27 fevereiro 2011

Tabacaria

 



William Harnett: A smoke Backstage


 


Ainda há uma tabacaria na rua. A porta abre-se com dificuldade, pesada, com um letreiro torto a dizer ABERTO, mesmo quando está fechada. O homem atrás do balcão tem uma cor pisada, cabelos pendentes de alguém que acabou de se encharcar. As revistas penduradas pelas paredes, com molas sujas, têm o aspecto de jornais velhos e desfolhados, após notícias tremendas e sanguinárias.


 


O homem atrás do balcão nunca sai de lá. Pode ter pernas de pau ou saias escocesas, pés com meias cinzentas e sandálias, calças esfiapadas ou de pirata, que ninguém vê. Conhece de cor os rostos dos miúdos que lhe vão pedir cigarros, sabe todos os truques que as miúdas usam para roubar pastilhas elásticas, saúda com dois dedos todos os cães que param em frente à esquina da porta.


 


Ainda há uma tabacaria na rua. Quando a chuva chama abrigo, o homem atrás do balcão fica mais baço, dentro da nuvem do fumo que aspira. Por vezes vêem-se os dois dedos, castanhos de nicotina, a virarem as páginas de um jornal. Sempre do fim para o princípio, como os cigarros que arruma ao contrário.


 

I'll stand by you


 



Oh, why you look so sad?
Tears are in your eyes
Come on and come to me now
Don't be ashamed to cry
Let me see you through
'Cause I've seen the dark side too

When the night falls on you
You don't know what to do
Nothin' you confess, could make me love you less

I'll stand by you, I'll stand by you
Won't let nobody hurt you
I'll stand by you

So, if you're mad, get mad
Don't hold it all inside
Come on and talk to me now

Hey, what you got to hide?
I get angry too
Well I'm a lot like you

When you're standing at the crossroads
And don't know which path to choose
Let me come along
'Cause even if you're wrong

I'll stand by you, I'll stand by you
Won't let nobody hurt you
I'll stand by you

Take me in, into your darkest hour
And I'll never desert you
I'll stand by you

And when, when the night falls on you, baby
You're feelin' all alone
You won't be on your own

I'll stand by you, I'll stand by you
Won't let nobody hurt you
I'll stand by you
Take me in, into your darkest hour
And I'll never desert you

I'll stand by you, I'll stand by you
Won't let nobody hurt you
I'll stand by you
Yeah

Won't let nobody hurt you
I'll stand by you
I'll stand by you
Won't let nobody hurt you

I'll stand by you
No, no, no, no, no
Take me in, into your darkest hour
And I'll never desert you
I'll stand by you
I'll stand by you


 


Incredulidade


 


Rui Pedro, 11 anos, desapareceu a 4 de Março de 1998. Não consigo sequer imaginar a dor, a angústia, a vida destes pais e desta família durante todos estes anos, como não consigo imaginar a dor, a angústia e a vida deste miúdo, se é que ele vive.


 


Durante 13 anos, ciclicamente, ouvimos os pais acusarem a justiça de lentidão, acusarem o país de se ter desinteressado, de não saber, de não querer saber o que se passou. Agora, sem que haja novas provas, o Ministério Público acusou um amigo da família e, pelos vistos, do Rui Pedro, do rapto e sabe-se lá de que mais.


 


A incredulidade anda de mãos dadas com a revolta. Pobre de quem precisar desta justiça. Que Estado é este, que Direito, que segurança e protecção aos cidadãos é capaz de assegurar?


 

Demagogia desenfreada

 


12 de Março de 2011 - Um milhão de pessoas na Avenida da Liberdade pela demissão de toda a classe política

 


É difícil ler manifestos mais demagógicos e populistas que este. Embora nem sequer perceba exactamente qual a sociedade ou sistema político que os autores deste email defendem, se é que defendem algum, é assustador imaginar o que resultaria da concretização de todas estas medidas aparentemente sensatas e bem intencionadas.


 




26 fevereiro 2011

Afundamentos

 



 


Kadhafi conseguiu esconder de todos os seus parceiros presidentes e monarcas de países por esse mundo fora, a perfídia que o consome, as diabólicas artimanhas que tece na sua tenda.


