio tontos) em 2014, está já no frigorífico uma garrafa de champagne Baron-Fuenté brut. Internacionalizemos pois os hábitos e a linguagem, para ficarmos em linha com a diáspora.


 


E o melhor é habituarmo-nos. A irrevogabilidade veio para ficar, mas ficou-se apenas pela redução dos ordenados, das comparticipações sociais e do emprego. Quanto ao país, depois da contagem decrescente para a nossa libertação, o ano da restauração começa já amanhã. Cantemos o novo dia.


 


PS - Espero que tenham todos um ano bem melhor que o que passou!


 

29 dezembro 2013

Das modas pretensiosas

 



 


A moda é isso mesmo - criar ou recriar alguma coisa que se torne indispensável, mesmo que seja totalmente supérflua. Fruto da nossa sociedade consumista mas também da insistente criatividade humana, que gosta de variar e procurar a diferença. A gastronomia está na moda - há inúmeros programas televisivos dedicados à causa, canais inteiros, concursos, lojas gourmet, utensílios de todos os tipos, máquinas maravilhosas, ingredientes exóticos, desconstruções e esfrangalhamentos, que vão do cheesecake ao bolo-rei.


 


Não escapam os restaurantes. Este ano abriu um em Campo de Ourique - MOULES&BEER- dedicado às moules-frites, um prato tradicional da Bélgica, que consiste em mexilhões, com mais ou menos molhos, acompanhados de batatas fritas. Este restaurante abriu a seguir a um outro, em Cascais, que se chama MOULES&GIN, uma bebida que também está na moda.


 


Mas voltemos ao MOULES&BEER - É um restaurante simpático, de dimensão razoável, com uma decoração minimalista, que pretende ser informal e sofisticada, tipo chic avant-garde. Mesas simples, com tampos de mármore, individuais de papel, com motivos em azulejos tridimensionais, luzes feitas com lâmpadas penduradas, talheres dentro de um frasco grande tipo compota, guardanapos em rolo de papel de cozinha, pão e manteiga dentro de um saco de pano.


 


Nada contra, mas este tipo de decoração, se não está atenta aos pormenores, acaba por ser negligente - o frasco de compota obriga a meter a mão lá dentro para pesquisar os talheres mais pequenos, o que não me parece muito higiénico; o rolo de cozinha pendurado também não é muito prático para quem tem as mãos sujas do molho das moules. Os alguidares onde servem as moules são demasiado fundos, o que não permite ir molhando o pão no molho, juntamente com a apreciação das ditas. A iluminação é mais escassa que discreta.


 


Mas o que mais me desagrada é a forma como dão a entender que estão tão cheios, que são tão procurados, que nunca têm mesa senão com marcação antecipada, o que também é uma moda que pegou e que impede vontades súbitas de ir jantar fora e de experimentar alguma coisa diferente (houve alguém que, num restaurante muito in, após a negação de uma mesa para duas pessoas por não ter reserva, perante uma sala completamente vazia saiu e, da rua em frente, fez o telefonema para reservar, tendo conseguido a almejada mesa para os 10 minutos seguintes). Por outro lado é desagradável reservar uma mesa para as 20h00 e ouvir dizer que esta teria que ser liberta até às 22h00, visto que havia dois turnos de refeição - isto numa 6ª feira à noite. Mais desagradável ainda é a mesa que se reservou para três pessoas ser pequena, não tendo quase espaço para a parafernália de sacos, alguidares e alguidarinhos, copos, frasco de talheres e rolo de cozinha. O serviço é correcto, mas pouco simpático e negligente, embora não seja demorado, o que é uma bênção. Ou seja, fazem-nos sentir que não fazemos falta nenhuma.


 


E no entanto, a razão de ser de um restaurante - a comida - é muito boa: as moules são muito bem feitas, com uma boa variedade de molhos - comi o camembert que estava delicioso e quem comeu o de caril também gostou - e as cervejas são um acompanhamento agradável, havendo uma grande oferta delas, à pressão e engarrafadas - experimentei uma frutada, mas não me lembro qual.


 


A verdade é que não fiquei com muita vontade de voltar.


 

27 dezembro 2013

Das ofertas recebidas (1)

 



 


Ellis Peters é um dos pseudónimos de Edith Pargeter, uma escritora inglesa que criou o Irmão Cadfael, um monge detective, cujas aventuras decorrem em Shrewsbury, entre os anos de 1137 e 1145, tendo como pano de fundo a guerra travada pela sucessão de Henrique I, entre Estêvão e Matilde de Inglaterra - The Cadfael Chronicles. Em Portugal estes livros, penso que a maioria, foi editada pela Europa-América.


