30 julho 2009

O direito de receber

A propósito da entrevista dada pelo Presidente do Instituto Português do Sangue, na sequência das notícias veiculadas a 17 de Julho pelos meios de comunicação, acendeu-se de novo a polémica à volta dos critérios de exclusão de dadores de sangue.


 


A transformação deste assunto em problema político, em bandeira de defesa dos direitos dos homossexuais, acusando o Instituto Português de Sangue e o seu responsável de homofobia, exigindo a sua demissão, é uma forma totalmente desfocada de olhar para a realidade.


 


Não se trata de discriminação dos comportamentos ou das escolhas de orientação sexual, trata-se de usar os meios aos dispor da comunidade científica para a redução máxima do risco de um acto médico, que tem sempre riscos, por mínimos que sejam.


 


A existência de critérios de exclusão é um meio de assegurar a quem necessita de transfusões sanguíneas o menor risco possível de contaminação por agentes infecciosos: HIV, HCV, HBC, HHV-8, HHV-2, priões, etc. Existem grupos nacionais e internacionais que analisam os vários contributos científicos em cada área, as consequências para a população, éticas, sociais e de saúde pública, e definem orientações (guidelines)  para cada caso.


 


Podem consultar-se as guidelines da Cruz Vermelha Americana que estipulam as várias circunstâncias em que as pessoas não devem doar sangue. Por exemplo qualquer pessoa que tenha recebido um transplante de dura-mater (membrana que cobre o cérebro) ou hormona de crescimento não pode dar sangue; os familiares em primeiro grau de uma pessoa com a doença de Creutzfeld-Jacob não podem dar sangue; em relação ao risco de HIV/SIDA diz o seguinte:




You should not give blood if you have AIDS or have ever had a positive HIV test, or if you have done something that puts you at risk for becoming infected with HIV.




You are at risk for getting infected if you:





- have ever used needles to take drugs, steroids, or anything not prescribed by your doctor


- are a male who has had sexual contact with another male, even once, since 1977

- have ever taken money, drugs or other payment for sex since 1977

- have had sexual contact in the past 12 months with anyone described above

- received clotting factor concentrates for a bleeding disorder such as hemophilia

- were born in, or lived in, Cameroon, Central African Republic, Chad, Congo, Equatorial Guinea,Gabon, Niger, or Nigeria, since 1977.

- since 1977, received a blood transfusion or medical treatment with a blood product in any of these countries, or

- had sex with anyone who, since 1977, was born in or lived in any of these countries.


 


Pode também consultar-se o Annual Meeting de 2008 da American Medical Association (AMA) - REPORTS OF THE COUNCIL ON SCIENCE AND PUBLIC HEALTH – que (páginas 421 e 428) faz uma revisão das guidelines actuais:

 


CONCLUSIONS (pág. 426)




Men who have had sex with men since 1977 are currently permanently deferred from blood donation. This FDA policy recommendation has generated controversy due concerns that it may be discriminatory and that it stigmatizes the MSM population. It is clear that a policy change with respect to blood donation deferral is a risk management decision wherein the risks of ntroducing additional infected units for transfusion over the current residual risk must be alanced against the benefits of increasing the pool of blood donors. Also important are ethical and societal factors, which this report does not address. Any policy decision on blood donation deferral of the MSM population must be governed by the best available scientific evidence but there are inherent weaknesses in mathemathical models used in the risk assessments on this issue that continue to generate some uncertainty. With respect to the MSM population, it appears that a policy change from a permanent lifetime deferral to a 5-year deferral following the last MSM contact may be supportable, but societal and ethical consequences must be analyzed should this decision be advanced. Such an analysis should include discussion of what society would consider acceptable risk with respect to safety of the blood supply, as that will determine to what extent a precautionary principle must be factored into any policy decision. Finally, should such a policy change occur, blood collection agencies must be marshaled to collect data that will provide actual data for future risk assessments to improve decision-making on this issue.