 


Repentinamente todos se dão conta da sua loucura, prepotência e falta de amor pela democracia e pela vida do seu povo. Até os seus mais próximos colaboradores, como embaixadores, ao descobrirem a verdade por baixo das vestes longas, dos óculos escuros e do guarda-chuva, corajosamente se demarcam do negro tirano.


 


Como é admirável a elasticidade do entendimento.


 

Cartão de eleitor


 


 


Felizmente, a oposição está alerta e não deixa passar iníquas propostas de lei deste governo sem préstimo. O número de eleitor, peça fundamental da arqueologia democrática, ícone e artefacto histórico português, deve ser mantido e acarinhado, defendido e promovido pelo Parlamento.


 


Por isso se entende e aplaude esta união da oposição que contraria a decisão de acabar com o número de eleitor, mas cria uma comissão eventual. Assim, sim, é a oposição em todo o seu esplendor.


 

24 fevereiro 2011

Códigos


 


Eddie Bowen: The Rock Machines 


 


 


I.


Vi crescerem ossos desmesuradamente


despontarem nervos insensatamente


arrastarem olhos gulosamente


esconderem risos esforçadamente.


 


Vi quebrarem laços aplicadamente.


 


 


II.


Contigo


sempre contigo, aprendo


a ler códigos silenciosos


de ternura.


 

A rua

 


Na Líbia o povo quer derrubar o poder autoritário e o próprio ditador. Por todo o mundo, os protestos fazem conjugar-se pressões internacionais para que o ditador deixe cordatamente o poder.


 


Não sei qual ou quais as personagens que corporizam o descontentamento e viabilizam a alternativa. Quem ocupará o poder quando cair Muʿammar al-Qaḏḏāfī (معمر القذافي)? O exército, tal como no Egipto, o Presidente do Parlamento, tal como na Tunísia (تونس)?


 

Abulia

 


Ouvi hoje alguém afirmar, quase em jeito de desafio, que cada vez via mais televisão, como estratégia para esvaziar a cabeça, não pensar em nada e ficar abulicamente sentada, até o sono vencer as pálpebras.


 

23 fevereiro 2011

Chamaram-me Cigano


José Afonso


 


 


Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rez
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura

Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão

Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi

Puseram-me a ferros
Soltaram o cão
Mas tive
o diabo na mão

Voltei da charola
de cilha e arnês
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês

Perdi na roleta
Ganhei ao gamão
Mas tive
O diabo na mão

Ao dar uma volta
Caí no lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que nunca tal vi

Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão


 

Até quando?

 


A execução orçamental, anunciada com pompa e circunstância, perdeu a pompa e mantém a circunstância. Continua o trabalho para a surdez dos mercados. Vivemos na fronteira do desinteresse ou do desespero. Marinamos a vontade de mudar, reservamos a inspiração. Até quando?

21 fevereiro 2011

O medo

 


E aí estamos todos preocupados com o acender da luta no mundo árabe. Não há Nostradamus que nos não venha à memória, o petróleo, o tão precioso petróleo que o ocidente sempre abusou, com o perigo de se ver nas mãos de um povo que dele nunca beneficiou.


 


Olhamos com apreensão os televisores, a moderna montra de horrores e propagandista do medo, do medo ocidental e moralista de uma sociedade em abundância, por muitas crises que nos atravessem.


 


Circulam algumas imagens e muitas informações não confirmadas. Apenas se confirma a violência que se segue à esperança, o totalitarismo que se mantém com o apoio dos tanques, dos bombardeamentos e dos medos da hipocrisia dos países ricos, que vendem a imagem da democracia e suspiram pela manutenção do status quo.

20 fevereiro 2011

Mano a mano

 










 Pedro Jóia & Riacrdo Ribeiro


 


 


Rechiflao en mi tristeza, te evoco y veo que has sido
de mi pobre vida paria sólo una buena mujer
tu presencia de bacana puso calor en mi nido
fuiste buena, consecuente, y yo sé que me has querido
como no quisiste a nadie, como no podrás querer.


 


Se dio el juego de remanye cuando vos, pobre percanta,
gambeteabas la pobreza en la casa de pensión:
hoy sos toda una bacana, la vida te ríe y canta,
los morlacos del otario los tirás a la marchanta
como juega el gato maula con el misero ratón.