 


Os livros desenvolvem-se na base de acontecimentos históricos reais. A figura de Cadfael [ˈkadvaɨl] é muito interessante visto que, antes de entrar para a vida monástica, foi combatente e marinheiro, o que lhe deu uma humanidade que, combinada com o conhecimento de ervas medicinais, lhe dá uma capacidade de entendimento, uma curiosidade e um raciocínio lógico que o leva a resolver os crimes e os mistérios que se lhe deparam.


 


Essa série de livros policiais foi adaptada para televisão, sendo o protagonista Derek Jacobi. É com um episódio por dia que faço durar esta maravilhosa prenda de Natal.


 

Monstros Antigos

 



 


Não é fácil falar de um livro de poesia. Pelo menos para mim, que gosto muito de poesia.


 


Monstros Antigos (Esfera do Caos Editores) de Porfírio Silva, é um livro belíssimo. De uma contenção, elegância, fluidez, musicalidade e ritmo que fazem com que as suas palavras se transformem nas nossas palavras. Transcrevo dois (de entre muitos) dos que mais gostei:


 


um desafio amoroso


 


Pássaro pesado sem asa


Navio ferido sem vela


Atravessas o deserto da casa


da primeira porta à última janela.


Forte a fome de fazer


Fraca a faca de cortar


É tarde:


Se ainda és de veras o homem que inventou as nuvens


Levanta-te e arde


 


 


a astúcia da razão


 


dez mil déspotas abrigados


à sombra do teu não.


tu resistes.


e na tua resistência está o seu pão.


 


É com a poesia que resistimos.


 


Nota: Ver também Eduardo Pitta


 

26 dezembro 2013

Das revoluções sem armas

 


Há uns dias discutia-se a importância do Maio de 1968, na perspectiva da cultura da sociedade europeia, nomeadamente no que diz respeito aos direitos da mulher e à sua libertação sexual.


 


Não me parece que a liberdade sexual da mulher e, consequentemente, do homem, tenha tido raízes ou sequer tenha sido catalisada pelo Maio de 68. Penso mesmo que a importância do Maio de 68 é muito hiper valorizada, tanto culturalmente como politicamente, dando lugar a um reforço do poder do General de Gaulle, tendo os partidos da esquerda francesa, que apadrinharam a crise estudantil e as greves que se lhe seguiram, sido pesadamente derrotados nas eleições para solucionar essa mesma criseque se lhe seguiram.


 


O grande marco civilizacional do século XX, que revolucionou e modificou a organização social no mundo ocidentalizado, foi a descoberta da pílula, a implementação dos serviços nacionais de saúde, com o pioneirismo do Reino Unido e o desenvolvimento do planeamento familiar com a massificação do uso da contracepção hormonal.


 


A liberdade da mulher nasce da capacidade que ela adquire em controlar, sem a dependência dos seus parceiros, o seu ciclo reprodutivo. E essa capacidade abriu-lhe as portas às ambições de trabalhar, de estudar, de ser economicamente sustentável e independente, de ultrapassar a culpa entranhada da cultura judaico-cristã que a não via como pessoa de pleno direitose desligada da função reprodutora.


 


Essa revolução alterou por completo a relação entre os dois géneros, a organização familiar e a demografia, lançando novos e complicados desafios à sociedade. Em Portugal, Albino Aroso foi um dos que ajudou a essa causa, tendo um papel preponderante na qualidade de vida das mulheres do nosso país. Todas nós lhe devemos uma boa parte da nossa forma de viver, com mais qualidade, segurança e responsabilidade. Ao contrário da geração que está agora no poder, em Portugal e em muitos países europeus, defendia a social democracia. Infelizmente, esta direita que nos governa, aqui e na Europa, não tem sabido honrar estas heranças.


 

Identidade

 



Jiyuseki


 


Afasto-me. Crio uma distância interior visão a preto e branco


de uma neve mais pura de um frio mais intenso.


Afasto-me do silêncio abrupto e gelado deste inverno


de todos os invernos acumulados que transbordam


de todas as solidariedades redondas como ornamentos


de todos os sorrisos desenhados a pincel


de todas estas harmonias amarrotadas


de todos os abraços de ocasião.


