20 maio 2010

O perigo da demagogia

 


Um dos assíduos comentadores deste blogue chamou a minha atenção para uma notícia do Público: BE quer dar aos doentes "direito de optar livremente" por genéricos.


 


Já aqui defendi, por diversas vezes, que as receitas deveriam ser por denominação comum internacional (DCI), ou seja, os medicamentos deveriam ser prescritos por princípio activo, nas doses e duração da terapêutica que o médico entender, de acordo com a doença e o doente em causa. Se fosse essa a opção, a farmácia poderia dispensar qualquer medicamento que incluísse o princípio activo do medicamento, de acordo até com a escolha do doente.


 


Neste momento as receitas contemplam a hipótese de o médico autorizar a substituição do medicamento de marca que prescreve por outro qualquer genérico. Caso o médico não autorize essa troca, nem o farmacêutico nem o doente deverão escolher um genérico, mesmo que concluam que é semelhante.


 


Por uma simples razão - a responsabilidade de quem medica é do médico. A escolha da terapêutica é feita no acto da consulta, em que o doente e o médico têm oportunidade para conversar sobre a medicação mais adequada. Caso esse medicamento seja substituído sem a autorização do médico, está subvertida a relação de confiança entre doente e médico.


 


Em último caso a decisão de tomar um medicamento, seja ele qual for, ou de seguir uma qualquer terapêutica, seja ela qual for, é sempre do doente. Nada é feito (exames complementares, actos cirúrgicos ou toma de medicamentos) sem o consentimento esclarecido do doente. Faz parte do acto médico a explicação ao doente da patologia que o aflige, do tratamento possível e do prognóstico provável.


 


A racionalização dos recursos não pode ser feita à custa do esvaziamento do acto médico, que coloca em perigo o próprio doente. A prescrição por DCI é aquilo que mais fácil e seguramente pode reduzir o enorme custo de medicamentos.

3 comentários:

  1. ACÁCIO LIMA23:14

    COMENTÁRIO AO POST DE SOFIA LOUREIRO DOS SANTOS- "O PERIGO DA DEMAGOGIA"-

    01- Sublinho:

    - A responsabilidade de quem medica é do médico
    - A subversão da relação de confiança entre entre doente e médico é inaceitável
    - O doente é sempre livre de se tratar ou de não se tratar. É um direito seu, inalienável. O usufruir, de pleno, o uso do seu corpo e da seu pensamento- mente
    - O acto médico, em circunstância alguma, deve ser desvalorizado, nem ferido na sua dignidade.

    02- É claro, que a um leigo, é difícil e desaconselhável, entrar “em cavalarias altas”, sobre o exercício da medicina.
    Mas restam-me algumas dúvidas, um eufemismo, sobre a “exclusividade” que vai sendo conferida ao chamado “princípio activo”, caracterizador do medicamento e da prescrição. Eu, um leigo, diferencio bem as duas situações da médica/médico me prescreverem um medicamento com “libertação modificada” ou um medicamento, com o mesmo “princípio activo”, mas onde não conste que seja de “libertação modificada”.

    03- Sempre achei simplista, o argumentário usado na promoção dos “Genéricos”, repousando exclusivamente no “princípio activo”. É que a “galénica” parece ter uma palavra a dizer nestas coisas.

    04- Mas há outra vertente, que terá de ser esgrimida. Comecei a minha vida profissinal no mar das questões da Qualidade, inspeccionando munições e decidindo se eram “Satisfatórias” ou “Não Satisfatórias”.

    O “Tudo” ou “Nada”.

    O “Passa” ou “Não Passa”.

    As questões da Qualidade, da Verificação da Qualidade, do Controlo da Qualidade, da Segurança da Qualidade, sempre estiveram presente na minha vida profissional, mesmo quando passei para o Projecto, para a Produção, para os Aprovisionamentos, para o Técnico-Comercial, e depois para a Gestão-tout court.
    Daí que não possa deixar de anotar, que, na promoção dos “Genéricos”, as questões da Qualidade, foram tratadas “pela rama”.

    05- Devo voltar à notícia do “Público, citada.

    Devo concluir que a “perspectiva” anunciada pelo Bloco, “NÃO PASSA” no CRIVO do post da AUTORA, tal como ela se exprimiu, e eu fiz a sua leitura, nem no meu.

    Cordiais, Afáveis e Amistosas Saudações Democráticas, Republicanas e Socialistas
    de

    ACÁCIO LIMA

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  2. E o mais estranho é o facto de a proposta ter partido de um médico.
    Abraço

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  3. 1 . Se abstrairmos de interesses laterais,é incontestável que NO SNS(porque há UM TERCEIRO ENVOLVIDO,o ESTADO...)deve ser seguida a DESIGNAÇÃO COMUM INTERNACINAL.A escolha de um medicamento específico DEVE SER A EXCEPÇÃO,e devidamente AVERBADA.
    2 . Houve,à portuguesa,um meio termo,ou seja,a possibilidade de receitar um "genérico de marca"...Com consequências LOGÍSTICAS para as farmácias,que me abstenho de explicar.
    a . Resumindo :salvo casos isolados,DEVIDAMENTE JUSTIFICADOS,ainda que de forma CODIFICADA,deve o médico (Do SNS-Princípio do 3ºenvolvido...)receitar pela molécula(DCI.)
    b . As farmácias terão de ter apenas os genéricos que escolherem como melhores.Aconselharão os doentes.

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