A minha primeira reacção às declarações do Cardeal Patriarca foi isso mesmo – primeira e primária.
Achei um disparate atroz o remexer em possíveis feridas de integração e tolerância religiosa, numa altura em que estamos sempre em equilíbrio instável e num país em que a integração dos muçulmanos parece ser bastante boa.
Na verdade, porque é que o Cardeal Patriarca, representante de uma religião monoteísta, com leituras tão fundamentalistas como as que há do Corão, se lembra de alertar as mulheres portuguesas para o perigo de casarem com indivíduos que professam o Islão?
A pouco e pouco, e a coberto das nossas ideias laicas de tolerância e democracia, esquecemos que estamos a condenar manifestações da mais pura e inalienável liberdade de expressão de qualquer pessoa, nomeadamente de um líder religioso que fala para aquelas e aqueles que são religiosos, num mundo ocidentalizado em que é normal discutir opiniões e fazer declarações, por muito que não concordemos com elas.
E de facto, se pusermos de parte a visão idílica que temos de uma sociedade multicultural que respeita os seres humanos enquanto tal, sem olhar a raças, religiões, opções políticas ou sexuais, se ouvirmos aquilo que, precisamente por vivermos em democracia, muitos dos líderes muçulmanos pregam sem qualquer dificuldade, muitas dessas afirmações deviam fazer revoltar-se-nos os estômagos, porque a dignidade humana, a diversidade, a informação e a democracia estão arredadas dessas pregações.
Em relação às mulheres, principalmente, muitas dos países e das comunidades islâmicas olham-nas e tratam-nas como seres que pertencem aos homens, muitas vezes proibidas de procurarem até assistência médica, sujeitas a rituais que nos repugnam, a nós que discutimos as declarações do Cardeal Patriarca.
Será que podemos discutir com a mesma liberdade as interpretações, leituras e leis do Corão, nas sociedades ocidentais que acolhem e tentam preservar as diferenças culturais e religiosas?
O Cardeal Patriarca foi pouco diplomata nas suas afirmações e deveria sê-lo, foi pouco cuidadoso ao deitar achas para uma fogueira que nunca se extingue, mas para além de ter todo o direito de o fazer, até porque fala para os seus fiéis, não terá alguma razão no que diz? E porque temos tanto receio em o admitir?
O Raul Rego não concordaria com nada do que foi escrito. Eu concordo.
ResponderEliminarOnde ele falou era uma assembleia laica e, os cuidados para que alertou, aplicam-se a diferentes CULTURAS (de que as religiões são apenas um elemento). Acho que foi insensato ter referido os muçulmanos (crentes religiosos).
ResponderEliminarInsensato porquê?Porque é que não se podem nomear os muçulmanos?
EliminarMas só os muçulmanos?...
EliminarNão, evidentemente que não.
EliminarLamento que o seu post tenha sido copiado para outro Blog o que só prova falta de ideias a quem o faz. Os Blogues valem pela sua originalidade
ResponderEliminarNão há qualquer problema em citar textos alheios, desde que se destaque que são alheios e qual a autoria deles. Já o fiz muitas vezes.
EliminarJá estava à espera deste post, em especial porque me toca!
ResponderEliminarÉ verdadeiramente de lamentar a opinião do Cardeal Patriarca. Poderia ter sido mais cuidadoso, não o foi, com muita pena. Seja qual for o fundamentalismo, ele é de repudiar, seja para muçulmanos, ou para cristãos. E quantos não são os cristãos que batem nas mulheres? Digamos que a bíblia também não é muito condescendente relativamente ao papel da mulher, que tem que ser submissa ao homem. Encontramos tantas divergências na própria bíblia, a ponto de a mulher ser impedida de exercer certas funções na própria igreja. Mais... na RTP, no dia seguinte, às 7 da manhã, o jornalista veio dizer que tinham tentado contactar quatro mulheres cristãs casadas com muçulmanos, que foram impedidas de falar, só com consentimento do marido!? Onde estão essas mulheres? E o assunto morreu ali. É a televisão pública ao serviço da Igreja!? Poupem-me! Provavelmente, eu serei a excepção à regra... será que estou em sarilhos e não sei?
bj
Clara, é verdade que o fundamentalismo não é atributo do islamismo. Há muitos fundamentalismos. Mas o que a mim me assusta é o facto de não se poder falar exactamente da existência de fundamentalismo islâmico sem que caia o Carmo e a Trindade. Não sou católica e conheço a Bíblia, já li vários estudos sobre o Antigo e o Novo Testamentos. Todos os dias se ouvem pessoas a discordarem do Papa, a rirem dos católicos e das suas crença, a fazerem cartoons, a criticarem. Será que isso acontece nos países que se regem pelo Corão? No nosso tipo de sociedade tudo é discutido e tolerado, mas começa a ser pouco correcto criticar-se as atrocidades que se fazem à luz da leitura fundamentalista do Corão. Concordo que o Cardeal generalizou e deveria ter acautelado essa generalização. Mas a liberdade existe para debater, não para ter receio das reacções de quem não concorda, que é o que vamos deixando acontecer, nomeadamente com as caricaturas de há uns anos atrás, com as condenações de cineastas e de escritores, etc. E é verdade que o Corão é lei em muitos países e que tratam as mulheres de uma forma a que nenhum fundamentalista cristão se atreve, até porque há leis que o considerariam criminoso.
EliminarQuanto à televisão, já me manifestei inúmeras vezes quanto às misturas entre o estado (a RTP é do estado) e a religião. Sou totalmente contra.
:)))
ResponderEliminarExistem outras maneiras de analisar as palavras do Patriarca, mais "politicas" e menos religiosas. Mas claro, valem o que valem e até podem não ir além de divagações.
ResponderEliminarum Cardeal é alguém que pode ser Papa a qualquer momento, logo é alguém em que o tempo de um verbo incorrecto pode ser causa de uma polémica de meses. isso é uma coisa. outra é o facto de ele ter toda a razão naquilo que disse e eu não tenho nenhum receio naquilo que disse.
ResponderEliminarCara Sofia,
ResponderEliminaro cardeal mentiu?! Não.
Para mim, essa é a principal questão, a partir daí disse muito mais coisas e acertadas, mas pelos vistos essas todos se esqueceram de comentar...
O Cardeal é católico, logo é cristão, por isso é natural que contraponha a religião que, não sendo cristã, é a mais castradora no papel que atribui às mulheres, daí que eu entenda não ter havido intenção de segregar, mas apenas acautelar, que é um dos seus papéis.