 


Hoy tenés el mate lleno de infelices ilusiones
te engrupieron los otarios, las amigas, el gavión
la milonga entre magnates con sus locas tentaciones
donde triunfan y claudican milongueras pretensiones
se te ha entrado muy adentro en el pobre corazón.


 


Nada debo agradecerte, mano a mano hemos quedado,
no me importa lo que has hecho, lo que hacés ni lo que harás;
los favores recibidos creo habértelos pagado
y si alguna deuda chica sin querer se había olvidado
en la cuenta del otario que tenés se la cargás.


 


Mientras tanto, que tus triunfos, pobres triunfos pasajeros,
sean una larga fila de riquezas y placer;
que el bacán que te acamala tenga pesos duraderos
que te abrás en las paradas con cafishios milongueros
y que digan los muchachos: “Es una buena mujer”.


 


Y mañana cuando seas deslocado mueble viejo
y no tengas esperanzas en el pobre corazón
si precisás una ayuda, si te hace falta un consejo
acordate de este amigo que ha de jugarse el pellejo
p’ayudarte en lo que pueda cuando llegue la ocasión.


 


Carlos Gardel


 

Intervalo


 


 


Intervalo feito de mar e bruma. O ruído acalma e os olhos enchem-se de azul e brilho. Pausa e asas, sinto-me leve. Ao meu lado passam rodas, pernas esforçadas, cabelos molhados de suor, óculos escuros, mochilas às costas, garrafas de água nas mãos cansadas.


 


Aos pares ou isoladas, gente que conversa, que ouve música, que fotografa, que observa, que pesca. Gente do lado verde da vida.


16 fevereiro 2011

Que se arrasta


George Bellows: New-York 


 


 


I.
Às portas da cidade, entre
os passos da chuva e o bramir
da multidão, correm os olhos. É mais
o ruído das vozes interiores, o rodopiar
de sentidos entre os dedos, que o coro
anónimo que se arrasta de gente.



II.
Dói-me a tua mão que falta
o ardor do exacto local
onde não estás.



III.
Perfeição de músculo, câmaras de entrada
e de saída, sem refluxos
nem arritmias. Já nem de corda
mas digital, corações
automáticos. Espero transplante
cerebral.


13 fevereiro 2011

O concerto


  


Não percam. Está ainda no Fonte Nova e no El Corte Inglés.


 


Entretanto, ouçam o concerto para violino Op. 35, de Tchaikovsky, por David Oistrakh.


 









Amarrotar

 



João Jacinto


 


Gosto de escavar na voz interior, no meu interior, não das vísceras a que ligamos a humanidade, mas da única víscera que nos faz aprofundar a úlcera dos sentidos, aquela víscera que nos sabe a medo e a sublime, que nos assusta e nos impele para o âmago do animal.


 


Todos os gestos analiso e questiono e repenso e refaço, mas nunca de forma a transformar o acto mental em físico, como se uma atadura, uma armadura me tolhesse e espartilhasse os movimentos. Só me movo por dentro do cérebro, em viagens indistintas, amálgamas de sonhos, antecipações ou ruminações de passados mais ou menos presentes. Mole e pesado corpo numa vívida componente de sinapses, água e electrólitos, uma electricidade que não detona qualquer bomba.


 


Vou amarfanhando os papéis que, ao longo das horas, começo a escrever dentro da minha pele, sem nervos nem músculos. Quando me deito e aguardo pelo bem-vindo apagamento, amarroto o que restou do dia e deito-o para o buraco negro da noite.


12 fevereiro 2011

Junto ao rio


Bordalo II


 


Manhã junto ao rio, lisa


branca macia, como a folha


em que se projectam dores


ou tédio, como o início de um poema


o ensaio de um grito, como um frémito de beijo.


Afirma-se e desmente-se

 


Como disse há alguns dias, era necessário saber ao certo o que se tinha passado no dia das eleições, para que se apurassem responsabilidades e se percebesse se teria havido possíveis implicações nos resultados eleitorais.


