
A moda é isso mesmo - criar ou recriar alguma coisa que se torne indispensável, mesmo que seja totalmente supérflua. Fruto da nossa sociedade consumista mas também da insistente criatividade humana, que gosta de variar e procurar a diferença. A gastronomia está na moda - há inúmeros programas televisivos dedicados à causa, canais inteiros, concursos, lojas gourmet, utensílios de todos os tipos, máquinas maravilhosas, ingredientes exóticos, desconstruções e esfrangalhamentos, que vão do cheesecake ao bolo-rei.
Não escapam os restaurantes. Este ano abriu um em Campo de Ourique - MOULES&BEER- dedicado às moules-frites, um prato tradicional da Bélgica, que consiste em mexilhões, com mais ou menos molhos, acompanhados de batatas fritas. Este restaurante abriu a seguir a um outro, em Cascais, que se chama MOULES&GIN, uma bebida que também está na moda.
Mas voltemos ao MOULES&BEER - É um restaurante simpático, de dimensão razoável, com uma decoração minimalista, que pretende ser informal e sofisticada, tipo chic avant-garde. Mesas simples, com tampos de mármore, individuais de papel, com motivos em azulejos tridimensionais, luzes feitas com lâmpadas penduradas, talheres dentro de um frasco grande tipo compota, guardanapos em rolo de papel de cozinha, pão e manteiga dentro de um saco de pano.
Nada contra, mas este tipo de decoração, se não está atenta aos pormenores, acaba por ser negligente - o frasco de compota obriga a meter a mão lá dentro para pesquisar os talheres mais pequenos, o que não me parece muito higiénico; o rolo de cozinha pendurado também não é muito prático para quem tem as mãos sujas do molho das moules. Os alguidares onde servem as moules são demasiado fundos, o que não permite ir molhando o pão no molho, juntamente com a apreciação das ditas. A iluminação é mais escassa que discreta.
Mas o que mais me desagrada é a forma como dão a entender que estão tão cheios, que são tão procurados, que nunca têm mesa senão com marcação antecipada, o que também é uma moda que pegou e que impede vontades súbitas de ir jantar fora e de experimentar alguma coisa diferente (houve alguém que, num restaurante muito in, após a negação de uma mesa para duas pessoas por não ter reserva, perante uma sala completamente vazia saiu e, da rua em frente, fez o telefonema para reservar, tendo conseguido a almejada mesa para os 10 minutos seguintes). Por outro lado é desagradável reservar uma mesa para as 20h00 e ouvir dizer que esta teria que ser liberta até às 22h00, visto que havia dois turnos de refeição - isto numa 6ª feira à noite. Mais desagradável ainda é a mesa que se reservou para três pessoas ser pequena, não tendo quase espaço para a parafernália de sacos, alguidares e alguidarinhos, copos, frasco de talheres e rolo de cozinha. O serviço é correcto, mas pouco simpático e negligente, embora não seja demorado, o que é uma bênção. Ou seja, fazem-nos sentir que não fazemos falta nenhuma.
E no entanto, a razão de ser de um restaurante - a comida - é muito boa: as moules são muito bem feitas, com uma boa variedade de molhos - comi o camembert que estava delicioso e quem comeu o de caril também gostou - e as cervejas são um acompanhamento agradável, havendo uma grande oferta delas, à pressão e engarrafadas - experimentei uma frutada, mas não me lembro qual.
A verdade é que não fiquei com muita vontade de voltar.