Passou o dia 1 de Maio, aquele dia em que ninguém devia esquecer-se de reparar. Porque é o dia em que se eleva à dignidade não o trabalho, mas o trabalhador.
Na sociedade ocidental e ocidentalizada, num país como Portugal, o trabalho deixou quase definitivamente de ser uma componente essencial da vida. O trabalho é olhado hoje como uma inevitável cruz que nos permite auferir um ganho que nos financie o prazer. O trabalho deixou de ser considerado uma fonte de realização pessoal e uma contribuição para a vida em sociedade.
A esta escala de valores associa-se uma voragem económica que tudo suga, um apelo ao consumo e ao crédito, a melopeia do facilitismo, a ausência de exigência. Palavras como motivação ganham contornos quase absurdos, quando a elas se recorre para justificar negligência e incompetência, falta de assiduidade, pontualidade e empenhamento. O alcance da perfeição, por muito inatingível que esta seja, não faz sentido quando se fala de trabalho.
E no entanto, há uma enorme massa humana que abdica diariamente dos direitos mais básicos, da sua dignidade intrínseca e individual, assim como da sua dignidade como grupo solidário, para mendigar as migalhas de um trabalho sem condições, mal remunerado, sem regras nem fiscalização, que transformam a fome e o isolamento em escravatura. E isso passa-se nos países da Europa que contratam mão-de-obra imigrante africana, que separam famílias, que tratam os seus semelhantes como animais de carga.
Enquanto assistimos à marcha daqueles que têm emprego, ouvimos as reivindicações de um movimento sindical que perdeu de vista as novas revoluções tecnológicas e sociais, que se entrincheirou num tempo que já não existe, que esquece aqueles que não conseguem aceder ao mercado de trabalho, que não se preocupa com o mérito, com a competência, com objectivos de excelência mas apenas com os direitos adquiridos, que fala dos desempregados mas apenas defende corporativamente os seus cada vez menos associados.
Inevitavelmente continuamos esta marcha de aprofundamento das desigualdades sociais, do aumento da mancha dos arredados do sistema, do desaparecimento dos direitos de todos e da relativização de valores de solidariedade e coesão social.
Adenda: vale a pena reler este texto da Clara Ferreira Alves.
Uma excelente caracterização do actual momento do Sindicalismo em Portugal.
ResponderEliminarE sublinho, transcrevendo:
".....que perdeu de vista as novas revoluções tecnológicas e sociais, que se entrincheirou num tempo que já não existe, que esquece aqueles que não conseguem aceder ao mercado de trabalho, que não se preocupa com o mérito, com a competência, com objectivos de excelência mas apenas com os direitos adquiridos, que fala dos desempregados mas apenas defende corporativamente os seus cada vez menos associados".
Mas depois voltarei "aos direitos adquiridos", que nada têm de absoluto, mas só reflectem uma dada "correlação de forças" momentanea e circunstancial.
Cordiais e Afáveis Saudações Democráticas, Republicanas e Socialistas
Acácio Lima
Muito simpesmente: De acordo.
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ResponderEliminarprecisamos de alterar o paradigma, sob pena de recuarmos seculos e liquidarmos toda a progressao no sentido da dignificaçao do ser humano no trabalho ,na familia,na sociedade.
aceitarmos , por exemplo, a precariedade nos sectores da populaçao mais expostos a exploraçao,parecendo o contrario, e' o primeiro passo no sentido da desumanizaçao e do lucro mais rapido a favor dos mesmos. o trb. e' seleccionado,qdo e' admitido... quando nao convem passa a ser uma besta que de da' ao luxo de nao querer
ser despedido.!
POR MOTIVO DE INSOLENCIA E PREGUIÇA,SIM,POR TODOS OS OUTROS,NAO!
ESTAMOS NUM PLANO INCLINADO,COM PROGRESSOS SEMANAIS...
Pois, belos tempos da ceifa no Alentejo! Ali debaixo de 40º, a pão e azeitonas de sol a sol pela realização pessoal.
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