 


Após a prestação do Ministro Rui Pereira na Assembleia da República e do desmentido do ex-Director-Geral da Administração Interna, a confusão é ainda maior. No relatório encomendado pelo Ministro fica a saber-se que 770.000 eleitores deveriam ter recebido uma notificação sobre a mudança do número de eleitor e do local de votação. Ou seja, setecentos e setenta mil eleitores podem ter ficado sem votar.


 


É claro que considero que os eleitores também são responsáveis por não se terem informado. A verdade é que todos achamos que os outros são sempre responsáveis por aquilo que nos diz respeito a nós. Mas isso não pode apagar as responsabilidades do Ministério como um todo e do próprio Ministro em particular. E este novelo em que se está a transformar o relatório, as explicações e os desmentidos, é degradante. O Ministro deveria pedir a demissão.


 


Como disse ontem Correia de Campos, se Rui Pereira se tivesse demitido no próprio dia das eleições, era um herói, assim coloca-se, a ele e ao governo, numa situação cada vez mais desconfortável.


 

Da falta de censura ao disparate

 


Se alguma vez alguém teve a leve esperança que o BE pudesse ser uma força política para apoiar ou incluir um governo de esquerda, a apresentação desta moção de censura, com um mês de antecedência e sem qualquer objectivo de derrubar o governo, como José Manuel Pureza reconhece, é a mais disparatada e patética iniciativa de que Francisco Louçã se poderia lembrar.


 


Tão disparatada e patética é a titubeante reacção de Passos coelho que ao contrário de alguns dos seus companheiros de partido, ainda não esclareceu que nunca iria apoiar esta moção de censura.


 

11 fevereiro 2011

Egipto - madrugada esperada


 



 


Hoje há um lugar que nos ocupa os olhos, os ouvidos, a esperança, como aconteceu há 37 anos. Os soldados ao lado do povo.


 


No Egipto é tempo de grande júbilo, de sonho e de utopia.


 


A tomada de poder pelos militares, a dissolução do Parlamento - será que é o verdadeiro início de uma nova era de transição para a democracia? Esperemos que sim. Também por cá experimentámos o extremismo, ultrapassámos o Verão quente de 1975 e vivemos em liberdade e democracia.


 


Já ouvi que hoje caiu o muro de Berlim no mundo árabe. Vamos todos torcer para que assim tenha, de facto, acontecido.



08 fevereiro 2011

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

 


Sou totalmente a favor da obrigatoriedade da prescrição médica por DCI. Mas também sou totalmente contra a possibilidade de alteração da prescrição do médico sem que este o autorize expressamente. A prescrição de um medicamento faz parte do acto médico e só pode ser o médico o responsável. Permitir que se troque um medicamento, seja ele qual for e esteja prescrito da forma que estiver, é uma perversão do acto médico e um perigo para o doente. Por isso, embora o facto do Presidente não ter promulgado o diploma do Governo sobre prescrição de medicamentos ser um facto político que revela o que vai ser este segundo mandato de Cavaco Silva, acho muito bem que o tenha feito.


 


Sou totalmente a favor da obrigatoriedade da prescrição médica electrónica. Não percebo as explicações do Presidente. Mas também penso que é uma medida que foi mal preparada. A maior parte dos médicos que conheço não sabe bem o que fazer a partir de 1 de Março. Os telefones da ACSS não respondem. Não há informações (pelo menos não as encontrei) nos sites da Ordem nem dos Sindicatos Médicos. Encontrei um software gratuito, já certificado pela ACSS, depois de muito procurar na internet.


 


Não entendo porque é que o governo insiste em implementar tão mal medidas que, à partida, são correctíssimas. Parece-me demasiada, a incompetência.


 

07 fevereiro 2011

FMI ao fundo

 


Após a omnipresença do FMI nas conversas, nas ameaças e nas promessas de responsabilização do governo pela sua mais que certa entrada em Portugal, qual potência invasora, desapareceu quase instantaneamente. O FMI volatilizou-se da preocupação de Pedro Passos Coelho e de todos os economistas, comentadores e astrólogos encartados.


 


Obviamente que, desaparecida esta desculpa, haverá certamente outra. Por isso é necessário rapidamente desapear Sócrates, nem que signifique o PCP viabilizar uma moção de censura do PSD/CDS, ou o PSD/CDS viabilizar uma moção de censura do PCP.


