02 outubro 2011

Do feminismo brando

 



 Cassandra Austen: Jane Austen


 


Apesar de serem romances de uma escritora do século XVIII/XIX (Jane Austen), Sensibilidade e Bom Senso (Sense and Sensibility) e Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) são novelas que, ainda hoje, excitam a imaginação de milhares de leitores por todo o mundo, com várias reedições e estudos críticos, adaptações cinematográficas e séries televisivas.


Estando eu no meio dos admiradores destas duas novelas, pergunto-me muitas vezes as razões de tamanho êxito, idêntico ao que se verifica também com um livro como Mulherzinhas (Little Women – de Louisa May Alcott, século XIX).


Para além de serem histórias passadas dentro das famílias, com retratos sociais e reflexões éticas e culturais, no sentido da caracterização de certas classes e de certos ambientes rurais, apoiando-se em enredos que podem ser olhados como teias ou redes de relações, projectam personagens femininas fortes e emancipadas, dentro do que era possível e aceite.


Em Orgulho e Preconceito, a autora criou Elizabeth Bennet, uma de cinco filhas de um casal de proprietários rurais. Enquanto a maior preocupação da mãe era casar a sua prole salvaguardando-a da miséria, debatendo-se com os fracos dotes para encontrar maridos que pudessem prover ao seu sustento, Elizabeth Bennet tem uma postura de literata e de independência face a algumas das convenções da época, preocupando-se mais com o seu espírito indomável que com o futuro, mostrando até gosto pelo desafio da arrogância e da férrea estrutura classista.


Também em Sensibilidade e Bom Senso a dependência económica das mulheres é o pano de fundo da história. Nesta enquadram-se as vontades de duas personalidades diferentes - as irmãs Elinor e Marianne, de duas maturidades distintas, mas sempre com a preocupação de personagens femininas com pensamento próprio e necessidade de afirmação de independência, exercendo escolhas e tomando posições bem definidas.


O terceiro exemplo centra-se numa ética religiosa, de comportamentos estritos e bem controlados, com uma personagem central - Jo March - que afirma os valores da educação, do pensamento autónomo, da crítica e da independência, apenas aceitando a submissão ao amor, aqui já quase omnipresente.


Não sei se é o transporte para um mundo mítico que gostaríamos de ter conhecido, se a moralidade e a certeza do triunfo dos justos, se a existência de heroínas brandas mas firmes, que nos fazem manter o interesse por estas histórias, ou tão somente a melancolia de algo que nunca fomos nem nunca seremos.


 



 Luisa May Alcott

1 comentário:

  1. Ora aqui está uma análise literária que, pelas suas características, só se pode ler num blogue. É o tipo de textos que, podendo não ter muitas visitas (e provavelmente não as irá ter...), confere qualidade ao que aparece escrito na blogosfera em português.

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