 


Afasto-me. De tudo de todos numa ingratidão egoísta


em luta pela sobrevivência de alguma sóbria


e resgatada identidade.


 

25 dezembro 2013

Do pecado da gula (2)

 



 


Pois todo o conceito de peru recheado foi desconstruído. Do peru comeram-se as pernas e o recheio foi exterior e não interior, como parece indicar a palavra. Mas todos sabemos, desde a decisão irrevogável de Paulo Portas, que as palavras ganharam outra vida e outros significados.


 


Não foi fácil colocar as pernas de peru, de uma dimensão dinossáurica, dentro do tabuleiro do forno, mas lá ficaram elas, um tantos atafulhadas, pouco elegantes, convenhamos. Escorridas do molho em que estavam há 2 dias, foram barradas e amassadas com uma pasta de 6 dentes de alho (altura ideal para descobrir que o esmagador de alhos estava partido), 2 colheres bem cheias de pimentão doce, alecrim, louro, piri piri e azeite. Espalhei um pouco de sal e reguei com um pouco de azeite, vinho branco (este generosamente) e as rodelas da laranja. Cobri com uma folha de alumínio e foi a assar durante cerca de 3 horas, em lume brando.


 


Quanto ao recheio, foi uma inspiração de momento. Fritei bacon (2 caixinhas), uma grande cebola, castanhas, tâmaras, passas de uva, nozes, azeitonas e cogumelos, tudo cortado aos bocadinhos, e fui temperando com um pouco de sal, piri piri e vinho (usei Porto seco e aguardente). Vai-se mexendo até ficar tudo cozinhado. Se não apreciar muito o sabor adocicado não junte as passas de uva.


 


Acompanhei com arroz branco e esparregado, uma iguaria gentilmente preparada por um dos comensais, e vinho tinto (Quinta do Portal 2007). A seguir foi a panóplia de doces que sobraram de ontem, com o respectivo café e seu licor, pelo que terei que caminhar vários quilómetros nos próximos dias, para digerir e reduzir a enorme quantidade de calorias que ingeri neste dias.


 


A operação Natal 2013 está encerrada. Iniciar-se-á, brevemente, a operação ano novo 2014.


 

24 dezembro 2013

Da decadência das rabanadas à revolução do bacalhau

 



 


A calda para os sonhos e as rabanadas está... miam... glup... miam...


 


Para 400g de açúcar adicionam-se 300ml de água, 3 paus de canela e casca de 1 laranja (pequena). Quando ferver junta-se um bom cálice de vinho do Porto... seco, e deixa-se ganhar ponto (cerca de 15 minutos). Já está numa taça funda, onde irão mergulhar os sonhos; o restante está noutra taça, para quem quiser regar as rabanadas.


 


O ano passado discutiu-se a lateralidade política das couves. Sim, cá em casa é tudo muito assumido em termos de debate democrático, e todos os gestos tradicionais são revirados, numa dialéctica comprometida e engajada. Temos que urgentemente decidir se comer bacalhau cozido com batatas e grão é considerado revolucionário e herdeiro de Abril, ou se o Natal em si, com a sua decadência doce e pegajosa, ou não houvesse açúcar que baste a lambuzar os pratos e os dedos, não é a mais pura e reaccionária expressão da direita ultraliberal fashion e caritativa.


 


Neste caso, a singeleza do bacalhau e as horas de escravidão que se passam a preparar o Natal bem podem ser assumidas como solidariedade operária, objecto de gente reivindicativa, como eu. A justa luta não tem tido grande resultado, acabando habitualmente na mais abjecta confraternização entre os representantes do capitalismo, que se levantam tarde e a más horas, e os defensores do trabalho e dos valores da liberdade, que mourejam todo o dia entre panelas. Nesta mesa a consertação acontece por entre os ruídos dos talheres e os perfumes que despertam os mais empedernidos dorminhocos.


 


A todos os companheiros e companheiras, camaradas de consoadas e réveillons, que passem um excelente natal, dignificando a causa em manifestações e comícios nocturnos porque, como sempre, a luta continua!


 

Continuar

 



Baemikkumi


 


Qualquer que fosse o esforço que fizesse


arrasar esta inquietação esta inamovível tristeza


qualquer que fosse a caminhada


a extensão da estrada que me esperasse


qualquer que fosse o longínquo obscuro lugar


que me quisesse talvez lá encontrasse


a força que me falta para continuar.