RECOMMENDATION (pág. 427)

The Council on Science and Public Health recommends that the following statement be adopted in lieu of Resolution 515 (A-07), and that the remainder of this report be filed:


That our American Medical Association (AMA) recognize that based on existing scientific evidence and risk assessment models, a shift to a 5-year deferral policy for blood donation from men who have sex with men is supportable.


 


Há ainda uma directiva da União Europeia (EC Directive 2004/33) que, no anexo III, define quem está permanentemente excluído de doar sangue:


 


Persons whose sexual behaviour puts them at high risk of acquiring severe infectious diseases that can be transmitted by blood.


 


Em Março de 2008 o Conselho Europeu produziu a Resolution on Donor Responsibility and Limitations of the Right to Donate Blood or its Components - Resolution CM/Res (2008)5 - que conclui que:


 


(...) the fundamental right of the patient to receive the safest possible blood overrides all other considerations, including individuals’ willingness to donate blood. This resolution was adopted by all Member States. (...)


 


Nesse mesmo documento existe uma tabela com os Estados membros que seguem o critério de exclusão de homens que têm sexo com homens (MSM) e os que não seguem, quais os motivos e quais as orientações seguidas. De um total de 27 países, 9 não seguem as guidelines (este documento é de Março de 2009).


 



 


Dar sangue não é um direito. O que é um DIREITO e DE TODOS é o de RECEBER SANGUE com a menor probabilidade possível de conter riscos infecciosos. Cabe aos organismos de saúde pública a responsabilidade de garantirem, tanto quanto os conhecimentos científicos o permitam, que quem o recebe está salvaguardado de doenças futuras, directamente relacionadas com a transfusão. Para isto existem critérios científicos que não se devem misturar com activismo político.


 


Nota: também aqui.


 


Adenda (1) (01/08/2009) - os dados e estatísticas nacionais em relação à infecção HIV/SIDA estão no site da Coordenação Nacional para a infecção HIV/SIDA, no separador documentação e informação, Infecção VIH/sida (CVEDT/INSA) - Dados VIH/sida Doc. 140 - A situação em Portugal a 31 de Dezembro de 2008.


 


Adenda (2) (01/08/2009) - usando os dados do INSA, Infecção VIH/SIDA (doc. 140), actualizados a 31/12/2008, os cálculos de incidência (em 2008) e de prevalência (de 1983 a 2008), considerando a existência de 7,5% de população homossexual (feminina e masculina) e/ou bissexual (média das referências nas sociedades ocidentais – 2 a 13%) os valores encontrados são:



  • Incidência (2008) - 6 por 100.000 habitantes na população homo/bissexual e 3 por 100.000 habitantes na população heterossexual

  • Prevalência (1983/2008) – 256 por 100.000 habitantes na população homo/bissexual e 130 por 100.000 habitantes na população heterossexual


Ou seja, existe o dobro da prevalência e da incidência da infecção VIH/SIDA na população homossexual/bissexual quando se compara com a população heterossexual.


 









Mas se considerarmos as percentagens estimadas da população homo/bissexual (2,2%) num trabalho do ICS, coordenado pelos investigadores Manuel Villaverde Cabral e Pedro Moura Ferreira, do qual fizeram parte Sofia Aboim, Duarte Vilar, Alexandre Lourenço e Raquel Lucas (já citado anteriormente), apresentado em Maio do ano passado no auditório do ICS,  com debate integrado por várias personalidades, entre as quais Miguel Vale de Almeida, a prevalência seria 874 por 100.000 e a incidência 21 por 100.000 habitantes, 7 vezes superiores aos da população heterossexual.


 


E estamos apenas a falar da infecção VIH/SIDA. Faltam as hepatites (B, C, D, …), os Herpes Vírus (HHV-8 e HHV-2), etc.


 


Adenda (3) (02/08/2009) - Agradeço à Ana Matos Pires a  chamada de atenção em relação à incorrecção da adenda 2, já corrigida, que dava como co-autor do trabalho do ICS Miguel Vale de Almeida. Aos autores e ao Miguel Vale de Almeida peço desculpa pelo erro.


