Gosto muito do Zeca Afonso, do José Mário Branco, do Sérgio Godinho. Gosto de Ary dos Santos, de Manuel Alegre, de Sophia de Mello Breyner . Está-nos no sangue e na alma sentirmos emoção e alegria ao evocarmos o 25 de Abril, ao relembrarmos as canções, as manifestações, os quadros de Vieira da Silva – a poesia está na rua – as palavras de ordem, a certeza da realização do impossível. Vivemos a solidariedade, o companheirismo, o “nosso”, o “nunca mais”, a “liberdade”, o “venceremos”, o “juntos”. Vivemos Vasco Gonçalves e Melo Antunes, Álvaro Cunhal e Mário Soares, os Capitães de Abril e Spínola, o PREC , Pinheiro de Azevedo, Ramalho Eanes, o 25 de Novembro, tudo, intensamente.
Passaram 34 anos. Estou 34 anos mais gorda, tenho mais 34 anos de cabelos brancos, ouvi mais 34 anos de canções excelentes, li mais 34 anos de poemas que me formam, vivi mais 34 anos de sonhos, de paixões, de desilusões, de filhos, de vidas, de mortes, de amigos, de traições, de eleições, de manifestações, de computadores, de notícias, de tudo.
Hoje, 34 anos depois do dia 25 de Abril de 1974, embora seja nossa obrigação mostrarmos e ensinarmos às gerações que já nasceram durante este 34 anos o que foi, o que era, o que passou a ser, tal como é nossa obrigação mantermos a ligação com os nossos pais, avós, histórias, passado, daquele que nos orgulhamos e daquele de que nos envergonhamos, não podemos pedir-lhes que sintam o mesmo que nós. Não podemos pedir-lhes que ouçam religiosamente as canções de Abril, que se foram transformando em rituais, ou assistir entusiasmados ao filme Capitães de Abril, que é mau, que não é credível, que não tem ritmo, que mostra criadas e soldados intelectuais de esquerda, ou que assistam aos discursos na Assembleia da República, mais velhos e ultrapassados que os que se ouvem a 5 de Outubro.
A juventude é ignorante em história, em política, em Matemática, em Português, mas sabe muito mais que nós algum dia saberemos de coisas que nem imaginamos que existem. A actuação política dos nossos representantes políticos, as suas mentiras, o seu alheamento da realidade, a nossa falta de interesse na leitura, na conversa, no pensar por nós próprios, no esforço de participar são algumas das explicações para o desinteresse dos nossos filhos pela causa pública.
Não é num dia por ano que lhes vamos ensinar o que não vivemos todos os dias. Não é um Presidente da República que hipoteca a dignidade do seu cargo numa visita protocolar à Madeira, não é um Primeiro-Ministro que não cumpre os compromissos eleitorais, nomeadamente no que diz respeito ao Tratado de Lisboa, não é uma oposição de direita que se digladia e se faz representar por personagens como Alberto João Jardim, Santana Lopes, Luís Filipe Menezes ou Paulo Portas, ou uma oposição de esquerda arcaica, demagógica e anacrónica cujos porta-vozes são Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, não são sindicalistas militantes desde há 34 anos que defendem o mesmo que defendiam em 1975 que lhes dão exemplos de participação cívica.
A cidadania constrói-se todos os dias e dentro das nossas casas, para fazer parte da nossa vida, não em liturgias e avaliações cíclicas e anuais do estado a que isto chegou.
Escreve sempre muito bem. E por isso a admiro. Mas como é que concilia o seu optimismo de ontem ("somos todos filhos da madrugada") com o seu pessimismo de hoje ?
ResponderEliminarNão estou pessimista. E continuarei a comemorar o 25 de Abril entusiasticamente. Mas não gosto de moralismos vácuos de quem tem teve responsabilidades políticas e parece que só agora acordou para um problema. Que é real mas não significa o fim do mundo.
ResponderEliminarExactamente. A história também é... memória de ...curto prazo. Como sempre, lúcida e sem "rodriguinhos". Ainda melhor com uma ponta de ironia.
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Lucidez!
ResponderEliminarÉ isso que a Sofia tem e que, para nosso mal, é um bem escasso...
Obrigado
De uma maneira geral concordo com o seu texto, excepção feita á maneira como tratou a oposição de esquerda, que considero excessiva.
ResponderEliminarSeria bom que não houvesse lugar para liturgias, já que isso significaria que tinhamos o 25 de Abril todos os dias.
Obrigada a todos pelos comentários. Pelos vistos o nosso Presidente Cavaco Silva desceu das nuvens e já lá estava há mais de 20 anos.
ResponderEliminarSofia, gostei imenso deste teu post bem como do anterior e não os considero nada antagónicos. Considero até, poderei estar enganada, que este resulta precisamente do anterior...
ResponderEliminarDisseste tudo aquilo que gostaria de ter dito se para tal tivesse o engenho e/ou a paciência.
Continuo a considerar o 25 de Abril uma data a comemorar; não me posso esquecer que o vivi nas ruas, que me identifiquei e identifico com os valores que lhe estiveram subjacentes e que não consigo sequer descrever o que representou para tantos de nós que, de algum modo, tivemos a consciência do que era viver numa ditadura.
Contudo, ao relancear os olhos por alguns discursos (já não os ouço) e ao observar o panorama político actual, de tristes contornos (quando não anedóticos), tenho alguma dificuldade em manter o optimismo que, como tu sabes, até me é natural.
Confesso que tenho saudades dos tempos em que era crente (ou ingénua?).
Donagata , obrigada. Melhor ou pior esta é a democracia que construímos e que deveremos continuar a construir. E ainda bem que vamos mantendo, nem que seja por momentos pontuais, a nossa ingenuidade. Para ti saudações revolucionárias, pois a revolução está na rua e na nossa atitude.
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ResponderEliminarDe facto a coisa nunca foi fácil
menos fácil
nos momentos mais difíceis
Será que todos fizémos
fazemos tudo
para merecer as memórias
que hoje festejamos?
O desespero dos naufragos
e dos arrependidos
será o melhor caminho?
Não nos arrependeremos do caminho se o caminharmos.
EliminarSofia L.S., excelente texto. Faço-o meu também. :)
ResponderEliminarObrigada.
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