O editorial do Público de ontem, assinado por Manuel Carvalho (não acessível online), é um dos textos mais demagógicos e populistas que tenho lido ultimamente.
Todos os protestos das populações fazem sentido, por isso é que é tão importante capitalizar esses protestos, encaminhar e dar visibilidade quando interessa, neste caso, aos opositores desta política de saúde, que transbordam em muito a lógica partidária.
A reorganização dos serviços de urgência, assim como das maternidades e blocos de parto é absolutamente indispensável, como aliás vêm dizendo, desde há anos, todos os intervenientes no sector, partidos políticos, Presidentes da República, Bastonários da Ordem dos Médicos, etc. Manuel Carvalho acha que por muita objectividade que tenham os números da comissão que estudou o quadro dos encerramentos de serviços, por muita racionalidade que haja nas suas conclusões, a proposta que sai das suas conclusões é típica de burocratas sem ligação à terra, e já tinha afirmado, no mesmo texto que De pouco vale (…) denunciar a evidência dos blocos de partos sem condições e de urgências sem utentes suficientes para garantir a qualidade dos serviços. São pormenores.
Pois esses são os pormenores que contam para quem necessita de cuidados urgentes de saúde ou de atendimento na hora de parir: ter a garantia de que o faz com pessoal qualificado, em boas condições e de segurança. A decisão de quais os serviços a encerrar e quais os serviços a transformar é obviamente política. E se há coisa que tem corrido mal é a gestão política destes assuntos, com grande responsabilidade do Ministro da Saúde.
Mas não se podem defender estudos técnicos para avalizar decisões políticas e chamar burocratas aos que o fazem, quando as suas conclusões não são de molde a servir outro tipo de interesses. Tal como já aconteceu com a co-incineração, tal como está a acontecer com a localização do novo aeroporto.
É indispensável a avaliação destas medidas e da acessibilidade dos doentes aos serviços de referência, a existência, qualidade e prontidão dos serviços de transporte, assegurados pelo INEM ou pelos Bombeiros Voluntários, a existência ou não de pessoal qualificado e em número suficiente. Se calhar, tal como no caso dos fechos das escolas que tanto brado deu há cerca de 1 ano, os autarcas deveriam ter esse cuidado e essa preocupação, em vez de assumir a desprotecção das populações pelo engano de um atendimento que não tem condições para tratar qualquer situação verdadeiramente urgente, e que terá que enviar o doente, com atraso, para o serviço de urgência mais próximo.
As situações que não são urgentes devem ser tratadas em consultas, que devem estar acessíveis nos centros de saúde, ou nas unidades de saúde familiares, em horários que sirvam as populações.
Respondendo ao comentário de JRD num outro post, aos serviços públicos cabe assegurar a existência de saúde para todos, em igualdade de circunstâncias, com a qualidade a que todos têm direito, segundo o estado da arte nas diferentes áreas do conhecimento médico. Para isso se reformam serviços que estão desadaptados e desadequados às alterações das populações em termos de demografia.
A desertificação do interior só será travada se houver políticas de desenvolvimento regional, que crie empregos, trabalho, que prenda as pessoas a um determinado sítio pela possibilidade de aí subsistir. Não é a manutenção de uma escola quase sem alunos, ou de um posto de saúde sem médicos, sem enfermeiros, sem técnicas complementares de diagnóstico e sem doentes que reduz a desertificação. Por isso defendo a regionalização.
O combate político passou dos partidos para os jornais. Não tenho nada contra mas era mais honesto que os jornais assumissem claramente qual a sua orientação política. E, já agora, estudassem os assuntos e fizessem política de verdade.
Todos os protestos das populações fazem sentido, por isso é que é tão importante capitalizar esses protestos, encaminhar e dar visibilidade quando interessa, neste caso, aos opositores desta política de saúde, que transbordam em muito a lógica partidária.