 

River

 




 


It's coming on Christmas


They're cutting down trees


They're putting up reindeer


And singing songs of joy and peace


Oh I wish I had a river I could skate away on


 


But it don't snow here


It stays pretty green


I'm going to make a lot of money


Then I'm going to quit this crazy scene


Oh I wish I had a river I could skate away on


 


I wish I had a river so long


I would teach my feet to fly


I wish I had a river I could skate away on


I made my baby cry


 


He tried hard to help me


You know, he put me at ease


And he loved me so naughty


Made me weak in the knees


Oh, I wish I had a river I could skate away on


 


I'm so hard to handle


I'm selfish and I'm sad


Now I've gone and lost the best baby


That I ever had


I wish I had a river I could skate away on


 


Oh, I wish I had a river so long


I would teach my feet to fly


I wish I had a river


I could skate away on


I made my baby say goodbye


 


It's coming on Christmas


They're cutting down trees


They're putting up reindeer


And singing songs of joy and peace


I wish I had a river I could skate away on


 

Da diáspora

 


É difícil falar do imensurável tédio e incontido asco que estas pseudo-iniciativas me causam. E da incompreensão relativamente à presença do inefável líder do PS, que não perde uma oportunidade de passear o vácuo do seu pensamento e a irrelevância da sua presença na irrealidade deste tempo de colaboracionistas.


 


E segue a quadra da obrigatoriedade do contentamento hipócrita.


 

23 dezembro 2013

Moda-crise réveillon 2013/2014

 



 


Há poucos dias, não sei bem em que estação de rádio, ouvi um designer perorar sobre a elegância e adequação de se mostrar regrado e contido nos gastos com o réveillon, repetindo toilettes e reciclando acessórios.


 


É chique fingir ser pobre - está na moda.


 

Da circularidade do tempo

 


O tempo é circular, pelo que os inícios e fins de ano são marcos totalmente artificiais num continuidade a várias dimensões.


 


E no entanto, quando chego ao Natal, comporto-me como se, de facto, alguma coisa fosse acabar, alguma coisa que nunca mais voltará. Daí a necessidade inconsciente que sinto em resolver assuntos pendentes, em comprar alimentos que cheguem para uma semana, em fornecer-me de aconchego como se aguardasse o fim de uma era, o início de uma guerra, qualquer inevitabilidade terrível que se abatesse ao soar o alarme das zero horas do novo ano.


 

Do pecado da gula (1)

 


Começou hoje a operação Natal 2013, com a confecção das filhós.


 


Desta vez decidi fazê-las, o que não é inédito, mas quase. A diferença é que em vez de ter uma consultadoria telefónica tenho-a presencial. É mais supervisão das quantidades dos ingredientes (a olho), do bater a massa e da consistência da dita, uma ciência oculta conhecida apenas pelos iniciados, neste caso as iniciadas.


 


Juntam-se 750g de farinha a 6 ovos; vai-se amassando e juntando um copo de água cheio com uma mistura de sumo de laranja, aguardente e azeite. As mãos são uma escolha mais avisada do que a máquina, porque a massa fica toda colada às pás da batedeira e temos que a tirar à força. Por outro lado também não é muito prático o uso de luvas culinárias, visto que se podem perder na própria massa, no afã do momento. Vai-se colocando mais um pouco de farinha, até a massa despegar do alguidar e das mãos. Faz-se depois uma bola, cobre-se com um pano limpo e deixa-se a levedar, num ambiente aquecido, outro processo misterioso que resulta no aumento do volume da massa.


 


Segue-se a fritura das filhós em óleo quente, depois de se estenderem com o rolo da massa untado de azeite, numa tábua também untada. Este processo é delicado e necessita de quatro mãos - duas estendem a massa, cortam as formas e colocam-nas no óleo de fritar; as outras duas de garfo empunhado, viram as filhós, mantém a temperatura do óleo e previnem a carbonização inadequada da iguaria, o que nem sempre é fácil.


 



 


Já estão numa taça funda, à espera de serem polvilhadas com açúcar e comidas.


 


No entretanto o grão está a demolhar e as pernas gigantescas de peru (4Kg - devem ser extraterrestres, estes perus) estão a hidratar-se e a amaciar, cobertas de água, com laranjas (2) e limões (2) às rodelas, sal e pimenta. Ficarão no frio até ao dia 25, altura em que irão para o forno. Até lá ainda terei que inventar o recheio que se come à parte.


