08 setembro 2008

Riscos


(pintura de Dorata Mytych)


 


Inclino a caneta e risco o papel

única demonstração de carácter

recusando a neutralidade instalada.


 


Mesmo que a caneta não tenha já tinta

totalmente substituída por nervos

reconcilio um pouco a vontade de rasgar

de revolver a terra seca

dentro de mim.

8 comentários:

  1. Sem comentário apenas para não me repetir.
    Beijos

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  2. Cara Sofia,
    à falta de inspiração própria socorro-me do telento alheio, neste caso de terras do Brasil:

    de "Triz"

    AULA DE DESENHO

    "Estou lá onde me invento e me faço:
    De giz é meu traço. De aço, o papel.
    Esboço uma face a régua e compasso:
    É falsa. Desfaço o que fiz.
    Retraço o retrato. Evoco o abstrato
    Faço da sombra minha raiz.
    Farta de mim, afasto-me
    e constato: na arte ou na vida,
    em carne, osso, lápis ou giz
    onde estou não é sempre
    e o que sou é por um triz."

    Maria Esther Maciel

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    1. André Couto

      Esse poema é lindíssimo. Vou procurar mais dessa autora. Obrigada.

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  3. Não será bem terra seca.
    Talvez mais um contemporizado húmus...capaz de potenciar raízes ávidas de nutrientes e agitar os caules e fazer vibrar as folhas num empenho provocador.

    E no fim uma flor.

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    1. Flores a romper da terra seca...
      Também se arranja qualquer coisa sobre isso...

      A Flor e A Náusea


      "Preso à minha classe e a algumas roupas,
      vou de branco pela rua cizenta.
      Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
      Devo seguir até o enjôo?
      Posso, sem armas, revoltar-me?

      Olhos sujos no relógio da torre:
      Não, o tempo não chegou de completa justiça.
      O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
      O tempo pobre, o poeta pobre
      fundem-se no mesmo impasse.

      Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
      Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
      O sol consola os doentes e não os renova.
      As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

      Vomitar este tédio sobre a cidade.
      Quarenta anos e nenhum problema
      resolvido, sequer colocado.
      Nenhuma carta escrita nem recebida.
      Todos os homens voltam pra casa.
      Estão menos livres mas levam jornais
      e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

      Crimes da terra, como perdoá-los?
      Tomei parte em muitos, outros escondi.
      Alguns achei belos, foram publicados.
      Crimes suaves, que ajudam a viver.
      Ração diária de erro, distribuída em casa.
      Os ferozes padeiros do mal.
      Os ferozes leiteiros do mal.

      Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
      Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
      Porém meu ódio é o melhor de mim.
      Com ele me salvo
      e dou a poucos uma esperança mínima.

      Uma flor nasceu na rua!
      Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
      Uma flor ainda desbotada
      ilude a polícia, rompe o asfalto.
      Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
      garanto que uma flor nasceu.

      Sua cor não se percebe.
      Suas pétalas não se abrem.
      Seu nome não está nos livros.
      É feia. Mas é realmente uma flor.

      Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
      e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
      Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
      Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
      É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio."

      Carlos Drummond de Andrade.

      Cumprimentos.

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    2. Mais um excelente poema de um grande poeta.

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    3. Às vezes seca, ávida de água ou de flores.

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