A reorganização dos serviços de urgência, assim como das maternidades e blocos de parto é absolutamente indispensável, como aliás vêm dizendo, desde há anos, todos os intervenientes no sector, partidos políticos, Presidentes da República, Bastonários da Ordem dos Médicos, etc. Manuel Carvalho acha que por muita objectividade que tenham os números da comissão que estudou o quadro dos encerramentos de serviços, por muita racionalidade que haja nas suas conclusões, a proposta que sai das suas conclusões é típica de burocratas sem ligação à terra, e já tinha afirmado, no mesmo texto que De pouco vale (…) denunciar a evidência dos blocos de partos sem condições e de urgências sem utentes suficientes para garantir a qualidade dos serviços. São pormenores.
Pois esses são os pormenores que contam para quem necessita de cuidados urgentes de saúde ou de atendimento na hora de parir: ter a garantia de que o faz com pessoal qualificado, em boas condições e de segurança. A decisão de quais os serviços a encerrar e quais os serviços a transformar é obviamente política. E se há coisa que tem corrido mal é a gestão política destes assuntos, com grande responsabilidade do Ministro da Saúde.
Mas não se podem defender estudos técnicos para avalizar decisões políticas e chamar burocratas aos que o fazem, quando as suas conclusões não são de molde a servir outro tipo de interesses. Tal como já aconteceu com a co-incineração, tal como está a acontecer com a localização do novo aeroporto.
É indispensável a avaliação destas medidas e da acessibilidade dos doentes aos serviços de referência, a existência, qualidade e prontidão dos serviços de transporte, assegurados pelo INEM ou pelos Bombeiros Voluntários, a existência ou não de pessoal qualificado e em número suficiente. Se calhar, tal como no caso dos fechos das escolas que tanto brado deu há cerca de 1 ano, os autarcas deveriam ter esse cuidado e essa preocupação, em vez de assumir a desprotecção das populações pelo engano de um atendimento que não tem condições para tratar qualquer situação verdadeiramente urgente, e que terá que enviar o doente, com atraso, para o serviço de urgência mais próximo.
As situações que não são urgentes devem ser tratadas em consultas, que devem estar acessíveis nos centros de saúde, ou nas unidades de saúde familiares, em horários que sirvam as populações.
Respondendo ao comentário de JRD num outro post, aos serviços públicos cabe assegurar a existência de saúde para todos, em igualdade de circunstâncias, com a qualidade a que todos têm direito, segundo o estado da arte nas diferentes áreas do conhecimento médico. Para isso se reformam serviços que estão desadaptados e desadequados às alterações das populações em termos de demografia.
A desertificação do interior só será travada se houver políticas de desenvolvimento regional, que crie empregos, trabalho, que prenda as pessoas a um determinado sítio pela possibilidade de aí subsistir. Não é a manutenção de uma escola quase sem alunos, ou de um posto de saúde sem médicos, sem enfermeiros, sem técnicas complementares de diagnóstico e sem doentes que reduz a desertificação. Por isso defendo a regionalização.
O combate político passou dos partidos para os jornais. Não tenho nada contra mas era mais honesto que os jornais assumissem claramente qual a sua orientação política. E, já agora, estudassem os assuntos e fizessem política de verdade.
Sofia,
ResponderEliminarPor uma questão de respeito e de bom senso, não me atrevo a discutir assuntos relacionados com a Saúde, com uma especialista.
Mas sempre adianto que: Os burocratas só existem porque o(s) poder(es) nada faz(em) para os neutralizar. É assim nas mais diversas áreas.
Não sou especialista na matéria, o comentário a que alude, decorre, tão só, da minha qualidade de cidadão que ainda conhece casos gritantes de desigualdades e falta de assistência na saúde.
A "nossa" saúde ou falta dela está "sempre" em primeiro lugar. É humano.
Fechar certas escolas e centros de saúde, é uma violência exercida sobre as populações.
Saber de crianças que saem de casa de madrugada para se deslocarem de autocarro a muitos quilómetros de distância ou de pessoas a embarcar numa ambulância para obter cuidados médicos para uma gripe ou uma cólica abdominal é inconcebível.
Basta ir aqui ao lado a Espanha e comparar (Sei do que falo).