 


Amanhã continuará a missão, com as rabanadas e a aletria, para além do episódio da compra das couves portuguesas, que demoram séculos a lavar e arranjar. Estou a congeminar a calda à moda do Norte, para regar as rabanadas e os sonhos, numa receita que foi partilhada por um colega lá de cima, e que inclui vinho do Porto. Várias inovações este ano.


 

21 dezembro 2013

Doces manhãs

 


 



Confeitaria Nacional, Lisboa


 


Lisboa, em Dezembro, fria e soalheira, apinhada de gente que olha, que distende os ombros e respira.


 


Do Largo Camões à Rua dos Fanqueiros, a minha mão na tua, vagueando por entre o ruído das conversas, dos passos vagarosos e dos eléctricos. As ruas estão enfeitadas, talvez menos que em outros natais mais desafogados, mas há muitos vermelhos e muitos verdes, algumas luzes e flores, estátuas de fadistas, pequenas feiras de livros, de licores, de pequenas lembranças artesanais que poderão aconchegar um pouco o natal de quem vende.


 


Os doces são uma tentação irresistível, como as manhãs na tua companhia.


 

20 dezembro 2013

Dos atrasos nos preparativos

 



 


Estou atrasadíssima no que aos preparativos de Natal diz respeito. A compota de abóbora, este ano com a novidade de estar em papa, ainda está por enfrascar e rotular; o licor de café aguarda a divisão pelas garrafinhas; o fudge de chocolate, que decidi enriquecer com lascas de amêndoas, ficou pouco consistente, pelo que será aproveitado para alguma coisa que ainda não me ocorreu; os borrachões ficaram bastante bons, mas falta fazer mais uma ou duas doses.


 


Planear já planeei, mas do plano à execução do mesmo vai uma certa diferença. Aguardam-me dias de infinita falta de paciência nas filas do supermercado, em busca de farinha, ovos, leite, grão, peru, fermento de padeiro, etc. Sim, porque este ano decidi inovar: vou tentar fazer uma pequena porção de filhós, um bolo-rei minúsculo, uma calda com vinho do Porto para as rabanadas, para além da ritualizada aletria e do bacalhau cozido com batatas e grão – isto tudo para a Consoada, claro, com uns sonhos que virão cá ter e umas azevias que hei-de arranjar algures.


 


Quanto ao dia de Natal, vou reinventar o peru assado, reciclar, enfim, o conceito do dito recheado. E o que está proposto é este projecto (hoje em dia é tudo um projecto): peru assado no forno (só as pernas) recheado (mas o recheio vai à parte) de refogado de castanhas, nozes, pinhões, passas de fruta, tâmaras, azeitonas (e o que mais me lembrar até lá) acompanhado de esparregado.


 

Do que já se sabia

 


Já toda a gente esperava esta decisão do TC. Esta chamada convergência das pensões não converge nada, apenas confisca, ou rouba. Os Mercados também esperavam e, na verdade, nem sequer querem saber.


 


A quem quer ainda Passos Coelho enganar?


 

Quadras de Natal (4)

 



 


 


 


Procuro a balada lenta


nesta noite abençoada,


no centro de uma tormenta


a bonança aconchegada.


 


Centramos as nossas vidas


na mesa da consoada,


lá fora há mãos estendidas


e sonhos sem alvorada.


 


Não sei se é o destino


que abre as portas à luz,


nem sei se um pobre menino


se chama sempre Jesus.


 


Mas sei que brilha uma chama


que desafia a razão:


é o calor de quem ama


e arde na solidão.


 

18 dezembro 2013

Distracções

 


Fiquei hoje a saber que António José Seguro é contra esta prova de avaliação dos professores.


 


O que não sei é se António José Seguro acha que há professores a mais na escola pública ou não; se é a favor da escola a tempo inteiro, do ensino obrigatório do inglês, qual o número máximo de alunos por turma que considera ideal; não sei o que António José Seguro pensa sobre o acesso à carreira docente, como se deve estruturar e como se deve ser feita a avaliação do desempenho dos docentes para subida na carreira.


 


É que eu estou de acordo com a restrição do acesso à carreira docente da escola pública para quem mostre melhor capacidade e maior empenho em ensinar. Aliás como estou de acordo que o Estado restrinja o acesso à prestação do serviço público aos melhores, seja ele o ensino, a saúde, a justiça, a segurança. Também penso que este tipo de provas, apenas para quem tem menos de 5 anos, acaba por ser injusta para quem a faz, pois haverá sempre quem está de pedra e cal na profissão, há vários anos, que não tem condições para ensinar. Acabam por ser sempre os mais vulneráveis, neste caso quem é contratado, a ir para o desemprego.