 


Entretanto Ana Benavente voltou das brumas para - encabeçar uma lista alternativa a Sócrates? Será ela?


 

06 fevereiro 2011

Rios escuros

 



 João Jacinto 


 


Dias perdidos de plenitude


horas longas e vagarosas


desmanchadas em neblina


rios escuros correm ao lado.


 


Vemos passar a vida e perguntamos


porque não passamos nós pela vida.


Foyle's War


 


Foyle’s War é uma série policial britânica que passou num dos canais televisivos a horas impróprias. Alguém que de mim gosta e que por mim vela, sabendo do meu gosto por histórias de crimes, ofereceu-me, num Natal longínquo, a colecção completa. Por um motivo ou por outro, ficou adormecida durante muitos meses. Quando vi o primeiro episódio fiquei rendida.


 


Christopher Foyle é Detective Chief Superintendent da Polícia de Hastings, perto de Londres, em pela II Guerra Mundial. Pede várias vezes para que o autorizem a colaborar no esforço da Guerra, mas os seus superiores decidem que Foyle é muito mais útil no seu posto. Contra vontade, Christopher Foyle passa a Guerra resolvendo homicídios, casos de sabotagem e roubo, de cobardes e heróis, de paixões e ganância, assistindo às arriscadas missões do seu filho, Andrew Foyle, piloto da RAF.


 


Com ele estão o Detective Sergeant Paul Milner, após ferimentos em combate, e Sam (Samantha) Stuart, filha e sobrinha de numerosos Vigários, contribuindo patrioticamente como motorista de Foyle.


 


Britânica até à medula, no rigor dos detalhes, na contenção e realismo das personagens, na excelência dos argumentos e dos diálogos, é uma série que aproveita, em cada episódio, casos verídicos em que baseia a trama. Anthony Horowitz, o autor, também adáptou várias histórias de Agatha Christie.


 


 



05 fevereiro 2011

Hipertensão arterial


 


É oficial: abriu a idade pesada, a meia-idade, a fase descendente, o início da decrepitude, da velhice, do depauperamento. Cabeça de chumbo, forma compacta, andar bamboleante, subir escadas a arfar, palpitações, trabalho, trabalho, trabalho, o corpo em forma de assento, óculos para ver ao longe, óculos para ver ao perto, enfim, todos os ingredientes para ter que assumir que já não chega a automedicação.


 


E lá está – a hipertensão arterial. Imagina as artérias a estreitarem-se e a enrijarem, com as elásticas interna e externa a perderem a elasticidade, o coração a aumentar para conseguir bombear a mesma quantidade de sangue, para todas as ínfimas partes de um corpo cuja superfície vai alastrando.


 


É preciso andar a pé, faça chuva ou faça sol, cedo ou tarde, com frio ou com calor. É preciso comer mais vezes durante o dia, fruta e fibras, yogurts e água. É preciso ver os açúcares, as gorduras, o estado do fígado, dos rins, dos vasos. São precisas análises e ecografias e electrocardiogramas. É preciso render-se ao comprimido diário.


 


Podia ser pior. Podia ter joanetes, hemorróidas, pés de galinha e próteses dentárias. Podia ter que comprar sapatos Dr. Scholl e usar super corega.


Perímetro de segurança.

 


Pesquisei através do Google e fui ao site do PS para tentar ler ou ouvir a totalidade da proposta de Jorge Lacão, pois a única coisa que as televisões, jornais e blogues comentam é a sua obsessão em reduzir deputados. Como de costume, já as vozes de José Lello e Vitalino Canas mataram qualquer hipótese de discutir seriamente quaisquer ideias sobre constituição da Assembleia da República, alteração dos círculos eleitorais, representatividade dos cidadãos, etc.


 


Aguardo também a clarificação política (ideológica) no PS, a que apela José Sócrates. De clareza o PS anda muito afastado, tendo a crise chegado à vontade de arriscar, ao assumir das divergências e ao genuíno combate democrático. Ana Gomes, António José Seguro, Sérgio Sousa Pinto, Helena Roseta, Manuel Maria Carrilho tiveram muitas e graves discordâncias com esta equipa dirigente. Será que vão corporizar alguma alternativa à liderança de José Sócrates?


 

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...