Não acredito que não possa ser encontrada uma solução mais adequada para grande parte das situações, basta, talvez, deixar de pensar compulsivamente nas despesas.
O dinheiro (mal) gasto na construção de "estádios e de estudos" já lá vai e não tem retorno.
O quem quer saúde paga-a é um insulto.
Cumprimentos e bom 2008.
JRD, bom ano de 2008. Agradeço-lhe a atenção e os seus comentários aos meus textos.
ResponderEliminarEste assunto é muito sério e muito importante, exactamente porque o que o estado tem que fornecer são serviços públicos de qualidade, nas áreas da saúde, da educação, da justiça e da segurança, por serem essenciais e básicas ao bem estar individual e das sociedades.
As alterações tecnológicas de áreas como a saúde, por exemplo, modificaram em muito as necessidades económicas de sustentabilidade de sistemas de saúde universais e as exigências em cuidados pelos cidadãos, e ainda bem.
As alterações demográficas e de distribuição geográfica das populações alteraram os mapas existentes, mas não foram adequadas as necessidades de serviços públicos, em que se incluem escolas, tribunais, centros de saúde e hospitais. Para essa indispensável adequação se fazem estudos e para isso se redefinem e reorientam organizações, que têm que ser postas ao serviço das populações, por delas precisarem e não para manter o status quo que aproveita ao sistema político/administrativo (nº de deputados por freguesias, concelhos e distritos). Não se deve manter uma situação que se prova que não serve mas que é mais cómodo, politicamente, não mexer.
É preferível investir em transportes rápidos e confortáveis, que recolham as crianças e as levem às escolas bem apetrechadas, com inúmeros professores e alunos, com cantinas e espaços de desporto, ou manter em cada aldeia uma escola com um professor que para lá é destacado, com 2 ou 3 alunos e a funcionar num edifício sem o mínimo de condições?
É preferível ter um SAP junto às populações que não tem possibilidades de tratar uma entorse do pé, pois não tem um aparelho de RX para excluir uma fractura, que não tem análise clínicas sumárias de urgência para despistar um enfarte do miocárdio e que, nas situações que podem significar perigo para o doente, não respondem e recorrem a um serviço hospitalar? Não será preferível ter um serviço de ambulâncias com acompanhamento técnico profissionalizado que possa de imediato conduzir as situações urgentes para onde elas devem ser de facto tratadas? E se as situações se resolvem com consultas não será preferível ter acesso ao mádico de família quando se está doente, em vez de esperar uma semana ou recorrer a uma urgência hospitalar?
Estamos a falar de qualidade e segurança para quem é atendido. Não de ficar mais caro e mais barato. Há números mínimos internacionais aceites por todos os especialistas sem os quais é perigoso manter serviços abertos e profissionais com as capacidades e experiência adequadas à prática da Medicina. Convém que os implementemos na nossa realidade, em todo o país, pois quem está no interior merece os mesmos cuidados que quem mora no litoral.
JRD, vale a pena ler um post noutro blogue sobre este assunto: http://saudesa.blogspot.com/2008/01/sns-requalificao-da-rede-de-atendimento.html
ResponderEliminarCumprimentos.
Agradeço a sua resposta e a sugestão de leitura.
ResponderEliminarQuanto à primeira nada mais posso acrescentar, porque, repito, não sou um especialista e apenas procuro interiorizar os sentimentos das populações que se sentem prejudicadas. Não se trata exactamente de estar ao lado dos "pobrezinhos", apesar de eles existirem mesmo e serem muitos...
No que respeita à segunda, apenas gostaria de dizer que a maioria só quer que lhe continuem a garantir a continuidade do "Oito", melhorando-o se possível, porque sabe que o "Oitenta" é uma falácia, nisto como em quase tudo.
Resumindo: Do ponto de vista formal, nada consigo opor, mas no aspecto moral e ético tenho enormes dúvidas.