 


Porque deixemo-nos de hipocrisias - esta prova apenas tem como objectivo dispensar professores. O estado não é uma agência de emprego, é verdade, mas tem obrigação de gerir os seus recursos humanos de forma a poder fornecer o melhor serviço com a maior qualidade. Mas essa qualidade será atingida com carreiras que premeiam o mérito, com avaliações justas e rigorosas, em que a competência e a motivação sejam os critérios primordiais para ascensão na carreira, com melhorias remuneratórias, obviamente.


 


Mas sobre esses assuntos não sei o que pensa António José Seguro, e o que faria diferente, perante as circunstâncias concretas. Provavelmente é porque ando muito distraída.


 

08 dezembro 2013

Fado do retorno

 



Mísia


Lídia Jorge & Armandinho




Amor, é muito cedo


E tarde uma palavra


A noite uma lembrança


Que não escurece nada


 


Voltaste, já voltaste


Já entras como sempre


Abrandas os teus passos


E paras no tapete


 


Então que uma luz arda


E assim o fogo aqueça


Os dedos bem unidos


Movidos pela pressa


 


Amor, é muito cedo


E tarde uma palavra


A noite uma lembrança


Que não escurece nada


 


Voltaste, já voltei


Também cheia de pressa


De dar-te, na parede


O beijo que me peças


 


Então que a sombra agite


E assim a imagem faça


Os rostos de nós dois


Tocados pela graça.


 


Amor, é muito cedo


E tarde uma palavra


A noite uma lembrança


Que não escurece nada


 


Amor, o que será


Mais certo que o futuro


Se nele é para habitar


A escolha do mais puro


 


Já fuma o nosso fumo


Já sobra a nossa manta


Já veio o nosso sono


Fechar-nos a garganta


 


Então que os cílios olhem


E assim a casa seja


A árvore do Outono


Coberta de cereja.

Da violação da privacidade

 



 


Estamos inundados de gente que espreita pelos buracos das fechaduras, que escuta às portas fechadas e que publica conversas privadas, sem que a sociedade sancione este tipo de comportamentos. Pelo contrário, quem são desfeitas na praça pública são as vítimas destas constantes violações de privacidade, mascaradas de informação e trabalho jornalístico.


 


Ao contrário do que aconteceu, a publicação dos comentários do Primeiro-ministro Checo deveria ter sido unanimemente condenada. Em vez disso é manchete de jornais e de televisões, tendo-se tornado viral na internet.


 

Da Educação Pública

 


Vários foram os textos e os posts que li sobre o PISA  2012. No entanto não ouvi nem li qualquer comentário do Ministro Nuno Crato sobre o mesmo quando, há poucos anos, se servia desta mesma organização para demonstrar como no ensino público imperava o facilitismo, como criava indigentes mentais e incompetentes, como certificava adultos sem qualquer conhecimento, apenas para melhorar as estatísticas. Isto, claro, predominantemente sob a batuta dos governos socialistas, em especial dos de Sócrates – nunca nos esqueçamos do que se disse e escreveu sobre o programa Novas Oportunidades, o ensino de Inglês, a aposta na Matemática, a Escola a tempo inteiro, a tentativa de valorização da carreira docente com a avaliação do desempenho, os computadores Magalhães, o programa de renovação das estruturas escolares, o encerramento das escolas com muito poucos alunos,etc.


 


Este Ministério resolveu desfazer tudo o que estava a ser feito. A avaliação das políticas implementadas era obrigatória, tal como a correcção do que correu mal. Mas o que se constata é que, por motivos ideológicos, como em muitas outras áreas, destruiu-se o que estava a resultar.


 


O mais triste é que António José Seguro anda tão distraído como o Ministro Crato. Quando a oposição em peso denegria o trabalho de Maria de Lurdes Rodrigues muitos houve, dentro do PS, que compreendiam muito bem as indignações de Mário Nogueira e da FENPROF; que, demagogicamente, se juntaram ao coro de carpideiras e de revolucionários de bancada para impedir que as reformas avançassem.


 


O que mais me preocupa é o tempo que se perdeu, o que significa de desperdício a regressão e a destruição do que foi uma verdadeira aposta na qualificação e no desenvolvimento do país. O que mais me preocupa, é a inqualificável irresponsabilidade destes governantes e destas oposições sem nenhuma visão, estratégia ou ideia para o futuro.


 

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