06 fevereiro 2010

Do desalento

 



 


É difícil escrever sobre os recentes acontecimentos e a noção que tenho de democracia. Estou definitivamente fora de moda.


 


No ingénuo e desacreditado princípio que acreditava ser a base dos estados democráticos, o poder deveria ser exercido pelos representantes do povo, livremente escolhidos; nessa minha utópica ideia, o poder judicial seria independente do político; supremo engano, o jornalismo seria um baluarte da defesa dos princípios da verdade e da informação.


 


Olho para o nosso país e o desalento é tão grande que nem sei o que pensar. O jornalismo está ao serviço das várias forças partidárias e dos vários poderes. Serve para veicular histórias, independentemente da sua veracidade, que são usadas para manipular politicamente os cidadãos. A justiça é uma farsa, usando-se casos em segredo, escutas ilegais, destruindo tudo o que são alicerces dos direitos dos cidadãos, como o de serem investigados e julgados pelos tribunais e não na praça pública.


 


A caça ao homem é a nova modalidade desportiva das nossas elites políticas. Conspurca-se a palavra carácter, usada indiscriminadamente e sem qualquer adequação.


 


A lei, a justiça, os tribunais, a presunção de inocência são lirismos que passaram a ser arcaísmos. Calúnia, difamação, escutas ilegais, devassa da privacidade, promiscuidade entre os media e os meios judiciais, são o novo paradigma deste presente que, não só de forma Orwelliana mas também Philipiana, não olham a meios para atingir quaisquer fins, bastando lançar as suspeitas de intenções malignas sem necessidade de prova ou demonstração de que essas intenções estão em concretização.


 


A coberto da liberdade de informação, esse direito constitucional inalienável nos estados democráticos, esqueceram-se todos os outros direitos constitucionais inalienáveis, como os direitos liberdades e garantias dos cidadãos, nomeadamente o de confiarem na justiça.


 


Nota: Vale a pena ler Pedro Adão e Silva, Daniel Oliveira, Pedro Marques Lopes e Francisco Proença de Carvalho.





 

4 comentários:

  1. Cara Sofia

    Estava à espera deste post. Só que hoje o meu desalento vai ainda mais longe.
    :)

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  2. Diz bem: Do desalento, mas também da preocupação, seja qual for a verdade ou a mentira, já que qualquer delas é inquietante.
    Por mim não tenho certezas, apenas interrogações e receios, que não calo.

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  3. ACÁCIO LIMA20:22

    COMENTÁRIO AO POST "DO DESALENTO" DE SOFIA LOUREIRO DOS SANTOS

    O “desalento” é um “estado de espírito”, um “estado de alma”, ou é uma “pausa” para se escolher o “bom atalho”, pois o rumo está claramente delineado?

    Esperamos pelo Seu contributo para a escolha do “bom atalho”.


    A guerra está declarada.

    É sempre mais fácil “declarar a guerra” do que “assinar a paz”.

    Da guerra, só por excepção se foge, tal como da prisão, também, só por excepção se consegue fugir.


    Tudo o que refere é bem recortado.

    Mas eu, teria escolhido outro, de um dos citados, que não aquele que escreveu, e passo a citar:

    “Não tenho apreço pelo valor “liberdade de expressão” (deixo essas merdas de “valores” para o “arrastão”). Creio que a liberdade de expressão é também a liberdade de exploração do mundo do trabalho e dos trabalhadores (Lénine, Que Fazer?). Defendo Mário Crespo por uma razão mais simples: porque, sobre J Sócrates, escreveu vários textos que eu gostaria de ter escrito.”
    De uma caricatura que dá pelo nome de Carlos Vidal.
    Fico contente pela clareza. Deixo aqui a minha: “Não tenho apreço por o que escreve Mário Crespo (deixo isso para o senhor Vidal). Defendo Mário Crespo por uma razão mais simples: por causa da mesma merda de valores que me fariam defender Carlos Vidal. E apesar de saber que, se ele pudesse, mandaria calar aqueles que não escrevem o que ele gostaria de ter escrito.”


    Não pode haver contemporizações com a porqueira do Crespo, “roubando” a Valupi, o termo porqueira.

    A “coligação negativa” faz o seu percurso, e mata, aos poucos, o Estado Providência, estrangulando-o financeiramente.

    Foi o Código Contributivo, foi o Acordo com os Docentes, e é agora este estender a mão a Alberto João Jardim. Um homem do antigamente, feito aliado dos Maximalistas, e isto numa postura stalinista, de os fins justificarem qualquer meio, qualquer aliado.

    É a guerra, e cá estamos para a viver e para nela intervir, alistando-nos como VOLUNTÁRIOS.

    Cordiais e Afáveis Saudações Democráticas e Republicanas

    ACÁCIO LIMA

    PS- Penso, que tomou já a medida profilática, de, pelo menos, espaçar a colaboração no blog “A Regra do Jogo”, esse sim, sem rumo, e pisando o “mau atalho”.

    Um dia voltarei a esse tema. Mas avanço já, que a questão reside em se ter feito um “Balanço Estatistico” do SIMPLEX, em vez de um “Balanço Histórico”.

    Quanto me apercebi, Carlos Santos fez o tal “Balanço Estatistico” mas não o “Histórico”, onde teria de anotar que o PS não ganhou, e que a mensagem da justeza e da excelência das Reformas do 1º Governo Sócrates, do Partido Socialista, não passou para o grande público. O “Histórico” fixa-se em Objectivos, atingidos ou não, e não em número de intervenções. Aí, mera estatistica.

    Tudo depende das pessoas.

    “Cada macaco no seu galho”.
    O galho de Carlos Santos foi o da Estatistica, que não o da História.

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    Respostas
    1. Acácio Lima

      Obrigada pelo seu comentário.
      Devo esclarecê-lo de que já não colaboro com o blogue A Regra do Jogo desde 24 de Janeiro (http://aregradojogo.blogs.sapo.pt/397629.html).

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