Cumprimentos
JRD, para que não fiquem quaisquer dúvidas, sou a favor e defendo acérrimamente um SNS universal e gratuito, assegurado pelo Estado. Moral e eticamente esses são alguns dos princípios e deveres que o estado deve assegurar aos seus cidadãos, todos, por igual. Não defendo o princípio do utilizador pagador nem um SNS para os pobres e outro para os ricos.
ResponderEliminarSofia,
ResponderEliminarQue fique claro que em momento algum duvidei da sua posição sobre o SNS.
À AUTORA DO POST:
ResponderEliminarConfesso, antes de mais, que estou convencido que o MSaúde é um Ministro que quer fazer as coisas bem. Tem essa ambição. Todavia, esta minha crença é demasiado arriscada.
As populações insurgem-se contra estas medidas de reestruturação do SNS porque estão habituadas a serem sempre enganadas pelos sucessivos poderes. Não sei qual a sua área profissional, mas parece-me que o seu Post não foge à demagogiazinha tradicional. Por exemplo: é ou não verdade o que ouvimos nas televisões, quando utentes se queixam de que vão para essas novas unidades centrais, mais apetrechadas, esperar 6 e 7 horas nos corredores para serem atendidas? É ou não verdade (e parece-me que conhece esta área) que o SNS, com todos os benefícios tecnológicos de que dispõe, está mais depressa disponível para assistir casos complicados de doentes com meios económicos oriundos de consultas da saúde privada, passando à frente dos doentes da "vil gente", deixando situações graves em lista de espera?
Acredita que uma ambulância permanente (só uma) vai responder a várias situações urgentes? E se essa ambulância avariar? E se essa ambulância tiver que parar no caminho para assistir um parto que se dá antes de chegar ao destino? O parecer dos técnicos é indispensável, mas tem de ficar sempre condicionado à política; afinal é a política que gere os interesses dos cidadãos: se assim não fosse os governos seriam entregues aos sábios, como dizia o outro.
O que me custa aceitar (e V. saúda-o) é que estas medidas administrativas estejam a ser tomadas para encaixarem numa regionalização de Portugal a golpe. Os portugueses já disseram que a não desejavam e vão ´voltar a dizer.
Mas se assim é, se estão a regionalizar o país nas costas dos portugueses, então a minha crença de que o Ministro quer fazer bem é
mesmo arriscada, frustrante. Está mesmo a enganar os que precisam do SNS.
Fernando Marques,
ResponderEliminaras populações insurgem-se porque ninguém ainda lhes fez entender que as novas soluções são melhores que as antigas. As populações insurgem-se porque descrêem nos seus representantes, e têm razões para isso.
Em relação ao tempo de espera nos centros de referência, é natural que existam, como existem agora noutros centros. Enquanto não se resolverem os acessos aos cuidados primários de saúde, ou seja, consultas de Medicina Familiar e de outras Especialidades, haverá sempre horas de espera nas urgências, pois a maior parte dos casos não deveria lá estar.
Quanto ao facto de ser ou não verdade o SNS estar mais depressa disponível para assistir casos complicados de doentes com meios económicos passando-os à frente da "vil gente", como lhe chama, deixando situações graves em lista de espera, respondo-lhe com um rotundo não. E de facto eu conheço esta área.
Relativamente à regionalização, que eu defendo, não tem nada a ver com a reorganização dos mapas de urgências hospitalares e das maternidades. Falei na regionalização como uma solução que poderá melhorar o desenvolvimento do interior e travar a sua desertificação. Finalmente, o facto de ter havido um referendo em que o resultado foi negativo não significa obrigatoriamente que não se repita o referendo e que o resultado não se modifique. Já aconteceu com a IVG, lembra-se?
Há uma coisa em que estamos de acordo. As decisões devem ser políticas, embora baseadas em pareceres técnicos. E foi isso que o Ministro tomou, uma decisão política que, para variar, está a ser cumprida. No que diz respeito à avaria da única ambulância, parece-me que isso é que é “demagogiazinha”.
Afinal concordo consigo em mais uma coisa: também estou convencida que o Ministro quer e está a tentar fazer bem.