 





11 comentários:

  1. Olga Magalhães23:39

    Permita-me apenas um brevíssimo comentário: como refere a EC Directive 2004/33, o que está em causa são os comportamentos de risco, qualquer que seja a orientação sexual das pessoas. A discriminação resulta, do meu ponto de vista, da exclusão, por princípio, dos homossexuais masculinos, não cuidando de saber têm ou não comportamentos de risco. Porque geralmente concordo consigo, não poderia, desta vez, deixar de discordar.

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    1. É verdade, a nomenclatura usada é MSM Men who have Sex with Men ). Na Resolution on Donor Responsibility and Limitations of the Right to Donate Blood or its Components - Resolution CM Res (2008)5", que todos os estados membros assinaram, embora não fale de homossexuais, adopta a norma que exclui permanentemente os MSM de doar sangue. Existem estudos científicos que apontam para uma redução da proibição para um período de 5 anos.

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    2. Duho Puky16:32

      Desculpe, mas a resolução que cita (Resolution CM/Res(2008)5 on donor responsibility and on limitation to donation of blood and blood components) não adopta nenhuma norma que exclua os homens que têm sexo com homens (men who have sex with men, MSM, em inglês) de doar sangue. Apenas realça, entre outras coisas, que o direito de um paciente a receber uma doação segura sobrepõem-se a qualquer outra consideração, incluindo o desejo de uma pessoa em doar.

      A resolução pode ser lida em:https://wcd.coe.int/ViewDoc.jsp?id=1262019&Site=COE&BackColorInternet=DBDCF2&BackColorIntranet=FDC864&BackColorLogged=FDC864

      Note-se que a Espanha subscreveu essa resolução do Conselho da Europa, mas no entanto não exclui os homens que têm sexo com homens da doação de sangue.

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  2. paulo santiago23:55

    Sou dador de sangue há muitos anos.
    Aí há uns quatro anos,fui fazer uma dávida ao IPS
    de Coimbra,disseram-me que não o podia fazer visto
    a última colheita ter acusado sífilis...fiquei chocado...
    tiraram-me uns c.c. para nova análise....voltou a
    acusar sífilis.Fiquei meio"passado"argumentando que
    a minha mulher,também dadora,não acusava tal
    maleita.Diziam, os do IPS,que por eu apresentar
    aqueles resultados,não significava que o transmitisse
    à minha parceira,mas o sangue estava contaminado.
    Fui insistindo várias vezes,resultados idênticos,até
    que um dos médicos escreve uma carta pedindo ao
    meu médico de família para fazer uma determinada
    análise.Deu negativo...voltei a ser dador de pleno
    direito.Em Abril/08,houve mais uma colheita de sangue
    aqui na aldeia onde fui,começando por preencher o
    formulário que agora é apresentado.Como tinha ido
    no mês anterior à Guiné-Bissau,assinalei no respectivo
    local,a minha deslocação para fora da Europa,donde
    resultou,como sabia,o não poder dar sangue até
    passar um ano.Em Mar/09 voltei a dar.
    Penso,sem qualquer preconceito,que dar sangue é um
    acto de grande responsabilidade,aquele questionário
    que preenchemos,solitáriamente,tem de ser preenchido com verdade sob pena de,com uma
    inverdade que assinalemos,estarmos a cometer um
    crime.
    Acredito que os critérios para dar sangue foram
    determinados por quem sabe,não os discuto,sou um
    leigo nessa matéria,aceito-os.

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    1. Obrigada, Paulo. É mesmo uma questão de responsabilidade e cidadania.

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  3. Bom dia Sofia Santos,
    nem sei bem como aqui vim parar, mas quero aproveitar para deixar um comentário. Eu saliento aquilo que disse Olga Magalhães por ser precisamente isso que está em causa «A discriminação resulta, do meu ponto de vista, da exclusão, por princípio, dos homossexuais masculinos, não cuidando de saber têm ou não comportamentos de risco.» e repare na resposta que deu «embora não fale de homossexuais, adopta a norma que exclui permanentemente os MSM de doar sangue». Repare que se estão a usar os meios aos dispor da comunidade científica para a redução máxima do risco de um acto médico, apenas e somente com base na orientação sexual. O presidente do IPS começa por afirmar que esconder a homossexualidade deveria ser criminalmente processado, para a seguir alegar que «Quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação». Será que toda esta celeuma não terá razão de ser pelas afirmações do senhor Olim?
    Mas veja isto. Imagine um homossexual pretende dar sangue porque o seu companheiro de longa data vai ser operado. Admitindo que ele assume a sua homossexualidade, não por provocação, mas porque quer ser sincero com o questionário e responsável como cidadão, irá certamente ficar impedido de o fazer. Estamos a falar de um casal que não terá comportamentos de risco. Mas também nesse aspecto, o senhor Olim fez questão de frisar que «Se a pessoa diz que não teve outro parceiro e o parceiro também garante que não teve outro, a decisão pode ser a de aceitar. Mas a experiência também nos diz que relações que em princípio eram totalmente monogâmicas não são tão monogâmicas assim» (se isto não é discriminar...). Na experiência do senhor Olim, os casais masculinos não são de fiar.
    Agora veja o caso do respeitável chefe de família, que até gosta de ir gastar uns euros à casa de Alterne, onde vai tendo uns contactos mais íntimos, nem sempre de forma protegida. E mesmo com preservativo, o senhor Olim diz que «Há preservativos que se rompem, pode haver fuga de líquidos, outros contactos. Não estamos a dizer que não aceitamos homossexuais, mas que não aceitamos comportamentos de risco.». Ora, o tal chefe de família, que será pessoa idónea perante o entrevistador, porque nem ele confessa a sua vida paralela em casa e muito menos o fará perante um desconhecido, poderá ficar apto a dar sangue. O seu comportamento será reprovável, devendo ser criminalmente processado, mas muito certamente irá dar sangue, apenas porque se assumiu Heterossexual.
    Por vezes, os critérios científicos podem ser discriminatórios e podem estar a precisar de ser alterados. Por vezes, existem pessoas que não são as mais habilitadas para ocuparem determinados cargos, mesmo que possam ser excelentes técnicos. Talvez o único sangue de confiança seja o da Irmãs Carmelitas.
    Termino a agradecer a informação que disponibilizou, pois este tema tem servido para fazer várias pesquisas na Net, no sentido de perceber qual é a realidade noutros países. Já vi que este ‘problema’ não é apenas nacional.

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    1. bluewater68

      Não há possibilidade de assegurar a 100% que qualquer sangue é 100% seguro. Por isso existem critérios de selecção baseados em estudos epidemiológicos e que determinam os critérios de exclusão.

      Gabriel Olim não soube esclarecer a população. Erro dele. Mas isso não tem nada a ver com homofobia.

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  4. Fernando Gomes da Costa13:54

    Como médico e como cidadão concordo plenamente com o post, e gostaria de acrescentar alguns dados:

    Vamos a factos:
    Percentagem de infectados por HIV em Portugal:
    Heterossexuais: 36% dos casos
    Homossexuais (todos masculinos): 12% dos casos
    Toxicodependentes: 46%

    Percentagem de homossexuais masculinos na população geral: 5% (se aceitarmos os dados dos movimentos gay, uma vez que os dados das organizações de saúde são muito inferiores - cerca de metade)

    Ou seja: 12% dos casos de HIV concentram-se em 5% da população -homossexuais, enquanto 36% em 94,5% da população - heterossexuais (e 46% em apenas 0,5% -toxicodependentes).
    Isto que dizer que a taxa de homossexuais infectados com HIV é 6,5 vezes (650%) MAIOR que nos heterossexuais.
    Não é grupo de risco? É comportamento? Então isso quer dizer que os homossexuais são 6,5 vezes mais irresponsáveis que os hetero??
    E quando aparecer a vacina? Se não há grupos de risco os homossexuais e toxicodependentes não devem ser privilegiados???
    É o que dá colocar convicções à frente dos factos.

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    1. Fernando Gomes da Costa, obrigada.
      Onde posso ter acesso a esses dados? Não os encontro na internet.

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  5. Subscrevo inteiramente o seu post. O que faltou, foi um esclarecimento bem feito por quem de direito.

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